[ Yale University – Law School Auditorium ]
Conférences et entretiens dans des universités nord-américaines. Scilicet, 1975, n. 6/7; pp. 38-41.
A histérica produz saber.
A histérica é um efeito; como todo sujeito é um efeito. A histérica força a “matéria significante” a confessar, e por isso constitui um discurso.
Foi Sócrates quem começou.
Ele não era histérico, mas bem pior: um mestre sutil. Isso não impedia que ele tivesse sintomas histéricos: acontecia de ele ficar num pé só e não conseguir mais se mexer, sem meio algum de tirá-lo do que chamamos de “catatonia”. E isso não impedia que ele tivesse muitos efeitos: como a histérica, ele paria qualquer um com o seu saber; com um saber que, em suma, ele próprio não conhecia.
Isso parece o que Freud, tarde da vida, chamou de “inconsciente”; Sócrates, de certa forma, não era nada mal como analista.
O escravo se define pelo fato de que alguém tem poder sobre o seu corpo. A geometria é a mesma coisa, isso tem bastante a ver com o corpo.
O corpo tem como propriedade o fato de que ele é visto, e mal. Acredita-se que é uma bolha de ar, um saco de pele. Aqui se trata de suporte, de figura, isto é, de imaginário, com um material que afirmo como real (do outro lado, a primeira figura).
Como o escravo reagia?
Ele sabia que o mestre colocava um preço em seu corpo; ele era uma propriedade, e só isso o protegia. Ele sabia que o seu corpo o mestre não iria retalhar: pouco provável que o seu corpo fosse despedaçado. Ao mesmo tempo, sabia que estava a salvo de um bocado de coisas.
(39)

R, I e S são estritamente independentes. Se puxamos o S para o fundo, totalmente para trás, o nó então se encontra tracionado no R em quatro pontos (que, sem dúvida, poderiam se aproximar mais), mas isso necessita que o I tracione o S; tem-se, então, o seguinte:

(40) No que se diz, mentir te impera: tempera.[1] O quarto círculo é o sintoma.
Entre o corpo na medida em que ele se imagina e aquilo que o liga (a saber, o fato de falar), o homem imagina que pensa. Ele pensa na medida em que fala. Essa fala tem efeitos sobre o seu corpo. Graças a essa fala, ele é quase tão esperto quanto um animal. Um animal se vira muitíssimo bem sem falar.
O real: introduzir esse termo já faz a gente se perguntar o que está dizendo. O real não é o mundo externo; é também a anatomia, isso tem a ver com o corpo todo.
Trata-se de saber como tudo isso se ata.
O mínimo exigível era que, desses três termos — imaginário, simbólico (a saber, o falatório), real —, cada um fosse estritamente igual aos dois outros, atado de forma tal que o jogo ficasse empatado.
Procuro fazer uma outra geometria que enfrentaria o que se passa com a cadeia. Isso nunca, nunca foi feito.
Essa geometria não é imaginária, como a dos triângulos; é real, círculos de barbante.
Suponham que o corpo, o falatório e o real vão por água abaixo cada um para o seu lado…
O isso de Freud é o real.
O simbólico, ao qual o supereu compete, isso tem a ver com o furo.
Se é preciso um elemento quarto, é o que o sintoma realiza, na medida em que forma um círculo com o inconsciente.
Se quisermos colocar o real e o imaginário em ambas as pontas, teremos:
(41) Se erguemos uma barra horizontal ou se puxamos para direita ou esquerda a linha vertical, vocês ficam encurralados; isso dá nó.
(A reta é equivalente ao círculo de barbante, caso se suponha aí um ponto no infinito.)
O sintoma é o que muitas pessoas têm de mais real; para algumas pessoas, daria para dizer: o simbólico, o imaginário e o sintoma.
O gozo fálico está na junção do simbólico com o real, fora do imaginário, do corpo, enquanto algo que parasita os órgãos sexuais.
[1] Ou ainda, mantendo a mesma chave de homofonia entre as línguas: “o que se diz, mente”; “o que se desmente”. Em francês, Lacan faz um jogo entre ce qu’on dit ment [o que se diz mente] e ce condiment [esse condimento]. (N. do T.)