24.11.1975 | Conferência na Universidade de Yale — Seminário Kanzer

[ Yale University, Kanzer Seminar ]

Conférences et entretiens dans des universités nord-américaines. Scilicet, 1975, n. 6/7; pp. 7-31.

Não é fácil… It is not easy to speak in a country which is perfectly strange for me [Não é fácil falar num país que me é perfeitamente estranho]. Vejam só, estou tentando me fazer ouvir por todos, ainda que o meu inglês seja bastante elementar e ainda que esteja tentando melhorá-lo — estou tentando melhorá-lo este ano, de forma um pouco paradoxal, por meio da leitura — por meio da leitura de Joyce (risos).[1] Um dos meus ouvintes, inspirado pela minha recente conferência (uma conferência que me foi solicitada para abrir o congresso sobre Joyce)… Um ouvinte do meu seminário, em que as pessoas se aglomeram, para a minha grande surpresa assim como para a de todos — e, naturalmente, eu não havia anunciado minha conferência sobre Joyce —, escreveu um artigo numa revista francesa em que a literatura é particularmente retorcida. Torcida, assim. Mas às vezes aparecem coisas nessa revista que fazem sentido — às vezes, muito sentido —, e em particular o que foi aventado pelo meu ouvinte: ele aventou que, depois de Joyce, a língua inglesa não existia mais.

Evidentemente, não é verdade, já que, até Finnegan’s Wake, Joyce respeitou o que Chomsky[2] chama de “estrutura gramatical”. Mas, naturalmente, ele fez a palavra inglesa passar por maus bocados. Chegou ao ponto de injetar no seu próprio gênero de inglês palavras pertencentes a uma série de outras línguas, inclusive o norueguês, e certas línguas asiáticas até. Ele forçou as palavras da língua inglesa compelindo-as a admitir outros vocábulos; vocábulos que não são nem um pouco respeitáveis — se é que posso dizer isso — para alguém que use o inglês.

Pode-se dizer que em inglês existe, como um todo, dois tipos de vocábulo: os de raiz latina e os ditos “germânicos”, que, na verdade, não são germânicos, mas pertencem a outro ramo do indoeuropeu: o anglo-saxão.

É do lado saxão que se encontram as raízes germânicas, mas, (8) no fim, há algo específico do inglês para ser estudado enquanto tal para apreender o que o caracteriza em oposição às outras línguas.

Mas a coisa que importa — pelo menos tal como nós, analistas, a concebemos — é dizer a verdade. E como temos, dessa verdade, uma ideia um pouco particular, nós sabemos que é muito difícil.

E, como ficou combinado que eu falaria primeiro e haveria perguntas em seguida, gostaria de começar fazendo o que é devidamente chamado de “contato” com os senhores que estão aqui esta noite; fazendo — por que não? —, eu mesmo, perguntas. Naturalmente, isso supõe que os senhores vão querer responder, nem que seja com outra pergunta.

Em primeiro lugar, gostaria de dirigir uma pergunta precisamente para aqueles que escolheram se arvorar de psicanalistas. Eu gostaria de lhes perguntar — e terei de responder primeiro, necessariamente — como foi que chegaram ao que, no fim das contas, é razoável chamar de seu… job [trabalho]. Ser um analista é um job e, de fato, um job muito duro. Chega mesmo a ser um trabalho excepcionalmente cansativo; e se retomo as palavras do último analista que atendi antes desta visita aos Estados Unidos, ele me confidenciou que precisava descansar um pouco entre cada uma de suas análises e que isso dava ritmo ao trabalho dele.

De minha parte, para lhes dizer a verdade, não tenho tempo de descansar entre duas análises. Isso porque, por conta da minha notoriedade, chega muita gente para ser analisada, para me pedir análise. Ontem à noite, na casa de Shoshana Felman, um grupo de jovens me perguntou como é que eu escolhia os meus pacientes. Respondi que não os escolhia assim, direto, mas que eles tinham de testemunhar o que esperavam como resultado desse pedido.

Agora, deixem-me responder à minha pergunta: como é que virei psicanalista? Eu cheguei a isso tarde da vida, não antes dos trinta e cinco. Havia cometido o que, na França, é chamado de thèse de doctorat [tese de doutorado] em medicina. Não era o meu primeiro escrito, pois uma tese tem de ser realmente escrita. Uma tese é, por definição, aquilo que tem de ser escrito e defendido. Naquela época, uma tese era coisa séria, por meio da qual a gente se expunha à contradição.

(9) Hoje as pessoas se apresentam para uma banca composta habitualmente por dois ou três de seus antigos supervisores, perfeitamente informados acerca do assunto que, na maioria das vezes, eles é que sugeriram. Não era o meu caso. Tive de impor, realmente, a minha tese. Eu a chamei — isto é para os psiquiatras aqui presentes — Da psicose paranoica em suas relações com a personalidade. Eu era ingênuo naquela época. Acreditava que a personalidade era coisa fácil de apreender. Eu não ousaria mais dar esse título àquilo de que se tratava, pois, na verdade, não acredito que a psicose tenha algo a ver com a personalidade. A psicose é uma tentativa de rigor. Nesse sentido, eu diria que sou psicótico. Sou psicótico pelo simples fato de que sempre tentei ser rigoroso.

É evidente que isso vai bastante longe, já que supõe que os lógicos, por exemplo, que tendem a esse fim, e também os geômetras, compartilhariam em última análise de uma certa forma de psicose. Hoje eu penso assim. Para essa tese, eu não havia embarcado imprudentemente; havia reunido trinta e três casos de psicose: em nenhum encontrei exceção a essa busca por rigor. Mas, como não se pode — contrariamente à prática comum, eu não acho que se possa — falar de trinta e três casos (a minha tese teria tido milhares de páginas…), me contentei com escrever uma tese com um número razoável de páginas — quer dizer, um volume que desse para segurar na mão —, e falo ali de um desses casos que me parecia exemplar, especificamente pelo fato de a pessoa em questão ter cometido vários… escritos. Ela havia cometido esses escritos na forma de várias cartas ultrajantes para um monte de gente; quer dizer, ela era erotômana.

Umas quantas pessoas aqui sabem, penso eu, o que é uma erotômana: a erotomania implica a escolha de uma pessoa mais ou menos célebre, e a ideia de que essa pessoa não se preocupa com nada além de você. Seria necessário descobrir como essa ideia cria raízes, mesmo que isso tenha sido impossível até então.

O certo é que, uma vez acionado o mecanismo, todo fato prova que a ilustre personagem (nesse caso, uma mulher) está numa relação amorosa não com a personalidade, mas com a pessoa nomeada, designada por um certo nome. Na época, essa pessoa estava com o nome nos jornais após o gesto (10) que ela havia praticado contra uma atriz então célebre, de forma coerente com a sua erotomania dirigida a essa atriz — da mesma forma como havia sido dirigida antes a outras celebridades (não é raro ver esse deslizamento operar de uma figura a outra). Em todo caso, ela havia machucado um pouco essa atriz e foi mandada para a cadeia. Eu me permiti ser coerente e pensei que uma pessoa que sempre soube tão bem o que estava fazendo sabia também a que isso a levaria, e é um fato que a sua estada na prisão a acalmou. De um dia para o outro desapareceram as suas até então rigorosas elucubrações. Eu me permiti — tão psicótico quanto minha paciente — levar isso a sério e pensar que, se a prisão a havia acalmado, ali estava o que ela havia realmente buscado.

Por conseguinte, dei a isso um nome um tanto bizarro: chamei de “paranoia de autopunição”.

Obviamente, talvez fosse levar a lógica um pouco longe demais. E isso me fez observar que havia em Freud algo da mesma ordem.

