02.02.1928 | Abasia em uma traumatizada de guerra

[ Abasie chez une traumatisée de guerre ]

Comunicação realizada por Marc Trénel [1866-1932] e Jacques Lacan [1901-1980], junto à Sociedade de Neurologia de Paris, na sessão do dia 2 de fevereiro de 1928. Uma paciente, vítima de um traumatismo de guerra em 1915 e observada pelos autores a partir de mês de maio de 1927 no Hospital Sainte-Anne, será apresentada durante a exposição. Dentre os sintomas descritos, destaca-se certo número de perturbações motoras e sensoriais consideradas de natureza pitiática, assim como perturbações psicológicas manifestas em termos de delírio e alucinação. Em 1923, a mesma paciente havia sido examinada no Hospital da Salpêtrière, por Achille Souques [1860-1944], e no Hospital Paul-Brousse, por Gustave Roussy [1874-1948] e Jean Lhermitte [1877-1959].

 

Revue Neurologique, 1928, t. I, n. 2, pp. 233-237.

 

Apresentamos essa doente pela singularidade de um transtorno motor de natureza verossimilmente pitiática.[1] Comocionada durante a guerra, em 22 de junho de 1915, pelo estouro de um obus que, caindo na casa vizinha, destruiu a sua casa — tendo ela própria sofrido alguns ferimentos superficiais —, a doente constituiu progressivamente, desde essa época, uma síndrome motora cuja manifestação mais notável se vê durante o andar.

A doente se move, com efeito, às arrecuas, andando na ponta dos pés — primeiro, a passos lentos; depois, precipitados. Interrompe essa marcha em intervalos regulares de alguns giros completos em torno dela mesma, executados no sentido anti-horário, ou seja, da direita para a esquerda.

Regressemos aos detalhes dessa marcha, que não vem acompanhada — por ora, digamos — de nenhum sinal neurológico de organicidade.

A história da doente é difícil de estabelecer por conta do palavreado inesgotável e desordenado com o qual, desde o começo do interrogatório, a doente, ao que parece, esforça-se por sobrecarregar o médico: queixas dramáticas, interpretações patogênicas (ela sofreu “um abalo de todo o lado esquerdo, no cóccix” etc. etc.), história na qual as datas se misturam na maior desordem.

Chega-se, contudo, a isolar os seguintes fatos:

Aos 22 de junho de 1915, em Saint-Pol-sur-Mer, um obus de 380mm destruiu 3 casas; dentre elas, a sua. Quando a tiram de lá, está com a perna esquerda presa no piso desabado. Ela descreve complacentemente a posição extraordinariamente contorcida na qual o choque a teria jogado. É levada ao hospital Saint-Paul de Béthune,[2] onde se constatam feridas pelo estouro do obus; feridas superficiais no couro cabeludo, no nariz, na parede costal direita, na região da fossa supraesprinhal direita.

As sequelas motoras de ordem comocional devem então ter sido aparentes, pois em todos os relatos ela insiste nas palavras do major, que lhe dizia: “Veja se fica direito; direito, senhora; a senhora esteja direito; fique direito” — começando, assim, desde então, uma psicoterapia que, em seguida, seria em vão, tendo talvez até constituído a sua educação nosocomial.

Daí, após curtas passagens em diversos hospitais da região, chega a Paris em agosto de 1925; só que a ferida nas costas ainda não fechara, ela está supurando. É impossível saber dela quando exatamente essa ferida fechou; em setembro, ao que parece, ou mais tarde. Mas desde esse período ela anda, em uma atitude de pseudocontratura, na ponta dos pés; anda para frente; sofre das costas, mas se mantém direito, reta. Afirma ter tido uma paralisia do braço direito, o qual estava distendido, como agora.

