[ Yale University, Entretien avec des etudiants ]
Conférences e entretiens dans des universités nord-américaines. Scilicet, 1975, n. 6/7; pp. 32-37.
Freud e seus erros?
O que Freud chamava de “inconsciente”: um saber expresso em palavras. Mas esse saber não é apenas expresso em palavras das quais o sujeito que pronuncia não tem nenhuma espécie de ideia; essas palavras, é Freud quem as recupera em suas análises.
A escolha dos meus pacientes e sua articulação com a minha teoria?
Trata-se de fazê-los entrar pela porta, que a análise seja um limiar, que haja para eles uma demanda verdadeira. Essa demanda: o que é isto de que eles querem se ver livres? Um sintoma.
Um sintoma é curável.
A religião é um sintoma. Todo mundo é religioso, até os ateus. Eles acreditam suficientemente em Deus para acreditar que, quando estão doentes, Deus não tem responsabilidade alguma nisso.
O ateísmo é a doença da crença em Deus, crença de que Deus não intervém no mundo.
Deus intervém o tempo todo; por exemplo, na forma de uma mulher.
Os párocos sabem que uma mulher e Deus são o mesmo gênero de veneno. Eles ficam na deles, deslizam sem parar.
Talvez a análise seja capaz de viabilizar um ateu, isto é, alguém que não se contradiga a todo momento.
Tento fazer com que essa demanda os force (os analisantes) a fazer um esforço, esforço que será feito por eles.
Ver-se livre de um sintoma, não lhes prometo nada.
(33) Porque, mesmo para um sintoma obsessivo, dos mais estorvantes que existem, não é certeza que eles farão esforço de regularidade para sair.
Nessa filtragem há uma aposta, uma parcela de sorte.
Eu enfatizo a demanda. É preciso, de fato, algo a impelir. E não pode ser conhecer-se melhor; quando alguém me demanda isso, eu dispenso.
O que é um erro?
Eu chamo de embal(err)o. Cf. o embalo de um navio, os não bestas erram.[1] Os não bestas, isso pode entravar; e o sintoma é quando, não sendo bestas, isso entrava igual.
O sintoma não estava no pensamento corrente antes de uma certa época.
Sinthoma: a palavra existe nos incunábulos;[2] encontrei essa antiga ortografia no Bloch & von Wartburg.[3] Essa ortografia não é etimologia, ainda está em vias de refazimento. Eu desconhecia que Rabelais, no século seguinte, escrevia: symptomate.
Vou tentar compensar minha ignorância com uma série de citações.
A importância da literatura nos meus escritos?
Mais da letra, eu diria. A literatura, ainda não sei muito bem o que é; no fim das contas, é o que está nos manuais — de literatura, entre outros. Tentei me aproximar dela um pouco; é uma produção mais duvidosa e da qual Freud era grande apreciador porque lhe serviu para trilhar o caminho desta ideia do inconsciente. Quando ele imputou a Jensen ter seguido não sei que linha da função totalmente fantasiosa que ele, Freud, imputava à mulher, Jensen lhe respondeu que nunca havia visto nada disso e que só havia feito era plumitivar, cuspido isso de sua pluma.
Há uma inflexão da literatura; ela não quer mais dizer, nos dias de hoje, aquilo que queria dizer no tempo de Jensen. Tudo é literatura. Eu também faço isso, porque isso vende: os meus Escritos são literatura, à qual tentei dar um pequeno estatuto que não é aquele que Freud imaginava. Freud estava convencido de estar fazendo ciência; ele distingue soma/germe,[4] toma emprestado (34) termos que têm o seu valor na ciência. Mas o que ele fez foi uma espécie de construção genial, uma prática — e uma prática que funciona.
Não me imagino estar fazendo ciência quando faço literatura. Apesar disso, é literatura, visto que é escrito e isso vende; e é literatura porque isso tem efeitos, e efeitos sobre a literatura.
É difícil de apreender.