Freud não estudou principalmente os psicóticos. Mas, assim como eu, ele de fato estudou os escritos de um psicótico, o famoso presidente Schreber. E, para o presidente Schreber, Freud não adota o mesmo tipo de posição que eu. É verdade que era um caso de lógica muito mais avançado. Mas observei, por causa do que constitui o fundo do seu pensamento, que Freud não era psicótico. Ele não é psicótico, ao contrário de muitos, porque se interessava por algo diferente. O seu primeiro interesse era a histeria. E a sua via de aproximação dessa outra coisa era perfeitamente séria, consistindo não em compilar escritos — pois os casos que ele tratava não eram gente que inundava com escritos, ao contrário dos psicóticos —, mas em escutar. Ele passava bastante tempo escutando, e do que ele escutava resultava algo paradoxal com relação ao que acabo de dizer, que é uma leitura.

Foi escutando histéricas que ele leu que havia um inconsciente.

É algo que ele só podia construir e no qual ele próprio estava implicado; implicado na medida em que, para o seu grande espanto, ele percebia que ele não podia evitar participar do que as histéricas lhe contavam, que ele era afetado por aquilo.

(11) Naturalmente, cada uma das coisas nas regras resultantes pelas quais ele estabelece a prática psicanalítica é concebida para combater essa consequência, para conduzir as coisas de modo a evitar ser afetado. Para esse fim, ele promoveu um certo número de regras que são muito saudáveis, e que implicam a suposição de que a histérica possui o que é chamado de “inconsciente”. E o que tentei — peço desculpas por abreviar assim — fazer foi reconhecer o que esse inconsciente postulado por Freud poderia muito bem ser. Agora que os analistas são tão numerosos, cada qual pode saber o que é a leitura do inconsciente, pois enfim, desde que emergiram os analistas, as pessoas começaram a compreender alguma coisa; mas esse fenômeno, praticamente impensável, de que tanta gente chegue à análise, levanta um problema real. Eles não só chegam até nós, mas voltam. O que poderia induzi-los a encontrar uma satisfação como essa na análise, sendo que passar pela análise é uma experiência tão desconfortável? Não é todo mundo que é capaz de fazer. É preciso ter uma certa dose, ter ouvido suficientemente a respeito para saber que ela pode ter certos efeitos — esses efeitos com os quais realmente contam as pessoas que empreendem uma análise, aqueles que chamo de “analisantes”. Eles contam com esses efeitos particularmente em relação às coisas que lhes atravancam o caminho, coisas que têm a ver com… não vou dizer o pensamento, mas sim com o que o impede de funcionar logicamente, com o que o parasita (por exemplo, uma fobia ou obsessões, agora estudadas de forma quase exaustiva, tais como implicadas por essa forma muito especial de doença mental que é precisamente uma neurose) ou, no caso das histéricas, coisas que se manifestam, elas próprias, pelo corpo.

Esses efeitos corporais, que foram diversamente qualificados, constituem aquilo que se pensa ser a mesma coisa que antigamente se chamava de “estigmas”, pelos quais se identificavam as assim chamadas “feiticeiras”.

É realmente curioso as coisas terem virado de tal forma que Freud tenha podido supor que a causa de todas essas neuroses — histeria, fobia, obsessões — devesse ser procurada no que ele chamava de “inconsciente”.

Agora, na nossa experiência — posso dizer “nossa” (12) já que ela é assimilável —, o que é que nós vemos, o que é que ouvimos quando empreendemos a análise de uma neurose?

Vemos, como nos diz Freud, as pessoas nos falarem irresistivelmente de suas mamães e de seus papais. Enquanto a única instrução que lhes damos é dizer simplesmente o que elas… não vou dizer o que elas estão pensando, mas o que acreditam estar pensando, pois, na verdade, ninguém pensa e é pura ilusão pensar que se pensa — uma ilusão que foi a fonte de um certo número de sistemas filosóficos.

Nós imaginamos que pensamos; nós imaginamos que acreditamos no que dizemos. “Saber” e “crença” são palavras-chave na boca dos pensadores, lógicos e… psicóticos, em última análise. A única coisa que não consigo compreender é como eles podem falar em saber e em crença, como se o saber pudesse ser perfeitamente autenticado, ao passo que a crença seria um simples caldeirão de opiniões. Como é que podemos dizer a diferença entre saber e crença? Eles tentam fornecer critérios…

Tem um excelente escritor, um lógico chamado Hintikka,[3] que escreveu um livro assim intitulado no qual realiza com intrepidez a tentativa de distinguir Knowledge and belief [Conhecimento e crença]. Ele acredita profundamente haver uma diferença. Mas porque ele não vê que três quartos do assim chamado “saber” não são nada além de crença, tem algo ali que me diverte.

Em todo caso, o que ouvimos no decorrer de uma análise é um esforço de sair de tudo isso por um caminho que nada tem a ver nem com o conhecimento nem com a crença; sair disso dizendo apenas o que passa realmente pela cabeça.

O fantástico aqui é que, quando as pessoas tomam esse caminho, são sempre levadas de volta a algo que associam essencialmente à maneira como foram criadas pela família. As primeiras histéricas de Freud estavam muito preocupadas com o pai; tudo o que se tem de fazer é ler o primeiro avanço, os Estudos sobre a histeria — é totalmente notável. Em seguida, por causa dessas histéricas, Freud ficou interessado nos sonhos, pelo fato de elas lhe falarem deles.

Tentemos abordar essas coisas corretamente, isto é, pegando Freud pelo começo, antes de ele se engajar (13) na metapsicologia. A metapsicologia implica a construção de algo que pressupõe a hipótese de uma alma: é o que meta-psicologia significa; supõe a psicologia como um dado. Ela evoca a metafísica, algo que permitiria considerar a psicologia de fora.

Antes de Freud partir nessa direção, ele havia escrito três livros: A interpretação dos sonhos, A psicopatologia da vida cotidiana e O chiste e sua relação com o inconsciente. O que me impressionou quando li esses três livros é que o conhecimento que Freud tinha dos sonhos esteve restrito ao relato que deles se fazia. Daria para dizer que o sonho real é inefável e, em diversos casos, é assim que é. Como pode ser a experiência real do sonho? Era uma das objeções feitas a Freud: ela carece de validez. Pois é precisamente sobre o material do próprio relato — a maneira como o sonho é contato — que Freud trabalha. E se ele faz uma interpretação, é com a repetição, a frequência, o peso de certas palavras. Se eu tivesse aqui um exemplar de A ciência dos sonhos,[4] poderia abrir em qualquer página e os senhores veriam que é sempre o relato do sonho como tal — como matéria verbal — que serve de base para a interpretação.

Em A psicopatologia da vida cotidiana, é exatamente a mesma coisa. Se não houvesse relato do lapso ou do ato falho, não haveria interpretação.

O principal exemplo é dado pelo chiste, cuja qualidade e cujo sentimento de satisfação mostrado por aquele que ri — Freud insiste nisso — vêm essencialmente do material linguístico.

Isso me fez afirmar, o que me parece evidente, que o inconsciente é estruturado como… (eu disse “é estruturado como”, o que talvez fosse exagerar um pouco, por pressupor a existência de uma estrutura — mas é absolutamente verdade que há uma estrutura)… o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Com uma reserva: o que cria a estrutura é a maneira como a linguagem emerge no início em um ser humano. É isso, em última análise, que nos permite falar em estrutura. As linguagens têm algo em comum; talvez não todas, já que não podemos conhecê-las todas; talvez haja exceções… mas é verdade para as linguagens que encontramos ao tratar os sujeitos que chegam até nós. Às vezes eles guardaram a memória de uma (14) primeira linguagem, diferente daquela que acabaram por falar. De forma bastante curiosa, Freud observa em sua prática que dela podia resultar uma forma curiosa de perversão — nomeadamente o fetichismo —, que não é ordinariamente causada por esse tipo de ambiguidade. Mas acho que há bastante gente aqui que se lembra do famoso Glanz auf der Nase [lustro no nariz] que veio do fato de um germanófono ter guardado a memória da expressão inglesa to glance at the nose [fitar o nariz]. Freud combinou isso com outros fatos que havia reunido acerca da origem dos fetiches, e que é que eles implicam várias significações em diferentes etapas que levam, todas, de volta ao órgão masculino. Foi assim que Freud, após anos de experiência, chegou a escrever os conhecidíssimos Três ensaios sobre a sexualidade na tentativa de construir algo que seria escansão regular do desenvolvimento para toda criança.