Nos anos que se seguem, sua história é feita da longa série de hospitais, de médicos que ela vai consultar, de casas de convalescência pelas quais ela passa; e então, a partir de maio de 1920, de suas intermináveis dissenções com os centros de reabilitação nos quais, com indiferença, ela permanece. Passa sucessivamente pela Salpêtrière,[3] pelo Laennec,[4] por a uma albergaria americana, pelo Saint-Louis[5] — onde lhe fizeram escarificações na região cervical; escarificações que parecem ter favorecido a saída de finos laivos de supuração e de esfiapamentos de tecido. Então ela vai trabalhar como camareira para o Duque de Choiseul, emprego que crises de caminhada nitidamente pitiática — a extravagancia aparente do seu jeito — logo forçam-na a abandonar.

Esse jeito muda, de fato, muitas vezes: um jeito que a doente diz ser “feito barco a remo”, de passinho em passinho; daí, um jeito análogo ao das crianças  “levantando poeira”; e, por fim, um jeito de erguer as pernas sucessivamente uma ante a outra.

É então que ela entra, em janeiro de 1923, no Laennec, de onde fazem com que ela saia mais rápido do que lhe teria sido conveniente. É bem no momento que se a constrange a deixar a sua cama, contra a sua vontade, que ela começa o seu jeito de andar às arrecuas.

Em 1923, o Sr. Souques[6] a vê na Salpêtrière. Ali já parece que a marcha às arrecuas se acresce de giros ao redor dela mesma: parciais, primeiro; depois, completos. Ela é tratada com descargas elétricas sem qualquer resultado.

O Sr. Lhermitte[7] a observou, em 1924, e essa observação que ele quis por bem nos comunicar nos serviu para controlar a história da doente, que, em linhas gerais, não se alterou — ao menos desde então.

Durante todo esse período ela vai consultar diversos médicos, atribuindo uma extrema importância a todos os seus jeitos. Empurrada certa vez na rua por um bandido, sofreu um “abalo do tórax”; mais tarde, empurrada por um agente, ficou dois dias com “o olho esquerdo aberto, sem poder fechá-lo” etc.

No serviço do Sr. Lhermitte, a doente caminhava às arrecuas, sem girar sobre ela mesma, exceto à noite, para voltar para cama. Esse jeito, com giros, reapareceu quando ela entra, em maio de 1927, em Sainte-Anne,[8] em seguida a transtornos mentais que se manifestaram a partir de fevereiro de 1927: alucinações auditivas; ondas que lhe trazem críticas a respeito de como ela vive. “Até tapou as chaminés para impedir que essas ondas penetrassem”; “engravidaram-na, sem que ela soubesse, de dois fetos mortos; era um médico que lhe enviava essas ondas” — escreveu ela ao governador dos Invalides,[9] ameaçando atear fogo em sua casa.

Esse delírio alucinatório polimorfo com alucinações da audição e da sensibilidade geral atenua-se durante sua estada em nosso serviço.

Sintomas motores | A doente pratica a marcha que descrevemos, marcha às arrecuas acrescida de giros completos sobre ela mesma. Esses giros são espaçados quando a doente tem distâncias bem grandes para percorrer. Ela os multiplica, ao contrário, quando se desloca em um espaço estreito — da cadeira de exame para a cama na qual pedem que ela se recline, por exemplo. Ela declara que esse jeito lhe é indispensável para manter-se direito; e caso queiram convencê-la de andar para frente, ela fica em uma posição bizarra, com a cabeça afundada entre os ombros, o ombro direito mais alto que o esquerdo; além do mais, chora, geme, dizendo que tudo “está colapsando no seu tórax”. Ela então movimenta penosamente o pé virado para dentro, colocando seu pé demasiado para frente, erguendo suas pernas; e daí, se ninguém mais estiver olhando, retoma sua marcha rápida com passinhos precipitados, na ponta dos pós, às arrecuas.

Caso se insista e, pegando-a pelas[10] mãos, tente-se fazer com que ela ande para frente, ela se dobra em duas, realizando uma atitude que lembra a camptocormia;[11] daí se deixa esparramar pelo chão ou até mesmo colapsar — ato que vem acompanhado de protestos, às vezes muito vivos, e de queixas dolorosas.

Uma vigia nos afirmou tê-la visto, acreditando-se sozinha e não observada, percorrer normalmente vários metros de distância.