Por que eu não consideraria a mim mesmo um efeito? Quando um rio corre, há pequenas correntes particulares.
A corrente central tem cara de tragar as outras, mas é simplesmente porque as outras confluem.
Quais são os teóricos da psicanálise com os quais tenho uma relação de simpatia?
Os médicos confundem sintomas com signos.
O sintoma no sentido psicanalítico é de natureza totalmente diferente do sintoma orgânico; os analistas não são idiotas com relação a isso.
O primeiro que teve ideia do sintoma foi Marx.[5]
O capitalismo é marcado por um certo número de efeitos que são sintomas; é um sintoma na medida em que Marx imputa à humanidade ter uma norma, e ele escolhe a norma proletária (quando o homem está limpo, todo nu — Adão, então).[6]
Se há uma lei cardinal da psicanálise, é a de não falar a torto e a direito, mesmo em nome das categorias analíticas. Nada de análise selvagem; não chapar palavras que só têm sentido para o próprio analista.
É com meus analisantes que aprendo tudo, que aprendo o que é psicanálise. As minhas intervenções eu pego emprestado deles, e não do meu ensino, a menos que eu saiba que eles sabem perfeitamente o que isso quer dizer.
Substituí a palavra “palavra” pela palavra “significante”; e isso significa que ela se presta ao equívoco, isto é, sempre tem várias significações possíveis.
E, na medida em que os senhores escolherem bem os termos, que vão sacudir o analisante, vão encontrar o significante eleito, aquele que vai agir.
(35) Em caso algum uma intervenção psicanalítica deve ser teórica, sugestionadora, isto é, imperativa; ela deve ser equívoca.
A interpretação analítica não é feita para ser compreendida; ela é feita para produzir ondas.
Logo, não se deve chegar com os dois pés no peito, e muitas vezes é melhor ficar calado; só precisa escolher.
É preciso ter sido formado como analista. É só quando ele é formado que, de vez em quando, isso lhe escapa; “formado” quer dizer ter visto como é que o sintoma se completa.
Na análise, só há cena quando há passagem ao ato. Só há passagem ao ato como um mergulho na caixa do ponto[7] — o ponto sendo, é claro, o inconsciente do sujeito.
Foi tão somente a propósito da passagem ao ato que eu falei em cênica.
Os modelos de que me sirvo são simbólicos?
Eu me esforço e até me mato pra isso. Isso me consome porque o inconsciente não se presta para tanto.
Esses nós borromeanos não são fáceis nem de mostrar nem de demonstrar, porque a gente não os representa de jeito nenhum.
No que diz respeito a essa história dos nós, ainda estamos tendo que inventar tudo, pois não tem nada menos intuitivo que um nó. Tentem conceber o menor que seja, daí o seguinte e o seguinte; tentem ver a relação que há entre eles: é de quebrar a cabeça. Tudo está por construir.
Não é porque eles têm um caráter não verbal que eu os utilizo. Tento, ao contrário, verbalizá-los.
A verdade?
Ela tem uma estrutura de ficção porque passa pela linguagem e porque a linguagem tem uma estrutura de ficção.
Ela só pode semidizer-se. Jurem dizer a verdade, somente a verdade, nada além da verdade: é justamente o que não vai ser dito. Se o sujeito tem uma ideiazinha, é justamente o que ele não vai dizer.
Há verdades que são da ordem do real. Se distingo real, simbólico e imaginário, é porque há verdades real, simbólica e imaginária. Se há verdades sobre o real, é porque há verdades que a gente não admite para si mesmo.
(36) A consistência da língua inglesa?
Jones disse que os ingleses, graças à bifididade de sua língua (de raiz germânica e de raiz latina), podiam, passando de um registro a outro, tamponar as coisas — o que serve para isso não ir longe demais.
É o equívoco, a pluralidade de sentido que favorece a passagem do inconsciente para o discurso.
A autoanálise?
