[ Massachusetts Insitute of Technology – MIT ]
Conférences dans les universités nord-américaines : le 2 décembre 1975 au Massachusetts Institute of Technology. Scilicet, 1975, n. 6/7, pp. 53-63.
A linguística é aquilo pelo qual a psicanálise poderia se enganchar à ciência.
Mas a psicanálise não é uma ciência, é uma prática.
Ao falar sobre isso comigo há pouco, o sr. Quine[1] me perguntou o que eu devia a Cl. Lévi-Strauss:[2] devo muito, se não tudo. Isso não me impede de ter uma noção de estrutura totalmente diferente da dele.
Penso que a estrutura não tem nada a ver com a filosofia, que raciocina sobre o homem do jeito que pode, mas coloca em seu centro a ideia de que o homem foi feito para a sabedoria.
Eu, em conformidade com o pensamento de Freud, não tenho amizade alguma pela sabedoria. Não faço filosofia porque está muito distante desse alguém que se endereça a nós que lhe respondêssemos pela sabedoria.
Tentei adensar, formular algo atinente à nossa prática, algo que seja coerente. Isso me levou a elucubrações que muito me preocupam.
Isso me levou a um ensino que conduzi com muita cautela. Passei a lecionar porque me pediram, sabe Deus por quê.
É claro que a prática depois de Freud se veicula de forma tal que é possível se perguntar se Freud realmente acreditou que sobreviveria por si só.
Da forma como ele fez, pode-se pensar que os formados pela própria prática tinham verdadeiramente autoridade para decidir o que o analista era. A pergunta à qual cheguei, “quem é capaz de ser um analista?”, levou umas quantas pessoas (54) ao meu redor a me deixar (isso em seguida à implementação de uma sondagem: como alguém, após uma experiência analítica, podia se colocar em posição de ser analista?).
Isso me levou bastante longe, como eu disse nas minhas conferências anteriores nos USA; os pontos a que isso me levou, não ouso dizer como sendo teoria: há, da análise, uma teoria? Sim, com certeza. Não estou certo de que tenho a melhor.
Depois de muito refletir, distingui duas bases. A referência ao corpo, primeiramente. Podemos perceber, pela análise, que do corpo ela só apreende o que há de mais imaginário.
Um corpo, isso se reproduz por uma forma.
Forma que se manifesta no fato de que esse corpo se reproduz, subsiste e funciona sozinho.
Do seu funcionamento não temos a menor notícia.
Nós o apreendemos como forma.
Nós o apreciamos como tal por sua aparência.
Essa aparência do corpo humano, os homens adoram.
Eles adoram, em suma, uma pura e simples imagem.
Comecei a enfatizar o que Freud chama de “narcisismo”, id est,[3] o nó fundamental que faz com que, para se fazer uma imagem daquilo que ele chama de “mundo”, o homem o concebe como essa unidade de pura forma que o corpo representa para ele.
A superfície do corpo, foi dali que o homem tirou a ideia de uma forma privilegiada. E a sua primeira apreensão do mundo foi a apreensão do seu semelhante. Daí, esse corpo, ele o viu; ele o abstraiu; fez dele uma esfera: a boa forma. Isso reflete a bolha, o saco de pele. Para além dessa ideia do saco envolto e envolvedor (o homem começou por aí), a ideia da concentricidade das esferas foi a sua primeira relação com a ciência como tal. Na ciência grega, vemos essa harmonia das esferas que agora pouco surpreende e da qual se pode dizer, com Pascal, que ela não existe mais.
“O centro está por toda parte e a circunferência, em parte alguma”, diz Pascal. Isso não quer dizer que ele tinha razão: o centro não está por toda parte. Isso quer dizer que devemos apreender algo de uma ordem diferente do espaço esférico.
Não é certo que a imagem da circunferência seja a melhor (55) representação de uma esfera, e foi assim que eu fui levado a abrir um caminho, a saber que o círculo não é a imagem correta de uma esfera; é a imagem de uma esfera quando se a secciona, isto é, quando se a aplana.
A folha de papel sobre a qual rabiscamos é muito sensível; não podemos fazer melhor do que aplaná-la.
Esse aplanamento, à medida que avançamos no mundo, tende a desfiar como se essa superfície sobre a qual projetamos tudo o que nos cerca tivesse furos.