Ausência de todo e qualquer sintoma da série cerebelar.

Não existe nenhuma saliência nem deformação da coluna vertebral.

Nenhuma atrofia muscular aparente dos músculos, da nuca, das costas, da bacia, dos membros superiores nem inferiores. Nenhuma contratura nem nenhuma hipotonia segmentar nos movimentos dos membros nem da cabeça. A diminuição da força muscular nos movimentos ativos — que se pode constatar nos membros superiores no ato de fechar a mão, por exemplo — é tão excessiva (acompanhada, aliás, de dores subjetivas na região interescapular) que se a julga pitiática, se não voluntária.

Exame dos tegumentos | Pode-se constatar, no nível do ângulo externo da omoplata direita, uma cicatriz estrelada, irregular, grande como uma moeda de 2 fr.,[12] formando uma depressão aderente. Na base do hemitórax direito, na linha axilar, uma cicatriz linear um pouco queloidiana, de 6cm de comprimento. No nível da asa direita e do lóbulo do nariz, uma cicatriz bastante profunda. Por fim, na região frontoparietal do couro cabeludo, quase na linha mediana, uma cicatriz linear azulada, com o comprimento de 3cm e 1/2, ligeiramente aderente em profundidade.

Nota-se, por fim, nas duas regiões preparotidianas, na borda posterior dos masseteres, na frente do lóbulo da orelha, duas massas endurecidas: a da direita, menor e não aderente à pele na qual ela desliza; a da esquerda, mais volumosa e aderente à pele no nível de uma pequena cicatriz estrelada que a doente remete às escarificações que lhe fizeram no Saint-Louis, em 1921.

Um edema local pode ser facilmente constatado ao olhar e à palpação no nível do antebraço direito, que parece nitidamente aumentado de volume em relação ao do lado oposto. Edema duro, o tecido subdérmico parece mais espesso à palpação; a pele não está modificada em sua finura, nem com cianose ou transtornos térmicos. A mensuração, praticada no nível do terço superior do antebraço, dá 28cm de circunferência no direito; 24, no esquerdo. Esse edema estritamente local, que não se estende nem ao braço nem à mão, já havia sido constatado pelo Sr. Souques.

Sensibilidade | A doente se queixa de vivas dores subjetivas na região cervical posterior e na região interescapular. Nela, o menor toque na região da última cervical até a 5ª dorsal provoca gritos, protestos veementes e uma resistência ao exame.

O exame da sensibilidade objetiva (tátil e térmica) não mostra nela nenhum transtorno, a não ser hipoestesias[13] absolutamente caprichosas, que variam a cada exame. O Sr. Lhermitte havia notado: analgesia completa de todo o tegumento. A noção de posição é normal.

Reflexos | Os reflexos tendinosos, patelares, aquileus, existem normalmente. O tricipital é fraco. O estilorradial e os cúbito- e radiopronadores são vivos.

Os reflexos cutâneos plantares: normal na direita, extremamente fraco na esquerda; normais em flexão. Os reflexos cutâneos abdominais, normais.

Os reflexos pupilares à acomodação[14] e à distância são normais. Nenhum outro transtorno sensorial.

Exame do labirinto | Chegamos ao exame do labirinto.

O Sr. Halphen[15] teve a bondade de realizar esse exame. Ele constatou:

Teste de Barany:[16] Ao fim de 35″, nistagmo clássico cujo sentido varia conforme a posição da cabeça.

Teste rotatório: (10 giros em 20″): A doente colapsa sem que se possa segurá-la, soltando gritos, e não se consegue colocá-la de pé novamente.

Essa hiperrefletividade se vê apenas nos Pitiáticos (ou em determinados centros cerebrais sem lesões).

Aliás, recomeçando o teste, não se conseguiu obter reflexo nistágmico (5 a 11″ de máximo, em vez de 40″).

Essa dissociação entre o teste rotatório e o teste calórico[17] não se explica.

Depois da rotação, a doente conseguiu esboçar alguns passos para frente.