Eu acredito que essa escansão está, ela própria, intimamente ligada a certos patterns [padrões] da linguagem. Quero dizer que as ditas fases oral, anal e até urinária estão muitíssimo profundamente misturadas com a aquisição da linguagem; que a aprendizagem da higiene pessoal, por exemplo, está manifestamente ancorada na concepção que a mãe tem daquilo que ela espera da criança — nomeadamente os excrementos —, o que faz com que, fundamentalmente, seja ao redor da primeiríssima aprendizagem da criança que girem todas as etapas disto que Freud, com seu prodigioso insight [lampejo], chamou de “sexualidade”. Preciso ser um pouco mais breve.

Vou propor que o que há de mais fundamental nas ditas relações sexuais do ser humano tem a ver com a linguagem, no sentido em que não é à toa que chamamos a linguagem que usamos de “nossa língua materna”. É uma verdade elementar da psicanálise que, apesar da ideia de instinto, é muito problemático que um homem esteja, de alguma forma, interessado numa mulher, se ele não teve uma mãe. É um dos mistérios da psicanálise que o menino seja imediatamente atraído pela mãe, ao passo que a menina está num estado de repreensão, de desarmonia com ela. Tenho experiência analítica o suficiente para saber o quanto a relação mãe/filha pode ser devastadora. Se Freud escolhe acentuar isso, edificar toda uma construção em torno disso, não é à toa.

Agora que terminei essa introdução bastante longa, (15) gostaria de voltar à pergunta que fiz no início aos analistas aqui, já que não é necessariamente dessa forma particular, atípica, que eles foram conduzidos à psicanálise. Eu sequer lhes disse tudo o que percorri antes de me interessar pelos psicóticos e antes de eles me levarem a Freud, tendo simplesmente sublinhado que, em minha tese, eu me vi aplicando o freudismo sem saber. Não vou começar de novo. Foi uma espécie de escorregadela pelo fato de que, no final dos meus estudos em medicina, eu fui levado a atender loucos e a falar com eles, e fui assim conduzido a Freud, que falava deles num estilo que também se impôs a mim por conta do meu contato com a doença mental.

Não acho que se possa dizer realmente que os neuróticos são doentes mentais. Neuróticos são o que a maioria é. Felizmente eles não são psicóticos. O que é chamado de “sintoma neurótico” é simplesmente algo que lhes permite viver. Eles vivem uma vida difícil e nós tentamos aliviar seu desconforto. Às vezes damos a eles a sensação de que são normais. Graças a Deus, não os tornamos normais o suficiente para que acabem psicóticos. É esse o ponto em que temos de ser muito prudentes. Alguns de nós têm realmente a vocação de levar as coisas até o limite.

Peço desculpas se o que estou dizendo parece — o que não é — audacioso.

Só posso dar testemunho do que me forneceu a minha clínica. Uma análise não deve ser levada longe demais. Quando o analisante pensa estar feliz com a vida, é o bastante.

Assim, gostaria agora que alguém me diga — e não estou aqui como pedra de toque da resposta, ou seja, não sou eu quem é a pedra de toque — como é que alguém decide se autorizar como psicanalista nos USA.

Já que tenho essa oportunidade de encontrar uns quantos colegas, gostaria de ter uma ideia do que corresponde aqui ao que instituí na minha escola e que chamo de “passe”.

Isso consiste em, no ponto em que alguém se considera preparado o bastante para ousar ser analista, ele possa dizer para alguém da sua própria geração, um par — não seu mestre ou um pseudomestre — o que lhe deu pique para receber pessoas em nome da análise.

(16) Os senhores têm de admitir que a descoberta do inconsciente é uma coisa muito curiosa; a descoberta de um tipo muito especializado de saber, intimamente enlaçado ao material da linguagem, que cola à pele de cada pessoa pelo fato de ela ser um ser humano, e a partir do qual se pode explicar o que é chamado, com ou sem razão, de “desenvolvimento” — isto é, como ele conseguiu se ajustar, melhor ou pior, na sociedade.

O que me impressiona é o quanto ignoramos como acabamos encontrando o nosso lugar aqui ou acolá, no achômetro; é o porquê de sermos tragados por alguma coisa.

É certo que cheguei à medicina porque tinha suspeita de que as relações entre homem e mulher desempenhavam um papel determinante nos sintomas dos seres humanos. Isso me impeliu progressivamente àqueles que não tiveram êxito nisso, já que certamente se pode dizer que a psicose é uma espécie de falência no que concerne à realização do que é chamado de “amor”.

No domínio do amor, a paciente de que estava falando aos senhores podia certamente estar um bocado zangada com a fatalidade. E eu gostaria de terminar com essa palavra.

Na palavra fatalidadefatum — já tem uma espécie de prefiguração da própria noção de inconsciente. Fatum vem de fari, mesma raiz de infans, que naturalmente não se relaciona, como comumente se supõe, com alguém que não fala; mas, a partir do momento em que se cristalizaram as suas primeiras palavras — cristalização material daquilo que o condiciona como ser humano —, não se pode dizer que ele seja infans.

Agora, se alguém quiser me responder, vou considerar que não perdi meu tempo, já que estou convidando a dizer a verdade. Como foi que chegou aí… não vejo por que alguém hesitaria em dizer.

Os senhores podem dizer simplesmente: pertenço a uma associação psicanalítica, pois isso me pareceu uma boa e me deu um trabalho que não é desagradável, já que interessa a todo mundo…

Mas o derradeiro da verdade, a verdade verdadeira, é que entre homem e mulher isso não funciona.

 

(17) PERGUNTAS E RESPOSTAS

Prof. GEOFFROY HARTMAN[5]  (moderador) – Os senhores estão convidados a fazer perguntas.

JACQUES LACAN – Quem começa a tagarelar?

Dr. STANLEY LEAVY[6] – Tenho uma pergunta, Dr. Lacan. Quando analisamos, sempre tentamos encontrar as fantasias inconscientes.

J. LACAN – Eu tentei dar uma fórmula da fantasia, mas não quero impor a minha forma de escrevê-la esta noite.

Dr. LEAVY — Mas como é que o senhor distingue a fantasia, ela mesma, e as palavras utilizadas para comunicá-la? Acaso a análise se realiza pelo estudo — pela leitura, caso prefira — tão somente das palavras da fantasia, ou dá para supor que existe uma fantasia debaixo ou detrás da linguagem? Ou o senhor acha que o analista deve se abster de procurar alguma coisa fora da linguagem?

J. LACAN –  O analista opera deixando-se guiar pelos termos verbais utilizados pela pessoa que fala. Se Freud recomenda algo, é — ele diz explicitamente — não se precaver de qualquer ideia que seja; um dia os senhores podem se deparar com um caso totalmente diferente de tudo o que podem ter previsto como classificável. Sigam o que vem da pessoa que estão escutando. No entanto, o que é perturbador é que nunca, na história da análise, apareceu uma fantasia totalmente original. Os senhores descobrem sempre as mesmas velhas coisas. É o suficiente para levá-los ao desespero. Espero não terminar a minha vida sem ter encontrado uma coisa ou outra que poderei deixar à posteridade, algo que terei inventado. Mas, até aqui, a minha inspiração permaneceu sem palavras. É evidente que eu envergo com o fardo. E, como sou muito velho, não posso inventar uma nova fantasia. É algo que toda e qualquer análise no mundo, por mais flexível que seja, não consegue fazer. No entanto, seria prestar um baita serviço, pois os neuróticos são pessoas que aspiram a uma perversão que nunca irão atingir. (18) Seria prestimoso inventar alguma coisa, mas sempre se acaba andando em círculos. Por exemplo, até onde pode levar a fantasia de apunhalar o vizinho, de mandá-lo para a cucuia, com mil facadas? Ela existiu e foi praticada desde tempos imemoriais, e evidentemente estimula a imaginação de alguns, mas todo mundo sabe que estes não são nunca os que a colocam realmente em prática. Para fazer isso, é preciso estar efetivamente estabelecido em algum lugar como executor patenteado; coisas assim só são feitas por pessoas que são pagas para isso.