E o círculo se caracteriza por fazer furo. Contrachoque: a ideia matemática da topologia. No mundo não há apenas círculos. Mas esses círculos podem dar nó entre eles. Foi por aí que a topologia começou. Foi por meio desses nós que me foi possível vincular com o que é da nossa experiência.
Esses nós, se há consistência fechada, circular, representável, desses três termos que usei, a partir de Freud:
— Da captura a partir da forma do corpo.
— Desse uso da fala, marcante, qualquer que seja a ideia que se possa ter do que condiciona, no humano, o fato de que ele fala. (É uma outra consistência.)
Devemos perceber que aquilo que chamamos de “lógica” não tem outro suporte além do logos. O estranho: percebemos mal e parcamente que essa lógica é circular. Ela só se sustenta, só se substantifica, essa lógica, fazendo círculo. O círculo vicioso é o bê-á-bá da lógica.
No momento em que que partimos da linguagem, é à linguagem que retornamos.
— Como, a partir daí, nós nos imaginamos atingindo um real que seja um terceiro círculo, por assim dizer; que a sua forma seja circular é o que nos escapa.
Real que seja totalmente real, isso…
Os primeiros lineamentos da ciência mostram o real para o olho humano como aquilo que, no céu, sempre retornava ao mesmo lugar: as estrelas ditas “fixas” (muito erroneamente, visto que giram; e, se giram, é porque somos nós que giramos). Isso não foi evidente de imediato.
Não há outra definição possível do real, a não ser que: é (56) o impossível; quando algo se encontra caracterizado pelo impossível, é só o real; quando nos trombamos, o real é o impossível de penetrar.
Sonhamos que ele seria elástico. Foi por isso que fui levado a escrever de outra forma o termo “existência”: ex-sistência. Aquilo que se depara com algo e aquilo com o qual algo se depara são, precisamente, as outras consistências.
Esses três termos:
— os que imaginamos como uma forma,
— os que consideramos circulares na linguagem,
— e essa ex-sistência tanto ao imaginário quanto à linguagem,
levaram-me à valorização daquilo pelo qual eles se atam entre si.
Em todo caso, é prática.
É uma corda, um fio veiculado por mim. Teve serventia, pelo menos nessa prática.
Esses três círculos, eu os nomeio, mas a ordem não é indiferente. Colorir introduz uma distinção, indica que eles são diferentes.
I, R, S estão soltos. Isso se vê pelo fato de que estão superpostos:
— primeiro I;
— embaixo, R;
— embaixo, S.
O S passa por baixo dos dois outros círculos. Tudo se passa como se os três círculos fossem independentes.
Então, o círculo que os ata deve
— apanhar o círculo que está embaixo,
— passar duas vezes por cima de I,
— retornar àquele que está embaixo para prendê-lo passando embaixo (figura 1). Passagem por cima do de cima, por baixo do debaixo, fundamental; essa figura 1 é exatamente a mesma que a figura 2; para obtê-la, basta puxar um pouco o círculo S.
Num outro desenho, pode-se, com os três círculos, fazer três retas (figura 3).
A figura com quatro círculos, figura 2, eu chamo de “figura da realidade psíquica”, e Σ é o sintoma.
O sintoma é a nota própria da dimensão humana.
(57)

(58)Deus talvez tenha sintomas, mas o seu conhecimento é provavelmente de ordem paranoica. Um Deus que criou o mundo com palavras, a gente se pergunta o que pode ser a consistência dele.
A especificidade da figura 2 é que isso constitui círculo: Σ+S, é o que faz um novo tipo de S. O sintoma é igualmente parte do inconsciente. A linguística é o que especifica aquilo cujo sintoma interpretamos.
Ao interpretar, entramos em circularidade com o Σ, conferimos pleno exercício ao que pode se suportar com lalíngua, enquanto o analisante, aquilo de que ele sempre dá testemunho, é do seu sintoma.
Não há melhor forma de marcar a pura diferença que a cor; assim, nesse enodamento particular, a coloração torna sensível que há duas espécies de nós borromeanos impossíveis de confundir.
Basta haver um círculo que se rompa para que os dois outros estejam livres, diferenciando o nó da cadeia onde só a ruptura de um círculo do meio liberta as extremidades.
É fácil perceber que esse nó borromeano pode ter tantos círculos quanto se queira.