Esse teste não pôde ser feito novamente em razão das manifestações excessivas que ele provocava por parte da doente.

O mesmo ocorreu com o exame voltaico que o Sr. Baruk[18] teve a bondade de realizar. Não obstante, apesar das dificuldades do exame, ele constatou uma reação normal (inclinação da cabeça para o polo positivo aos 3 1/2 amperes) acompanhada de sensações habituais, mas fortemente exageradas pela doente, que se deixa deslizar pelo chão.

Aliás, todos os exames físicos ou tentativas terapêuticas vêm acompanhados de manifestações excessivas, de protestos enérgicos e de tentativas de escapar do exame; não tem sequer um simples exame do reflexo patelar que passe sem fazer com que a doente afirme ter-lhe causado um inchaço no joelho.

É escusado dizer que estava fora de questão uma punção lombar, que teria inevitavelmente dado uma base material a novas reivindicações.

A radiografia do crâneo executada pelo Sr. Morel-Kahn[19] é negativa.

Nada pode dar ideia melhor do estado mental da doente que a carta que ela dirigiu, em 1924, a um dos médicos que a havia observado.

 

Senhor Doutor,

A Senhorita que anda para trás apresenta suas respeitosas saudações e se desculpa por não poder trazer novidades.
Em setembro fui para a Bretanha (Morbihan); o ar livre, o sol me fizeram um grande bem, mas 24 dias é insuficiente pra mim — tendo novamente, desde o fim de junho de 1923, refeito todos esses movimentos nervosos de bombardeios, deslocamento de ar e de impossível equilíbrio.
Não ouso mais sair sozinha, não tenho mais forças e abaixo a cabeça, recuando. O movimento da perna direita, bem como, antes das brutalidades sofridas na rua, o enfraquecimento da parte esquerda, fizeram-me repuxar a perna esquerda toda reta; movo-me indo para trás por um momento, e teve um dia que cheguei em três andares com o calcanhar esquerdo no ar, com a ponta do pé sustentando essa caminhada, perigosa e sem ter como deslocá-la — isso se quebraria. Caí diversas vezes nas traseiras de carro ou de táxis. Saio o mínimo possível nessas condições, mas a cabeça teria necessidade de bastante ar.
A Sra. X…, advogada no Tribunal de Recursos, vai se encarregar de me defender no Tribunal de Pensões, lá pelo início do próximo mês. Leva muito tempo, e estou muito debilitada com esses golpes e brutalidades, movimentos que já não teria refeito, e  quebrado internamente o pouco que me manteria direito.
O tórax ainda mantido num pano, dobro para frente, sem por isso andar, enrolado no peito e ao redor da cabeça, de modo que já não tento, é empírico. Conforme mexo a cabeça, fico com a boca aberta, além da contração, se esqueço de ficar direito.
Se pudesse ficar tranquila ao ar livre, tirando o frio, esses inconvenientes que me derrubaram talvez cessassem. Pedi socorro após o deslocamento de ar, aguardando as queixas de meu pai. Para terminar, os nervos se retraem, os outros não funciona (sic) e não dá para apoiar nos calcanhares. Eu teria ido, Senhor Doutor, apresentar meus respeitos, assim como ao Senhor Professor, mas tenho muitas dificuldades.
Recebam minhas saudações.

 

SOUQUES — Conheço bem a curiosa doente do Sr. Trénel.[20] Observei-a na Salpêtrière, em 1923, no mês de janeiro, com meu interno, Jacques de Massary.[21] Ela apresentava, à época, os mesmos transtornos que hoje: um jeito de andar extravagante e um edema do membro superior direito.

Andava ora na ponta dos pés, ora na borda, bamboleando. Às vezes se movia às arrecuas, girava sobre si mesma etc. Segundo ela, o jeito de andar na ponta dos pés devia-se a uma dor nos calcanhares; e o jeito de pato, às dores nas costas (onde ela tinha cicatrizes de ferimento). Mas é claro que as outras atitudes do seu jeito nada tinham de antálgico.