Na verdade, a coisa terrível é que a análise, em si mesma, é atualmente uma chaga: estou querendo dizer que ela própria é um sintoma social, a última forma de demência social que foi concebida.

Isso não foi concebido à toa: aconteceu que, num certo momento da história, a medicina observou que ela não conseguia tratar tudo, que ela estava tendo de lidar com algo novo.

A análise é realmente a retaguarda da medicina, o lugar onde ela pode encontrar refúgio, pois nas outras áreas ela se tornou científica, coisa que menos interessa às pessoas.

Para falar rigorosamente, a ciência não emerge assim simplesmente. É preciso realmente meter bronca. Mas, uma vez principiada, há escolas científicas. O que interessa à maioria das pessoas num departamento científico é o lugar de destaque. As pessoas que realmente contribuíram de alguma forma para a ciência podem ser contadas nos dedos, elas ganharam um prêmio Nobel. Não é todo mundo que é capaz disso: a maioria das pessoas usa da ciência de uma forma muito particular e limitada. O curioso é que Freud achava estar fazendo ciência. Ele não estava fazendo ciência, estava era produzindo uma certa prática que pode ser caracterizada como a última flor da medicina. Essa última flor encontrou refúgio aqui porque a medicina tinha muitos meios de operar, inteiramente repertoriados de antemão, pautados como papel de partitura; porque ela tinha de se deparar com o fato de que havia sintomas que nada tinham a ver com o corpo, mas apenas com o humano ser afligido, por assim dizer, pela linguagem. Por meio dessa linguagem pela qual é afligido, ele supre o que é absolutamente incontornável: nada de relação sexual no humano.

(19) A dita “fundamental” sexualidade de Freud consiste em observar que tudo o que tem a ver com sexo é sempre malogrado. Essa é a base e o princípio da própria ideia de fiasco. O próprio malogro pode ser definido como aquilo que é sexual em todo ato humano. É por isso que há tanto ato falho. Freud indicou perfeitamente que um ato falho sempre tem a ver com o sexo. O ato falho por excelência é precisamente o ato sexual. Sempre um dos dois está insatisfeito. É preciso dizer a verdade, afinal. E é disso que as pessoas sempre falam.

Sra. TURKEL[7] – Por que o senhor diz que Freud não estava fazendo ciência quando a própria intenção do senhor, se estou entendendo corretamente, é fornecer à psicanálise o seu verdadeiro objeto, o inconsciente, precisamente como objeto de uma ciência?

J. LACAN – Acredito já ser bastante o fato de que Freud tenha inaugurado um modo inteiramente novo de relações humanas — já que é evidente que o importante é aquilo que se passa entre analisante e analista. Se a chamei de chaga social, é porque aquilo que é social é sempre uma chaga.

Mas por que eu disse isso? É porque — o que estou tentando fazer? ter êxito, naturalmente… sou que nem todo mundo, ingênuo — eu imaginava que a linguística era uma ciência. Ela teria essa ambição. Ela tenta fazer como se fosse uma ciência. Observem apenas as mentes mais sérias na linguística: Jakobson, Chomsky — disseram-me que ele estava numa nova trilha agora, mas o próprio Chomsky não conseguiu encontrar algo melhor do que repetir a lógica de Port-Royal.[8] Ele a chamou de cartesiana,[9] mas é só a lógica de Port-Royal, não vai além. A lógica de Port-Royal já coloca questões muito sérias. O que eles chamavam de lógica já é uma forma de linguística. Basta abri-la para ver que aquilo de que ela trata é dessa ordem. E se reconheço que o inconsciente não pode, de forma alguma, ser abordado sem referência à linguística, considero que adicionei o meu esforço ao avanço freudiano. Mas já é bastante que o próprio Freud tenha aberto esse caminho; fornecido o eixo e a prática; mostrado que era, de agora em diante, a única medicina real possível.

Cadê a historiadora aqui, a historiadora da psicanálise, é a senhora?

 (20) LUCILLE RITVO[10] – Sim.

J. LACAN – A senhora é historiadora. A senhora adiciona um novo capítulo à sua história da psicanálise com o que acabo de dizer?

L. RITVO – O senhor quer dizer esta conferência?

J. LACAN –  Eu disse expressamente que a psicanálise era um momento histórico.

L. RITVO – Não é verdade para todas as coisas?

J. LACAN – A psicanálise tem um peso na história. Se tem coisas que pertencem à história, são coisas da ordem da psicanálise.

L. RITVO – Parece demasiado vago e geral. O que isso tem a ver com a psicanálise?

J. LACAN – O que se chama de “história” é a história das epidemias. O império romano, por exemplo, é uma epidemia. O cristianismo é uma epidemia.

Sr. X. – A psicanálise também.

J. LACAN – A psicanálise também é uma epidemia.

Prof. HARTMAN – É contagioso…
L. RITVO – A história se preocupa com tudo o que as pessoas estão dispostas a pagar para encontrar escrito como história.

J. LACAN – Isso é absolutamente verdadeiro. É algo que existe em segundo grau. As pessoas escrevem sobre o que foi escrito. Por isso são exigidos documentos escritos. Os senhores só podem fazer história escrevendo de segunda mão sobre o que já está escrito em algum lugar.

Sem o documento escrito, os senhores sabem que estão num sonho. O que o historiador exige é um texto: um texto ou um pedaço de papel; de toda forma, tem de haver em algum lugar, num arquivo, algo que certifique, por escrito, e cuja falta torna a história impossível… O que não pode ser certificado por escrito não pode ser considerado história.

L. RITVO – Não estou certa de que tenha de estar escrito para ser história. Há tradições orais; as pessoas que não têm escrita também podem ter uma história, uma tradição que elas se transmitem. O senhor também pode fazer história reunindo artefatos. Em outras palavras, creio eu — pode ser que eu não esteja em bom terreno — que na arqueologia e na história da arte, mesmo (21) se não se dispõe de palavras escritas em papel, pode-se fazer história.

J. LACAN – A arte oral sempre termina numa forma escrita. O historiador enquanto tal exige um documento escrito; ele não faz história da arte. A história da arte é algo totalmente impreciso. Para que a história da arte faça sentido, vocês precisam de uma data: algo que deixou um rastro escrito. Quando foi construída a catedral de Chartres? O que é propriamente da ordem da história deve ser datável.

Prof. EDWARD CASEY[11] – Qual o lugar do imaginário na história? O senhor acredita que a história é totalmente simbólica, para retomar os seus próprios termos?

J. LACAN – É uma espécie particular de simbólico; um simbólico que apanha o real pela escrita.

Prof. CASEY – Mas, mesmo assim, há uma grande proporção de imaginário na história. As fábulas, por exemplo, mesmo sendo escritas, elas são…

J. LACAN – Com as fábulas, a questão é saber como nos foram transmitidas. Elas nos são transmitidas pela escrita.

Prof. CASEY – Naturalmente, mas, ainda que escritas e mescladas com tradições precisas, elas contêm o que é imaginário e não datável.

J. LACAN – Felizmente, há edifícios que ainda não desmoronaram. Vai acontecer, mas…

Prof. CASEY – Mas qual o estatuto desses edifícios, sem base na realidade e que são, não obstante, escritos?

J. LACAN – Na realidade, não é o estatuto dessas coisas que me concerne diretamente enquanto psicanalista.

Prof. CASEY – Naturalmente.

J. LACAN – Não estou tentando fazer uma filosofia da arte. Já estou por demais ocupado com as consequências da minha clínica, que é absolutamente punctiforme — é apenas num número limitado de pontos específicos que ela toca o domínio da arte. Freud tenta se engajar em alguma outra coisa e ver na arte uma espécie de testemunho do inconsciente.