Eu me contento com quatro.
O nó com três termos — R, S, I —, só há ele. Não podemos nos contentar com isso, pois, por não serem distinguíveis, esses três termos poderiam passar por uma nova forma de imaginário, de real, ou mesmo de simbólico: sem a matemática, não perceberíamos que esses três são trinitários.
A Trindade, nós a reencontramos o tempo todo. Especialmente no domínio sexual. Não é só um indivíduo que o fixa, mas também um outro; isso está marcado na experiência da análise em relações clínicas (clínicas: o analisante está num divã, trata-se de um certo clināmen[4] — cf. Lucrécio e os epicureus em seu nominalismo).
O suposto mistério da Trindade divina reflete o que há em cada um de nós, e o que isso ilustra melhor é o conhecimento paranoico.
Freud dizia que a análise era uma “paranoia arrazoada”; há essa face na análise.
Por si só, a análise confirma que, dessas três categorias, R, S, I, (59) os melhores representantes são os doidos. Os doidos de pedra não duvidam nem por um instante de estarem no real.
Isso poderia se prestar ao gracejo quanto à Trindade divina, porque a Trindade divina não é tão doida, tão deus-oida.
É justamente por isso que deve haver um quarto termo.
Sintoma e inconsciente: parafuso sem fim, círculo. E nunca se chega a desabafar tudo: Urverdrangung: há um furo.
É por isso que há um nó e algum real que permanece ali no fundo.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
- – Pergunta a ROMAN JAKOBSON.
D’eux [deles] vem de de illis.
Deux [dois], de duo.
O fonema está destinado a apanhar o equívoco, ou é questão de acaso para o ouvido francês?
Não é esse equívoco (que é aquilo com o qual a interpretação joga) que coloca em círculo o sintoma e o simbólico?
Pois, intervindo de uma certa maneira no sintoma, a gente se vê equivocando. Há uma vertente da linguística tratável como tal?
Seria a vertente que é sempre aquela à qual um analista deve ser sensível: a fun.[5]
Resposta: Há vários trabalhos sobre o assunto, em particular sobre as línguas indianas. Jackson,[6] especialista em afasias, escreveu sobre o trocadilho.[7] Só as línguas formalizadas (artificiais) é que não fazem trocadilho. E a gramática tende a atualizar o trocadilho.
- – Lacan no quadro negro.
A figura 1 é plana? Para o quarto círculo, é preciso perfurar. Os nós, isso é algo que se imagina e, mais exatamente, não se imagina. Os nós são a coisa à qual o espírito é o mais rebelde. É tão pouco conforme ao lado envolto-envolvedor de tudo o (60) que diz respeito ao corpo, que eu considero que se espatifar na prática dos nós é espatifar a inibição. A inibição: o imaginário seria formado de inibição mental.
O significante não é o fonema.
O significante é a letra. Só a letra é que faz furo.
- – Pergunta do sr. QUINE: A meta da análise é desfazer o nó?
Resposta: Não, isso se mantém firme.
Daria para aventar que, se Freud demonstra algo, é que a sexualidade faz furo, mas o ser humano não tem a menor ideia do que isso é.
Uma mulher se presentifica para o homem por meio de um sintoma; uma mulher é um sintoma para o homem.
- – A alma
A única coisa que me parece substantificar a alma é o sintoma.
O homem pensaria com a sua alma. A alma seria a ferramenta do pensamento. O que constituiria a alma dessa suposta ferramenta?
A alma do sintoma é algo duro, feito um osso.
Nós acreditamos pensar com o nosso cérebro.
Já eu penso com os meus pés, é só aí que encontro algo duro; às vezes, penso com os subcutâneos da fronte, quando me trombo. Vi eletroencefalogramas o suficiente para saber que não há sombra de um pensamento.
- – Os nós têm três dimensões?
Exatamente. O more geometrico,[8] o pensamento geométrico negligencia totalmente a realidade do espaço. Nós acreditamos conhecer algo da terceira dimensão por causa da visão binocular, mas funcionamos sempre em duas dimensões.
- – Pergunta do sr. QUINE: Os modelos sólidos nos dão uma ideia da terceira dimensão. Só que a visão não alcança.
Resposta: Dá para representar a terceira dimensão pela esfera armilar, mas ninguém pensou nesta figura aqui.