Quanto ao edema do membro superior direito, era limitado à parte inferior do braço e ao antebraço, a mão permanecendo intacta. Era branco e mole. Ela o atribuía ao fato de ter sido lançada com violência,  “como um capacho”, contra a parede. O caráter segmentar singular desse edema nos fez pensar na simulação, mas não encontramos marcas de estrição ou de compressão no membro.

À época, a doente não apresentava ideias de reivindicação. O diagnósticos a que se chegou foi: Sinistrose.[22]

G. ROUSSY[23] — Como o Sr. Souques, conheço essa doente, a qual examinei longamente, em 1923, em meu serviço no Lar Paul-Brousse,[24] com meu amigo Lhermitte. Havíamos considerado, naquele momento, com sendo um tipo clássico de psiconeurose de guerra, com suas manifestações grotescas e burlescas, desenvolvida sobre um fundo de debilidade mental. Aliás, a doente andava com uma caderneta de pensionista de guerra e não escondia sua intenção de fazer aumentar a percentagem de sua pensão. Havíamos então proposto à doente hospitalizá-la com vistas a um exame prolongado de um tratamento psicoterápico; mas 48 horas após sua entrada no serviço, e antes mesmo que o tratamento fosse indicado, a doente deixou o hospital, sem que assinassem sua ficha.

Eis aí um pequeno fato que vem confirmar a maneira de ver dos Srs. Trénel e Lacan, e que frisa justamente o estado mental particular dessa doente, semelhante aos daqueles de que vimos tantos exemplos durante a guerra.


INFORMAÇÕES ADICIONAIS | Na década anterior, Gustave Roussy [1874-1948] e Jean Lhermitte [1877-1959] haviam publicado um trabalho intitulado Les psychonévroses de guerre [As psiconeuroses de guerra] (Paris: Masson, 1917), onde uma série de casos similares ao da paciente aqui descrita haviam sido discutidos. A noção de “sinistrose de guerra” — definida, a partir do diagnóstico de sinistrose inicialmente proposto por Édouard Brissaud [1852-1909], como um “estado psicopático” caraterizado por uma “inquietude patológica aliada a um delírio raciocinante baseado em uma ideia de falsa reivindicação” — será introduzida por estes no nono capítulo da obra em questão (p. 138). Cabe ainda lembrar que a noção de “pitiatismo”, utilizada por Trénel e Lacan a fim de categorizar os sintomas motores e sensoriais da paciente, havia sido discutida por Joseph Babinski [1857-1932] e Jules Froment [1878-1946] em Hystérie-pithiatisme et troubles nerveux d’ordre réflexe en neurologie de guerre [Histeria-pitiatismo e distúrbios nervosos reflexos em neurologia de guerra] (Paris: Masson, 1917. Disponível em: <gallica.bnf.fr>).
Em tempo, uma súmula desta comunicação de Trénel e Lacan pode ser encontrada em duas publicações: i) Gazette des hôpitaux civils et militaires (Lancette française), 101, n. 16; 25 de fevereiro de 1928, pp. 287. Disponível em: <www.biusante.parisdescartes.fr/histoire/medica>; ii) Paris médical: la semaine du clinicien, n. 68, partie paramédicale, 1928, pp. 274. Disponível em: <www.biusante.parisdescartes.fr/histoire/medica>. Embora seus conteúdos sejam idênticos, a primeira é anônima e o segunda — impressa com um erro de digitação: *Frénel para “Trénel” — consta como sendo da autoria de Jean Mouzon [1892-1964]. Com Augusta Dejerine-Klumpke [1859-1927] e Jules Dejerine [1849-1917], que foram seus professores, Mouzon trabalhou investigando diversas síndromes causadas por lesões do sistema nervoso. Entre agosto de 1917 e fevereiro de 1918, compondo a equipe de médicos franceses enviados para a Rússia a fim de honrar as alianças de mútua assistência estabelecidas antes da guerra, atuou no hospital francês de Kiev. Em 1921 defendeu uma tese intitulada Les plaquettes du sang humain: revue critique et études cliniques [As plaquetas do sangue humano: revisão crítica e estudos clínicos]. Atuou no Hospital Paul-Brousse. Cf. E. Gilbrin; G. Sauvé (1976) “L’hôpital français de Kiev, août 1917-février 1918”, Histoire des Sciences Médicales, vol. 10, n. 3-4, pp. 162-175. Disponível em: <www.biusante.parisdescartes.fr/sfhm>. Cf. também O. Walusinski, “Des neurologues français pendant la guerre (1914-1918)”. Disponível em: <baillement.com/recherche/neuro_14-18_OW_RN_fr.pdf>.