Ele faz esse esforço em diversas ocasiões que não foram todas especialmente felizes. Com a Gradiva de Jensen, isso não funcionou. (22) Pois, afinal, nada força o artista a admitir que ele tem um inconsciente. É psicanálise selvagem. Toda interpretação, mesmo a do Moisés, é apenas uma conjectura. Não podemos ter certeza, pois não temos como analisar a pessoa que o esculpiu.

Prof. CASEY – Há aí, não obstante, uma analogia nessa discussão entre história e psicanálise, no sentido em que nos dois domínios se encontram coisas que são imaginárias e não acontecimentos reais.

J. LACAN – Sim, reconstruções. Para esses últimos, não podemos ter certeza de nada. O que não nos impede de intervir.

Prof. CASEY – Mesmo os senhores não tendo certeza, não há uma diferença conforme esses acontecimentos tenham, ou não, realmente ocorrido?

J. LACAN – Deixe-me dizer: o senhor nunca pode ter certeza de que uma lembrança não é encobridora. Isto é, uma lembrança que bloqueia o caminho disto que posso localizar no inconsciente, isto é, a presença — a chaga — da linguagem. Nós nunca sabemos; uma lembrança, conforme imaginariamente revivida — o que é uma lembrança encobridora —, é sempre suspeita. Uma imagem sempre bloqueia a verdade. Estou usando aqui termos que todo analista conhece. O próprio conceito de lembrança encobridora mostra a desconfiança do analista em relação a tudo o que a memória pensa reproduzir. O que se chama, estritamente falando, de “memória” é sempre suspeito. Aliás, é por isso que Freud trombou com o famoso trauma original. O caso do Homem dos Lobos só é tão longo porque Freud tenta desesperadamente tornar algo claro e não consegue saber se aquilo que o Homem dos Lobos relata, sobre a cópula dos pais, não passa de uma lembrança encobridora. Um trauma é sempre suspeito.

Prof. CASEY – Mas não necessariamente imaginário, de modo que…

J. LACAN – A sexualidade é sempre traumática enquanto tal. O primeiro tipo de trauma é evidentemente aquele do qual Freud dá testemunho — afinal, vamos dar às Histórias clínicas todo o seu peso.[12] Em que consiste, então, a fobia do pequeno Hans? No fato de que ele constata subitamente que tem um pequeno órgão que mexe. Isto está perfeitamente claro. E ele quer lhe dar um sentido. Mas, no que diz respeito a isso, nenhum menino (23) nunca experimenta que esse pênis esteja naturalmente ligado a ele. Ele sempre considera o pênis como traumático. Quero dizer que ele pensa que ele pertence ao exterior do corpo. É por isso que ele olha para ele como uma coisa separada, como um cavalo que começa a empinar e escoicear.

O que pode significar a fobia do pequeno Hans, senão que ele está traduzindo o original da história, o fato de que ele nota que tem um pênis?

Ele ainda não conseguiu domá-lo com palavras. Essas palavras, é o analista, isto é, seu pai (Freud ainda não está se ocupando dele)… Freud o pressiona a dizer as palavras que irão acalmá-lo. E, como temos o próprio testemunho de Hans — adulto, ele veio para os Estados unidos —, eles conseguiram perfeitamente livrá-lo de sua fantasia, de modo que ele nem se lembrava mais de ter sido o pequeno Hans.

Esse caso foi um sucesso, mas o que ele significa, a não ser que o pai, com a ajuda de Freud, consegue impedir que a descoberta do pênis tenha consequências demasiado desastrosas?

Dr. ROBERT LIFTON[13] – Posso fazer uma pergunta? Retornando à primeira asserção do senhor de que toda história é do foro da psicanálise — o que é perfeitamente verdadeiro, penso eu —, exerce-se um considerável esforço agora em nosso país, e também na França, creio eu, para associar de alguma forma psicanálise e história, para abordar a história com o insight [lampejo] psicanalítico, e eu acredito que há aí um dilema fundamental concernindo à forma como se aborda a simbolização. Caso se leve a sério o que o senhor chama de “simbólico”, percebe-se que ele está em discordância com o conceito analítico clássico de formação simbólica, pois o do senhor considera a totalidade do mentismo humano como tomado nesse processo simbólico de criação e recriação, e, caso se aborde a história, ele se torna cada vez menos satisfatório.

J. LACAN – É absolutamente verdadeiro.

Dr. LIFTON – Portanto, nesse dilema sobre a forma como se utiliza do insight psicanalítico para abordar a história, meu próprio objetivo é de me afastar dos conceitos de defesa e de instinto em prol da continuidade e da descontinuidade da vida tal como ela é simbolizada. E acredito que se pode abordar …

J. LACAN – Continuidade e descontinuidade?

(24) Dr. LIFTON – Ou o que se poderia chamar de morte e continuidade. Em outras palavras, como se pode reter…

J. LACAN – É a tendência do senhor? Então eu sou…como o senhor se chama?

Dr. LIFTON – Robert Lifton.

J. LACAN – Eu sou liftoniano (risos). Pois acho a direção do senhor tão válida quanto a minha. Tomei a minha direção por causa do caminho pelo qual cheguei à psicanálise, mas não vejo razão pela qual não haveria outra chave. O senhor só tem de ver o que ela abre…

L. RITVO – Penso, enquanto historiadora da ciência, que as pessoas sempre tomaram — sejam elas quais fossem — descobertas científicas para tentar relacioná-las a fenômenos outros que não aqueles que os haviam provocado. A física newtoniana, por exemplo, foi a base da Constituição americana. Não acredito que Newton tenha sonhado com coisa parecida.
E eu acredito que quanto mais você se afasta do fenômeno para o qual a teoria foi desenvolvida, menos ela é aplicável. Então penso que aquilo que a psicanálise e a história têm em comum é o ser humano, mas a psicanálise o considera enquanto indivíduo, tal como ele se revela numa situação muito particular, e é a responsabilidade de qualquer um que dela deseje se servir num outro campo testar e ver se ela é aplicável, e ainda é válida, nesse campo. Não acredito que se possa tomá-la como um todo e esperar que seja condizente a uma situação diferente daquela na qual foi desenvolvida.

J. LACAN – A senhora tem uma concepção ambiciosa da história… a mesma que a dos Padres da Igreja.[14] Os Padres da Igreja reinterpretam o conjunto da história de modo que se torna necessário que a história engendre a Igreja.

Prof. HARTMAN – Se a Igreja é uma teoria, algo comparável a uma teoria científica, o doutor Lacan está dizendo que, segundo a senhora, toda a história teria de ser reinterpretada para se mostrar de acordo com essa teoria.
L. RITVO –  Não, estava dizendo que não se pode aplicar uma teoria científica como um todo à história.
Prof. HARTMAN – A senhora estava falando do caráter transitório de toda teoria científica…
(25) L. RITVO – Sim, uma teoria científica é transitória.
Prof. HARTMAN — Uma teoria científica se mostra mortal, então, dentro de um limite de tempo…
L. RITVO – É verdade, ela é válida para um conjunto particular de observações. Por exemplo, a teoria de Newton é válida para um certo conjunto de observações; para além, convém a teoria de Einstein, e não mais a de Newton. Assim, Newton é invalidado para além desse ponto.

J. LACAN – Sim.

Prof. HARTMAN – O que a senhora ia dizendo acerca da psicanálise, então?
L. RITVO – Eu ia dizendo que a psicanálise não pode ser válida, a não ser no campo das suas observações, que é a situação analítica.

J. LACAN – É exatamente o que eu digo. Não temos como saber se o inconsciente existe fora da psicanálise.

L. RITVO – Não sei se não tem como saber; não sei se isso já foi tentado e se, tentando, ela será ou não válida para domínios externos.
Prof. LOUIS DUPRÉ[15] – Acaso não podemos tirar uma conclusão disso que o senhor disse, doutor? No caso de várias interpretações analíticas na arte e na literatura, muitas vezes me perguntei se o intérprete não havia reduzido o símbolo a um sintoma e, assim, operado uma simplificação que não corresponde mais ao original.