Os modelos dificilmente nos botam na terceira dimensão. Nós vivemos em cubos, pensamos estar em esferas.
Nada é menos certo que o fato de que tenhamos um interior.
Os dejetos talvez venham do interior, mas a característica do homem é que ele não sabe o que fazer com os seus dejetos.
A civilização é o dejeto, cloaca maxima.[9]
Os dejetos são a única coisa que testemunha que nós temos um interior.
IMPROVISO SOBRE O DISCURSO ANALÍTICO
— S1 é aquilo pelo qual se representa o sujeito: uma fala, o falasser. É na medida em que o sujeito diz qualquer coisa que isso vai no lugar da verdade.

— O analista é incarnado por um simulacro de (a); ele é, em suma, produzido pelo dizer da verdade, tal como ele se dá na relação S1 → S2. O analista é, de certa forma, uma queda desse dizer e, enquanto tal, ele faz de conta que “compreende”, e é aí que ele intervém no nível do inconsciente.

— A verdade é caracterizada por esse S2: o analista só diz palavras; aquele que se supõe saber alguma coisa é o analista: pura suposição, é claro.
Esse S2, o que se supõe que o analista saiba, nunca é dito completamente; só é dito na forma de semidizer da verdade.
Foi por meio desse discurso analítico que fiz a distinção entre o que é enunciado e uma espécie de semidizer.
É na medida em que o analista é esse simulacro de dejeto (a) que ele intervém no nível do sujeito $, isto é, do que é condicionado
- pelo que ele enuncia,
- pelo que ele não diz.


O silêncio corresponde ao simulacro de dejeto.
[1] Willard Van Orman Quine (1908-2000), considerado o maior lógico e filósofo analítico da segunda metade do século XX, foi um dos mais influentes matemáticos, filósofos e lógicos norte-americanos do século passado. (N. do T.)
[2] Claude Lévi-Strauss (1908-2009), antropólogo francês, tem seu nome ligado ao estruturalismo, doutrina que influenciou fortemente s ciências sociais e a filosofia no século XX. Em 1949 havia publicado a sua primeira grande obra, As estruturas elementares do parentesco. (N. do T.)
[3] Do latim, “isto é”. (N. do T.)
[4] Do latim, “inclinação”, “pendor”. Na teoria desenvolvida por Lucrécio a partir da doutrina de Epicuro, designa o desvio imprevisível dos átomos, causado por um pequeno movimento aleatório. Uma espécie de livre-arbítrio que as coisas vivas por todo o mundo tem. (N. do T.)
[5] Do inglês, “divertida”. (N. do T.)
[6] John Hughlings Jackson (1835-1911) foi um neurologista britânico que propôs uma hipótese sobre a organização e o funcionamento do sistema nervoso divergente da concepção localizacionista então predominante. Cf. CAROPESO, F. (2008) A influência de Hughlings Jackson sobre a teoria freudiana da memória e do aparelho psíquico. Mental, vol. 6, n. 11. (N. do T.)
[7] Hughlings Jackson, J. (1887) The Psychology of Joking. Popular Science Monthly, vol. 32, January 1888. (N. do T.)
[8] Do latim, “ao modo geométrico”. A expressão surge uma única vez na Ética de Spinoza, notadamente no Prefácio da Terceira Parte. O autor a emprega “para caracterizar a forma como preferiu tratar dos afetos humanos, distanciando-se tanto de Descartes, que, embora tenha se empenhado em compreender os afetos por suas causas primeiras, supunha uma intervenção direta da alma sobre o corpo, e, portanto, a possibilidade de domínio desta sobre aqueles; quanto dos filósofos moralistas, os quais amaldiçoaram ou ridicularizaram os afetos, considerando-os como vícios ou desvios da natureza humana. […] Ao invés de simplesmente uma figura retórica, esta ordem diz respeito a uma maneira de pensar, a qual pretende alcançar demonstrações a partir de razões certas” Silva Ramos, C. (2020) A penúria das palavras. Spinoza e a linguagem. Cadernos espinosanos, n. 43, pp. 195-196. (N. do T.)
[9] Do latim, “o maior esgoto”. Um dos mais antigos sistemas de escoamento do mundo, construído na cidade de Roma para drenar os pântanos locais e remover os dejetos de uma das cidades mais populosas do mundo na época, despejando-os no Tibre. (N. do T.)