[1] Termo proposto pela primeira vez em 1901 pelo neurologista francês Joseph Jules François Félix Babinski [1857-1932], o “pitiatismo” dizia respeito a perturbações histéricas que se podiam tratar por meio de persuasão ou sugestão — no caso desta apresentação de Trénel e Lacan, pitiática seria a abasia da paciente, isto é, sua marcha peculiar. Para uma síntese sobre o assunto, cf. Jean Babinski (1909) Démembrement de l’hystérie traditionnelle. Pithiatisme. Paris: Imprimerie de la Semaine médicale.  Disponível em: <gallica.bnf.fr>. (N. de. T.)
[2] Comuna situada no Norte da França, uma hora ao Sul de Saint-Pol-sur-Mer. (N. de T.)
[3] O atual Hospital Pitié-Salpêtrière (entidades reunidas desde 1964) remonta ao século XVI, com a criação, em 1544, de um grande albergue destinado a combater a mendicância na capital francesa — tornando-se um misto de prisão, albergue, hospício e creche. Tendo sido destruídos os arquivos,  em 1871, as origens do Hospital Geral permanecem hipotéticas, mas sabe-se que em 1780, com a construção da Enfermaria Geral, iniciou-se ali um serviço de cuidados. Com a chegada de Philippe Pinel [1745-1826] e seus trabalhos a respeito do “tratamento moral” (considerado, em determinados casos, a forma mais adequada a restabelecer a razão dos considerados maníacos), inicia-se uma classificação das doenças mentais, e os doentes são ali separados em alas conforme sua enfermidade —Pinel dirigiria o chamado “manicômio da Salpêtrière” até mais ou menos final dos anos 1810, época em que o estabelecimento oferecia apenas um serviço, por assim dizer (mais tarde, principalmente depois das reformas dos anos 1830-40, o hospital será dividido em diferentes serviços). Jean Martin Charcot [1825-1893] seria nomeado médico-chefe de um dos serviços em 1862, dando início a uma série de trabalhos sobre as doenças nervosas, especialmente a histeria.  A partir de 1900, a atividade dos serviços de tratamento de doenças mentais vai diminuindo, até que a Salpêtrière perde definitivamente sua função manicomial no ano de 1921. O velho edifício hospitalar de Pitié seria demolido em 1896, dando lugar à atual Mesquita de Paris; e entre 1905 e 1911 construiu-se o novo prédio e o centro de formação em saúde. (N. de T.)
[4] Fechado em 2000, após 366 anos de funcionamento, o Hospital Laennec — que, em 1878, recebeu seu nome  em homenagem a René Théophile Hyacinthe Laennec [1781-1826], o médico francês que inventou o estetoscópio — havia primeiramente sido um Hospital dos Incuráveis e, em seguida, uma Casa de Tuberculosos. Era um dos principais hospitais da capital francesa, mobilizando certo descontentamento quando do encerramento de suas atividades. (N. de T.)
[5] Com as epidemias de peste que devastaram Paris entre 1605 e 1606, viu-se a necessidade de criar uma “casa de saúde” capaz de dobrar a capacidade de atendimento hospitalar, em caso de nova epidemia. Ela seria construída fora dos muros da cidade, ao modo dos leprosários, a fim de isolar os doentes do restante da população. O Saint-Louis funcionará ininterruptamente durante 30 anos, a partir de 8 de maio de 1616; depois, de modo intermitente, servindo de abrigo aos doentes infectados, nos tempos de epidemia, e de hospital para mendigos, entre outros. Em 30 de dezembro de 1772, com a quase total destruição dos prédios do principal e mais antigo hospital parisiense, o Hôtel-Dieu, em razão de um incêndio, e com a subsequente transferência de seus pacientes para as dependências do Saint-Louis, este passa a funcionar mais ativamente, recebendo diversas implementações no decorrer do século XIX. (N. de T.)