J. LACAN – Sim, é o que a história da arte faz.

Prof. DUPRÉ – É. Mas também certas interpretações analíticas que tendem a…

J. LACAN – Que são sempre excessivas…

Prof. DUPRÉ – Que tendem a reduzir o significante a um simples significado…

J. LACAN – Concordo plenamente…

Prof. DUPRÉ – … Reduzido a um simples signo que não é mais um símbolo. E assim se perde a verdadeira natureza do significante como tal.
Prof. HARTMAN (moderador) – Ainda não ouvimos nenhum psicanalista reconhecer como ele ou ela se autoriza…
Dr. MARSHALL EDELSON[16] – Para voltar à questão de se a linguística é uma ciência, será que a psicanálise é uma ciência? Em A interpretação dos sonhos, Freud diz a certa altura: “Nossas ideias nos aproximam da realidade desconhecida”.[17] Se a ciência é esse esforço de se aproximar da realidade desconhecida, então a linguística, a psicanálise são ciências.

(26) J. LACAN – Mas elas não têm esse estatuto. Pois o que foi proposto como ciência começa com Galileu. É na esteira de Galileu que veio Newton… E estamos apenas começando a ter ideia do que é a biologia.

Sra. TURKEL – Mas qual é sua definição de ciência? Essa é a pergunta.

J. LACAN – Até agora, tudo o que foi produzido como ciência é não verbal. Naturalmente, é evidente que a linguagem é utilizada para ensinar as ciências, mas as fórmulas científicas são sempre expressas por meio de letrinhas. , como relação entre a massa e a aceleração da velocidade, só pode ser explicado na linguagem por longos rodeios. A sua significação tem de ser estritamente limitada e, ainda assim, não é perfeitamente satisfatória. Por exemplo, quando estamos tratando dos elétrons, não sabemos mais realmente o que entendemos por massa ou velocidade, pois somos incapazes de mensurá-los. A ciência é o que se mantém, em sua relação com o real, graças ao uso de letrinhas.

Sra. TURKEL — É o que confere essa importância para o senhor aos matemas na psicanálise?

J. LACAN – É certo que eu tento dar forma a alguma coisa que agiria como núcleo da psicanálise, da mesma forma que essas letrinhas.

Tentei escrever uma certa fórmula, que expresso da melhor forma que posso, com um S grande que representa o sujeito e que tem de estar barrado (S/), daí um sinalzinho (à) e, por fim, um (a). Tudo posto entre parênteses. É uma tentativa de imitar a ciência. Pois acredito que a ciência só pode começar assim.

Dr. SIDNEY BLATT[18] – Mas isso não é impossível para uma ciência psicológica? Fico inquieto com essa definição, pois diria que a psicanálise e a psicologia das profundezas nunca poderão satisfazê-la.
Sra. Y. – Ela também elimina a biologia.
Dr. BLATT – A questão não é se é uma ciência, ou não; tudo depende da forma como se define a ciência. A questão é que a diferença é de discurso. A diferença de discurso é que, na psicanálise, na psicolinguística e noutros domínios, o homem tenta mais refletir sobre ele próprio do que (27) sobre um objeto externo. Isso exige um conjunto diferente de definições, de meios de investigação. Que definamos como ciência, ou não, não é o que importa. A questão é que possamos especificar os diferentes domínios do discurso

J. LACAN – Exato.

Sh. FELMAN[19] (intérprete) – Já a outra pessoa que falou pensava que, na psicanálise, a matematização era um desejo impossível, que nela jamais seria possível matizar tudo.

J. LACAN – Não disse matematizar tudo, mas começar a isolar um mínimo matematizável.

Dr. BLATT – Em outras palavras, há dois modelos dos quais um seria, como o senhor acaba de dizer, a tentativa de abordar uma estrutura matemática, ainda que de forma limitada. Mas o outro modelo, que acredito mais possível, é ignorar essa exigência e, em vez disso, ater-se — pois creio ser importante de se ater à ciência tradicional — ao sentimento de evidência e a princípios ou conceitos construídos ao redor da evidência de uma forma que é sempre do foro da tradição científica, mas que exige critérios diferentes para a ciência do self, na medida em que oposta à ciência dos objetos externos.
O senhor admitiria a possibilidade de um modelo científico diferente do seu?

J. LACAN – Sim, admitiria.

L. RITVO – Os cientistas se perguntam até se a matemática é uma ciência, já que ela não tem fatos, não tem campo de observação. Ela é uma ferramenta para a ciência, mas os cientistas não estão certos de que seja uma ciência.
Profa. FELMAN – Mas tudo depende da definição do que é a ciência.
L. RITVO — É verdade. A definição dele omite a biologia, a geologia e, na realidade, tudo o que é biológico…
Profa. FELMAN – A senhora toma a ciência experimental como modelo exclusivo?
L. RITVO – Não, mas a ciência num sentido mais amplo é uma abordagem para avaliar se as formulações são de ordem especulativa, hipotética ou suficientemente comprovadas para constituir uma teria. Como dizia Darwin: “Você não pode lesar a ciência (28) com uma falsa teoria, somente com uma falsificação dos fatos”.[20]

J. LACAN – Mas é notável que a observação só seja satisfeita quando ela desemboca numa fórmula que pode ser chamada de matemática. A observação por si só não satisfaz o espírito, se essa palavra quer dizer alguma coisa.

L. RITVO – É uma visão muito limitada da ciência. Ela omite uma parcela muito grande da ciência.
Dr. EDELSON – Posso evocar algo específico concernindo à linguagem? Como é que posso dizer coisas que nunca foram ditas antes? Como posso pronunciar frases que nunca foram ditas por outrem? Frases que não me são impostas pelo meu meio? Elas vêm de dentro. Elas condizem ao meu entorno, mas ele não me força a dizer o que digo. Eu tenho escolha. Posso dizer um monte de coisas no mesmo entorno.

J. LACAN – Mas… o entorno é uma reflexão…

Dr. EDELSON – Duas outras perguntas. Quando escuto duas frases e elas têm a mesma estrutura, como é que eu sei que elas significam coisas diferentes? Ou melhor: eu escuto duas frases que têm estruturas diferentes e sei que elas significam a mesma coisa? Tentando responder essas perguntas, tenho a teoria de uma estrutura abstrata, o espírito: o que é do foro do meu espírito me permite fazer essas coisas. Posso ter mais de uma teoria. Uma teoria vai me ajudar a explicar melhor que a outra como sou capaz de fazer essas coisas. Ao utilizar novas vias para encarar o mundo, o homem precisou de novos conceitos; isso não é menos científico. Se estou num mundo em que tenho de compreender as coisas por meio de conceitos tais como “regras” e “significação”, esses ainda são conceitos que me ajudarão a compreender. Isso não me torna a-científico. Freud fala mais do sentido ou da significação dos sintomas do que de sua causa. Continua sendo a pergunta de um cientista.

J. LACAN – É precisamente o que Freud introduziu.

Dr. EDELSON – Estamos de acordo.

J. LACAN – É o que Freud introduziu e é por isso que eu levanto a questão da leitura que Freud fez desse sentido. O divertido é que isso funciona. É o que um certo Reik chamava de (29) “surpresa”: a coisa que nos surpreende. Precisamente porque pensamos que só a ciência tem a ver com o real. Mas o real, tal como falamos dele, é completamente desprovido de sentido. Nós podemos nos dar por satisfeitos, estar certos de que estamos lidando com algo real apenas quando já não há qualquer sentido que seja. Ele não tem sentido porque não é com palavras que escrevemos o real. É com letrinhas.

Dr. EDELSON – As construções lógicas que fazemos para compreender a realidade desconhecida tornam-se, a seu tempo, realidade. O que foi ficção lógica na física é hoje realidade.

J. LACAN – As construções lógicas, eu disse que as considerava psicóticas…

Profa. FELMAN (intérprete) – Ele está fazendo uma brincadeira. No início da apresentação, ele disse que uma construção perfeitamente coerente era como ele definia a psicose.
Dr. EDELSON – Hum.
Profa. FELMAN – Era uma afirmação provocadora.
Dr. EDELSON – Me provocou.
Profa. FELMAN – Mas ele disse então que, nesse sentido, ele era psicótico, já que estava tentando ser rigoroso.
Então ele não é contra o rigor, mas não o iguala à ciência. Esse, creio eu, é o ponto principal.
A coerência enquanto tal só seria comprovação de psicose, e não de verdade.