A autoanálise de Freud era uma writing-cure [cura pela escrita], e eu acredito que foi por isso que falhou.
Escrever é diferente de falar.
Ler é diferente de ouvir.
A writing-cure, eu não acredito nela.
O que significa ter de escrever, literatura, é claro?… uma doideira.
Falo e literatura.
O falo é uma falta de coisa nenhuma, um estorvo. Ninguém sabe o que fazer com isso. O texto literário, apesar das aparências, não tem efeito nenhum. Ele só tem efeito nos universitários: isso pica o traseiro deles.
Quando me interesso por Joyce, é porque Joyce tenta passar além; ele disse que os universitários falariam dele durante trezentos anos.
A literatura tentou se tornar algo mais razoável, algo que fornece a sua razão. Entre as razões, há algumas muito ruins: a de Joyce de se tornar um homem importante, por exemplo. Ele, de fato, se tornou um homem muito importante.
Como é que a gente se deixa enviscar nesse ofício de escritor? Explicar a arte por meio do inconsciente me parece o que há de mais suspeito; no entanto, é o que os analistas fazem. Explicar a arte por meio do sintoma me parece mais sério.
Verwerfung–Verleugnung.
Verwerfung [foraclusão], o juízo que escolhe e rejeita.
(37) Verleugnung [renegação] aparenta-se ao desmentido. Em algum lugar eu havia traduzido como désaveu [desaprovação]; isso parece uma imprudência.
O desmentido tem, creio eu, uma relação com o real.
Há toda sorte de desmentidos que vêm do real.
As implicações políticas das suas pesquisas psicanalíticas?
Seja como for, não há progresso.
O que a gente ganha de um lado, perde do outro.
Como não se sabe o que se perdeu, a gente acredita que ganhou. As minhas “caraminholas” supõem que isso é tacanho.
[1] Lacan faz um jogo de palavras entre os termos franceses erreur [erro] e erre [embalo, continuação inercial de um impulso]: erre-eur [embal(err)o]. (N. do T.)
[2] Nome dado aos livros impressos no início da imprensa com tipos móveis. A sua origem vem da expressão latina in cuna (no berço), referindo-se assim ao berço da tipografia. (N. do T.)
[3] O. Bloch, W. von Wartburg. Dictionnaire étymologique de la langue française. Paris: Presses Universitaires de France, 1932. (N. do T.)
[4] Na biologia, soma é todo o organismo, à exceção das células e dos tecidos que desempenham uma função reprodutora — que, por sua vez, são designados como germe. (N. do T.)
[5] Karl Marx (1818-1883), filósofo alemão nascido na Renânia. Segundo Isaiah Berlin, “no século dezanove foi o pensador que teve, de longe, a influência mais direta, deliberada e poderosa sobre a Humanidade”. Sensível aos problemas sociais de sua época, foi influenciado pelas doutrinas do socialismo utópico e pelas teorias da economia política de Adam Smith (1723-1790) e David Ricardo (1772-1823), que buscou superar. O pensamento de Marx define-se essencialmente em oposição ao idealismo hegeliano, embora dele retome a conceção dinâmica da realidade e os princípios da dialética, reinterpretando-os à luz de uma conceção materialista. Recusando a transposição hegeliana do fato empírico para o plano metafísico, defende que não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas o seu ser social que determina a consciência. É a partir dessa premissa que Marx constitui o sistema do materialismo histórico, segundo o qual os processos econômicos estão na base de toda a evolução humana. (N. do T.)
[6] Cf. Žižek, S. “Como Marx inventou o sintoma?” In: Žižek, S. (org.) Um mapa da ideologia. Trad. V. Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 1999, pp. 297-331.
[7] Espécie de caixa ou cúpula, de forma variável, que cobre a abertura do assoalho do proscênio onde o ponto — um profissional do teatro responsável por “assoprar”, em voz baixa, as falas que deviam ser repetidas, em voz alta, pelos atores — exerce a sua função. (N. do T.)