[6] Alexandre Achille Cyprien Souques [1860-1944] foi um neurologista francês membro da Academia de Medicina. Aluno de Jean Martin Charcot [1825-1893], o escritor Paul Verlaine [1844-1896] esteve sob os seus cuidados no serviço de Anatole Chauffard [1855-1932]. Entre seus alunos estiveram Théophile Alajouanine [1890-1980] (cf. Fixidez do olhar por hipertonia…) e Henri Baruk [1897-1999]. (N. de T.)
[7] Jean Jacques Lhermitte [1877-1959], aluno de Gustave Roussy [1874-1948], Fulgence Raymond [1844-1910] e Pierre Marie [1853-1940], era um neurologista francês. Foi chefe de clínica e laboratório na Salpêtrière, na Clínica de Doenças Nervosas, e chefe de laboratório de Pierre Marie até 1914. Entre 1915 e 1919, foi médico-chefe do Centro Neurológico de Bourges, sob a direção de Henri Claude [1869-1945]; depois, compôs o corpo médico do Lar Paul-Brousse. Em 1923, tornou-se professor de psiquiatria. Viria a ser membro da Academia de Medicina e comendador da Legião de Honra. Foi um dos diretores da revista L’Encéphale e membro do comitê diretivo de diversos periódicos, dentre eles a Revue Neurologique, em que esta comunicação foi publicada. (N. de T.)
[8] O Centro Hospitalar Sainte-Anne foi edificado num local com vocação assistencial desde o século XIII. Em seguida à Casa de Saúde de Margarida da Provença, esposa de Luís IX; e então, ao Sanitat Saint-Marcel, no século XV (destinado aos doentes por contágio), Ana de Áustria ordenou a construção, por volta de 1650, de um hospital que receberia o nome de Sainte-Anne [Sant’Ana]. Pouco utilizado num primeiro momento, o local foi transformado numa espécie de fazenda onde iam trabalhar os alienados do Hospital de Bicêtre, que ficava relativamente próximo. Em 1863, no entanto, Napoleão III decide criar ali um hospital psiquiátrico, designado por ele próprio como “asilo clínico”, uma vez que se destinaria a ser um local de tratamento, de pesquisa e de ensino. O manicômio  é inaugurado no primeiro dia do ano de 1867, e seu primeiro paciente dará entrada em 1º de maio. Em 1922 — poucos anos antes desta comunicação, portanto —, havia sido criado ali, por Édouard Toulouse [1865-1947], um centro de profilaxia mental: o primeiro serviço livre, isto é, no qual os doentes não ficam internados. (N. de T.)
[9] Na época, o general Augustin Eugène Mariaux [1864-1944], que havia assumido o cargo — uma indicação feita pelo Governo da República — em 14 de dezembro de 1923. O Hôtel National des Invalides, ou Palácio dos Inválidos, foi uma construção ordenada por Luís XIV, em 1670, para dar abrigo aos inválidos de guerra e, cumpre dizer, manter os resultados dramáticos dos embates bélicos fora dos olhares da população. (N. de T.)
[10] Na versão francesa, “pas” [não]. Aqui, corrigido conforme a suposição de troca de letras em “par” [por]. (N. de T.)
[11] Uma postura anormal do tronco com flexão severa da coluna toracolombar. (N. de. T.)
[12] A moeda de dois francos tinha por volta de 2,5cm de diâmetro. (N. de T.)
[13] Perda ou diminuição de sensibilidade em determinada região do organismo. (N. de. T.)
[14] O paciente observa algo distante e o examinador pede que ele olhe para a ponta de seu dedo, colocado próximo dos seus olhos, o que provoca convergência do olhar e constrição das pupilas. Voltando a olhar à distância, as pupilas dilatam-se novamente. (N. de T.)