J. LACAN – A psicose é repleta de sentido.

Dr. EDELSON – A psicose é chamada de estereotipia e é desprovida de sentido, na minha experiência.

J. LACAN – Mas as estereotipias só se sustentam para o psicótico pelo seu sentido.

Dr. BLATT – Sim, mas isso porque o psicótico se esforça para fazer sentido — se compromete com a função sintética — a fim de permanecer em relação com o mundo.
Prof. DUPRÉ – Mas, doutor, por que o senhor insiste tanto na necessidade de fórmulas matemáticas para definir a ciência?

J. LACAN – Porque é historicamente verdadeiro.

Prof. DUPRÉ – Mas isso começou com Descartes, na França; isso não é…

J. LACAN – Isso começou com Galileu.

Prof. DUPRÉ – Concordo, mas acrescentar uma centena de anos não faz (30) muita diferença. A matematização da ciência é quase uma exceção na história da humanidade, e é uma exceção que os cientistas, pelo menos, estão abandonando. Não acreditamos mais nisso. Então por que reduzir a ciência do espírito — que escapou disso desde o início — a um ponto de vista que não existe mais mesmo nas ciências? Pode haver outros modelos. Por exemplo, todas as ciências sociais, as ciências do espírito, não precisam de fórmulas matemáticas para se exprimir claramente. As fórmulas matemáticas estão em uso, mas mais como abreviação daquilo que se pensa, ou com fins pedagógicos; e isso mesmo na economia, hoje em dia.
Dr. EDELSON – A ciência matemática não é a quantidade. A matemática é lógica.

J. LACAN – Sim, não é a quantidade.

Dr. EDELSON – Se é a lógica, se é a lógica das relações que subjaz as matemáticas, são formas puramente simbólicas. Se introduzimos a matemática para compreender o espírito, nos utilizamos simplesmente de formas simbólicas para prestar contas da natureza, da estrutura do espírito. Isso não tem nada a ver com a quantidade, a medida do que quer que seja.
Prof. DUPRÉ – É exatamente o que estou dizendo. Por isso que não tem como ser apropriado e de algum auxílio.
Dr. EDELSON – Mas o que suporta a matemática é a lógica das relações, a lógica da simbolização.
Prof. DUPRÉ – De alguma simbolização, mas não daquela de que os senhores precisam para os seus fins.
L. RITVO – O senhor diria que Buffon,[21] Lamarck[22] e Cuvier,[23] e Claude Bernard[24] e Pasteur[25] e Darwin e Lyell,[26] que nenhum deles é cientista?

J. LACAN – Claro que são.

L. RITVO – Mas eles não formularam esses conceitos matemáticos, suas obras eram desprovidas de expressão matemática.
Dr. EDELSON – Ele invoca a matemática de uma forma diferente da senhora. São formas simbólicas que não têm a ver com a quantidade.
Prof. HARTMAN – A contenda diz respeito à interpretação do simbolismo dos matemas.
Prof. DUPRÉ – Mas este é o problema: qual o estatuto exato do simbolismo dos matemas? É um simbolismo universal ou um…

(31) J. LACAN – É um simbolismo elaborado, sempre elaborado por meio de letras.

Prof. HARTMAN – Mas quid das palavras? Mesmo se a ciência analítica contém matemas, há a pergunta da prática e da tradução de tais matemas na prática analítica, que é verbal, não é?

J. LACAN – No entanto, há um mundo entre a palavra e a letra.

Prof. HARTMAN – Mas é o vínculo delas que o senhor deseja mostrar…

J. LACAN – Sim, e que me entretém.

Sra. TURKEL – Como o senhor articularia a ideia de que a psicanálise aspira ao estatuto de ciência com o que o senhor disse dela como epidemia? Num sentido, é um fenômeno social…

J. LACAN – Uma epidemia não é um fenômeno social, pelo menos não no caso da ciência.

Sra. TURKEL – O que é uma epidemia científica?

J. LACAN – É quando alguma coisa é tomada como uma simples emergência, ao passo que é, na realidade, uma ruptura radical. É um acontecimento histórico que se propagou e que influenciou grandemente a concepção daquilo que se chama de “universo” — que, em si mesmo, tem uma base muito estreita, exceto no imaginário.

Prof. HARTMAN – O senhor nos dedicou muito tempo e sabedoria…

J. LACAN – Como disponho da atenção dos senhores, tentarei falar um pouco mais sobre isso amanhã.

Prof. HARTMAN – O senhor terminou sua apresentação com a palavra “destino” e agora terminaremos com a palavra “epidemia”. De fato, respondeu a uma epidemia de perguntas e somos muito gratos ao senhor por isso.

[1] James Augustine Aloysius Joyce (1882-1941), escritor irlandês nascido em Rathmines (subúrbio de Dublin), legou uma obra que ocupa lugar decisivo na literatura moderna, sobretudo com a escrita do célebre Ulysses (1922). Em Finnegans Wake (1936), porém, Joyce multiplicou as complexidades do romance anterior. Ali, relatando uma noite na vida de H. C. Earwicker, que dorme ao longo de todo o romance, a experiência do protagonista é transmitida ao leitor através da vivência onírica do personagem reproduzida ao nível da linguagem pelas associações livres da sua consciência, pela fusão de palavras e ainda pelo cruzamento do inglês com outras línguas europeias. (N. do T.)

[2] Avram Noam Chomsky (1927-) é um linguista e ativista político estadunidense de origem judaica. Completou licenciatura e doutoramento no que viria a designar por “gramática transformacional” (Transformational Analysis, 1955) em linguística na Universidade da Pensilvânia. Os principais fundamentos dessa tese viriam a ser publicados em Syntactic structures, 1957, obra que marcou o nascimento do novo paradigma em linguística, após o estruturalismo: a gramática generativa. É professor na Faculdade de Linguística do Massachusetts Institute of Techonology – MIT desde 1955, tendo obtido nomeação definitiva como professor do Departamento de Línguas Modernas e Linguística (atualmente Departamento de Linguística e Filosofia) em 1961. Entre 1966 e 1976 recebeu o prémio Ferrari P. De Professor em Linguística e Línguas Modernas. (N. do T.)

[3] Jaakko Hintikka (1929-2015) foi um lógico finlandês. O livro mencionado por Lacan havia sido publicado na década anterior, trata-se de Knowledge and belief: an introduction to the logic of the two notions [Conhecimento e crença: uma introdução à lógica das duas noções]. Ithaca, N.Y.: Cornell University Press, 1962. (N. do T.)

[4] Título da primeira tradução francesa de A interpretação dos sonhos, realizada a partir da 7ª ed. do original freudiano. Cf. S. Freud, La science des rêves. Trad. J. Meyerson. Paris: Alcan, 1926. (N. do T.)

[5] Geoffrey H. Hartman (1929-2016) foi um teórico da literatura americano nascido na Alemanha. Passou a maior parte da carreira no Departamento de Literatura Comparada da Universidade de Yale, onde também fundou o Fortunoff Video Archive for Holocaust Testimonies. (N. do T.)

[6] Stanley Leavy (1915-2016) foi um psicanalista americano, aluno das universidades de Yale, Chicago e Rochester. Foi professor de psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade de Yale e membro vitalício do Western New England Psychoanalytic Institute. De 1965 a 1985, atuou como analista supervisor e didata no Instituto Psicanalítico de Western New England, do qual também foi presidente (1968-1970). Lá, defendeu a ampliação dos critérios de elegibilidade para permitir que candidatos homossexuais e pessoas sem formação médica realizassem formação psicanalítica. (N. do T.)