[15]  Trata-se de Paul Émile Julien Halphen [1883-1966], que foi doutor em medicina (1910) e interno hospitalar em Paris (1906). Médico otorrinolaringologista, Halphen também foi professor na Faculdade de Medicina de Paris. (N. de T.)
[16] O Teste de Barany — que leva o nome daquele que, em 1914, havia ganhado o Nobel de Medicina por seus estudos sobre o aparelho vestibular do ouvido: Robert Bárány [1876-1936] — consiste em girar o paciente, numa cadeira especial, por 10 vezes. Em casos normais, a rotação para um lado causa oscilações reflexas nos olhos (ditas “nistagmos”) no mesmo sentido, durante a rotação; no sentido contrário, após a rotação; e a queda para o sentido da rotação, após a realização da mesma. (N. de T. )
[17] O Teste Calórico consiste na estimulação térmica do ouvido interno. A cabeça é girada por 60 graus, para que os canais horizontais assumam uma posição vertical. A colocação de água no ouvido faz a endolinfa fluir, o que emula os efeitos da rotação da cabeça. Água quente provoca nistagmo na direção do lado tratado; água fria, na direção contrária. (N. de T.)
[18] Henri Baruk [1897-1999] foi um psiquiatra francês. Ele viria a ser professor universitário e membro da Academia de Medicina. Aluno de Joseph Babinski [1857-1932] e Achille Souques [1860-1944], em 1921 esteve no internato  em Sainte-Anne, no serviço de Henri Claude [1869-1945]. Teve Henri Ellenberger [1905-1993] entre seus alunos. Baruk, juntamente com Moïse Weisengrun, seria responsável pela tradução (hebraico-francês) do estudo crítico intitulado L’homme Moïse: Freud et le monothéisme hebreu [O homem Moisés: Freud e o monoteísmo hebreu], da autoria de Israel Doryon [1908-1992] — tradução que também contaria com um extenso prefácio escrito pelo psiquiatra. (N. de T.)
[19] Henri Morel-Kahn [1883-1941], que era cavaleiro da Legião de Honra, foi um médico radiologista do Hospital de Paris, chefe de serviço no Hospital de Broussais. (N. de T.)
[20] Aluno de Paul Sérieux [1864-1947], com quem colaborou, o psiquiatra Marc Trénel foi chefe de serviço no Manicômio de Maison-Blanche e do Hospital Sainte-Anne. Amigo e professor de Jacques Lacan [1901-1981], é com ele que este vai se iniciar no trato com os distúrbios de linguagem. (N. de T.)
[21] Ao que tudo indica, trata-se de Jacques de Massary [1892-1938] — filho único de Louise, irmã de Camille Claudel [1864-1943] — que viria a ser chefe de clínica da Faculdade de Medicina de Paris. (N. de T.)
[22] Neurose consecutiva a um sinistro (acidente). Sobre seu diagnóstico, cf. Édouard Brissaud (1908) “La sinistrose”, Le concours médical, vol. 30, pp. 114-117. Disponível em: <www.biusante.parisdescartes.fr/histoire/medica>. (N. de T.)
[23] Gustave Samuel Roussy [1874-1948] foi um neurologista e oncologista suíço naturalizado francês. Sob orientação de Jules Dejerine [1849-1917], defendeu sua tese em 1906, descrevendo uma síndrome talâmica que ficaria conhecida como Síndrome de Dejerine-Roussy. Em 1934, inaugura em Paris o Instituto do Câncer. Foi reitor e titular da cadeira de anatomia patológica da Universidade de Paris. (N. de T.)
[24] Recebendo seu nome em homenagem a um médico e político francês (Paul Brousse [1844-1912]), o estabelecimento começou a ser construído em 1908 e abriu suas portas no ano de 1913. (N. de T.)