[7] Ann Ruth Turkel (1928-2015) foi uma psiquiatra e psicanalista estadunidense. Em Nova York, trabalhou como psiquiatra em consultório particular a partir de 1957; como psiquiatra assistente no St. Vincent’s Hospital, a partir de 1962; e como analista supervisora no Instituto William Alanson White de Psicanálise, Psiquiatria e Psicologia, a partir de 1977. Em 1981, começou a atuar como professora assistente de psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade de Columbia. Foi presidente da Academia Americana de Psicanálise e Psiquiatria Dinâmica  durante o biênio 2003-2004. Em tempo: no original, o sobrenome está incorretamente grafado como “Turkell”. (N. do T.)

[8] Cf. A. Arnauld, P. Nicole. La Logique ou L’art de penser: contenant, outre les regles communes, plusieurs observations nouvelles propres à former le jugement. Paris: Launay, 1662. Disponível em: <gallica.bnf.fr>. Cf. também: A. Arnauld, C. Lancelot (1660) Gramática de Port-Royal ou Gramática geral e razoada. Trad. B. F. Basseto, H. G. Murachco. São Paulo: Martins Fontes, 1992. (N. do T.)

[9] Cf. N. Chomsky (1966) Linguística cartesiana: um capítulo da história do pensamento racionalista. Trad. F. M. Guimarães. Petrópolis: Vozes; São Paulo: EdUSP, 1972. (N. do T.)

[10] Lucille B. Ritvo (1920-2014) se formou no Departamento de História da Ciência e da Medicina de Yale em 1960. Recebeu o título de mestre em 1963 e concluiu seu doutorado em 1972. Em 1990, a Yale Press publicou sua tese doutoral como livro, A tale of two sciences: Darwin’s influence on Freud, considerado obra crucial a respeito do tema e traduzida para diversos idiomas, inclusive o português brasileiro: cf. L. Ritvo (1990) A influência de Darwin sobre Freud: um conto de duas ciências. Trad. J. C. C. Guimarães. Rio de Janeiro: Imago, 1992. (N. do T.)

[11] Edward S. Casey (1939- ) é um filósofo e professor universitário estadunidense. Atualmente, é professor emérito de filosofia na Universidade Stony Brook, em Nova York. Concluiu seu doutorado em filosofia pela Northwestern University no ano de 1967, depois de estudar em Yale, onde se havia graduado em 1961. Antes de Stony Brook, lecionou em Yale, no Pacifica Graduate Institute e na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara. (N. do T.)

[12] Lacan cita aqui o volume francês Cinq psychanalyses (Paris: Denoël & Steele, 1935). No Brasil, em tradução direta, o mesmo apanhado contendo os casos Dora, Hans, Homem dos Ratos, Schreber e Homem dos Lobos pode ser encontrado em: S. Freud, Histórias clínicas: cinco casos paradigmáticos da clínica psicanalítica. Trad. T. Romão. Belo Horizonte:  Autêntica, 2022 (“Obras incompletas de Sigmund Freud”). (N. do T.)

[13] Robert J. Lifton (1926-) é um psiquiatra estadunidense. Na década de 1960, juntamente com Erik Erikson e o historiador Bruce Mazlish, formou um grupo para aplicar a psicologia e a psicanálise ao estudo da história. O Grupo de Psico-história de Wellfleet (Massachusetts), como ficou conhecido, concentrava-se principalmente nas motivações psicológicas para a guerra, o terrorismo e o genocídio na história recente. (N. do T.)

[14] Também chamados de “Pais da Igreja” ou “Pais Apostólicos”, os Padres da Igreja foram teólogos e mestres cristãos influentes, em sua maioria bispos importantes de igrejas cristãs primitivas. Distinguindo-se pela santidade de vida, pela excelência e pela ortodoxia da doutrina, esses escritores eclesiásticos dos primeiros séculos escreveram trabalhos utilizados como precedentes doutrinários nos séculos subsequentes e estudados até hoje. Cf. Bento XVI, Os Padres da Igreja: de Clemente de Roma a Santo Agostinho. Trad. S. D. Reis. São Paulo: Paulus, 2012. (N. do T.)

[15] Louis Dupré (1925-2022), filósofo da religião nascido na Bélgica. Fenomenólogo católico, foi professor emérito da Universidade de Yale. (N. do T.)

[16] Marshall Edelson (1928-2005), psicanalista, foi professor emérito de psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade de Yale. (N. do T.)

[17] Cf. S. Freud ([1899]1900) A interpretação dos sonhos. Trad. P. C. de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, p. 670. (N. do T.)

[18] Sidney J. Blatt (1928-2014), psicanalista e psicólogo clínico estadunidense, foi professor emérito de psiquiatria e psicologia no Departamento de Psiquiatria da Universidade de Yale. Pesquisador empírico e teórico da personalidade, fez contribuições para a compreensão do desenvolvimento da personalidade e da psicopatologia, bem como desenvolveu vários procedimentos de avaliação amplamente utilizados. Em tempo: no original, o prenome está incorretamente grafado como “Sydney”.  (N. do T.)

[19] Shoshana Felman (1942- ) é uma crítica literária estadunidense. Professora de literatura comparada da Universidade Emory, atua nas áreas de literatura francesa, psicanálise e testemunho. Doutorou-se pela Universidade Grenoble-Alpes em 1970 e foi professora da Universidade Yale deste ano até 2004. (N. do T.)

[20] Citação não localizada. (N. do T.)

[21] Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon (1707-1788) foi um naturalista, matemático e escritor francês. As suas teorias influenciaram gerações de naturalistas, dentre os quais Lamarck (1744-1829) e Darwin (1809-1882). (N. do T.)

[22] Jean Baptiste Pierre Antoine de Monet, cavaleiro de Lamarck (1744-1829) foi um naturalista francês que desenvolveu uma teoria da evolução que ele próprio denominou lamarckismo. Responsável pelo que é considerado a primeira teoria coesa na área, Lamarck personificou as ideias pré-darwinistas acerca da evolução biológica. (N. do T.)

[23] Georges Cuvier (1769-1832), naturalista e zoologista francês, é por vezes chamado de “pai da paleontologia”. Comparando fósseis com animais vivos e estabelecendo a anatomia comparada como método de conhecimento dos seres vivos, foi proeminente na pesquisa em história natural de sua época. Defensor do catastrofismo, justificava a criação e a extinção das espécies com acontecimentos naturais, mais espontâneos do que graduais: segundo ele, as espécies eram fixas e apenas poderiam ser substituídas por outras, migradas de locais mais distantes. (N. do T.)

[24] Claude Bernard (1813-1878), médico e fisiologista francês, é considerado o fundador da medicina experimental, colaborando com diversos fundamentos da fisiologia moderna. (N. do T.)

[25] Louis Pasteur (1822-1895), considerado um dos principais fundadores da microbiologia, foi um cientista francês cujas descobertas tiveram enorme importância na história da química e da medicina. (N. do T.)

[26] Charles Lyell (1797-1897) foi um geólogo britânico nascido na Escócia. Os seus trabalhos tiveram repercussão no campo quando da publicação do livro Principles of geology [Princípios de geologia] em 1830-1833. Nele, mostra os inconvenientes das doutrinas criacionistas e ataca a teoria do catastrofismo de Georges Cuvier (1769-1832), ao mesmo tempo que propõe o “Princípio das causas atuais ou atualismo” — segundo o qual os fenômenos ao longo dos tempos geológicos são os mesmos que os atuais, diferindo apenas na intensidade e duração. (N. do T.)

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Sobre o Autor

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Linguista e tradutor, exerce a psicanálise na cidade de São Paulo. Bacharel e doutor em linguística pelo IEL-Unicamp, realizou pós-doutoramento no Depto. de Ciência da Literatura da UFRJ. Atuou como professor-associado junto ao Depto. de Língua Romena e Linguística Geral da Universidade Alexandru Ioan Cuza (Iaşi, 2009) e foi tradutor residente do Instituto Cultural Romeno (Bucareste, 2013). Organiza a coletânea “A psicanálise e os lestes” (Ed. Annablume) e é um dos editores da Revista Lacuna (www.revistalacuna.com).