17.06.1929 | Síndrome epileptoparkinsoniana encefalítica

[ Syndrome comitio-parkinsonien encéphalitique ]

Comunicação realizada junto à Sociedade clínica de medicina mental, na sessão do dia 17 de junho de 1929, por Ludovic Marchand [1873-1976], Adolphe Courtois [1903-1935] e Jacques Lacan, sobre o caso de uma jovem de 26 anos manifestando crises nervosas associadas a um estado depressivo e a “transtornos de caráter”. A paciente em questão será observada no Hospital Henri-Rousselle, um ambulatório de psiquiatria então ligado ao Hospital Sainte-Anne. Seu registro de entrada na instituição data do mês de maio de 1929. Considerado um caso particularmente complexo, seus antecedentes clínicos incluirão sintomas como: crises neurastênicas acompanhadas de tentativa de suicídio; paralisia parcial do membro superior direito; anestesia genital progressiva e síndrome alucinatória sub-onírica acompanhada de ansiedade. O estado atual da paciente será descrito por Marchand, Courtois e Lacan como próprio de uma “hemissíndrome parkinsoniana direita”, sendo a presente comunicação entendida como uma “interessante contribuição ao estudo da epilepsia sub-cortical”. Cabe lembrar que, neste mesmo ano de 1929, Ludovic Marchant e Adolphe Courtois haviam publicado na Revue neurologique um artigo sobre este tipo particular de epilepsia, tema de intenso debate no interior da neuropatologia de língua francesa e alemã.

 

Revue Neurologique, 1929, 2° semestre de 1929, p. 128.

Annales Médico-Psychologiques, 1929, t. II, p. 185.

L’Encéphale, 1929, vol. 24, p. 672.

 

Jovem mulher apresentando uma hemissíndrome parkinsoniana direita de natureza encefalítica, com diversos episódios epilépticos. Crises jacksonianas[1] do lado oposto ao parkinsonismo; mais geralmente crises generalizadas, às vezes com micção involuntária, provocáveis por uma excitação dolorosa, um exame elétrico; atos automáticos habitualmente descoordenados; automatismo ambulatório.

Os autores insistem quanto ao polimorfismo das manifestações epilépticas, das quais algumas poderiam levar a pensar em acessos neuropáticos, sobretudo na ausência de toda e qualquer convulsão tônica ou clônica[2] para certas crises, ao passo que outras são exclusivamente tônicas. Tais fatos se enquadram como epilepsia subcortical.


INFORMAÇÕES ADICIONAIS | Em relação ao artigo de Marchand e Courtois sobre epilepsia sub-cortical, cf. “De l’épilepsie dite ‘sous-corticale’, ‘striée’ ou ‘extra-pyramidale’ [Da epilepsia dita “subcortical”, “estriada” ou “extrapiramidal”], Revue neurologique, t. II, n. 1, julho de 1929, pp. 31-43. Disponível em: <www.biusante.parisdescartes.fr/histoire/medica/resultats/index.php?do=page&cote=130135x1929x02&p=79>. Logo no primeiro parágrafo podemos ler a seguinte passagem: “Há alguns anos tende-se a opor aos acessos determinados por lesões corticais aqueles que se relacionam a lesões infracorticais (substância branca subcortical, corpo estriado, tálamo, região sub-ótica, cerebelo, protuberância). É sob os nomes diversos de “epilepsia extrapiramidal” (Sterling), “epilepsia estriada” (Wimmer), “epilepsia subcortical” (Spiler), “epilepsia espástica” (Voisin, A. Legros; Knapp) que se tende a individualizar essa forma especial. A denominação “epilepsia ‘subcortical'” é adotada por muitos clínicos sem que se preconceba a região onde reside a lesão.


[1] “Durante séculos acreditou-se que o córtex cerebral humano fosse responsável apenas por funções mentais conscientes superiores. Em meados do século XIX, o neurologista inglês John Hughlings Jackson [1835-1911] propôs a teoria controversa de que uma parte específica do córtex cerebral anterior ao sulco central teria um papel determinante no movimento. Ele chegou a essa conclusão a partir do tratamento de pacientes epilépticos cujas crises se caracterizavam por movimentos involuntários espasmódicos repetidos, que algumas vezes lembravam fragmentos de ações voluntárias propositadas. Durante cada episódio, as crises sempre se espalhavam para diferentes partes do corpo em uma sequência temporal fixa, que variava de paciente para paciente, em um padrão denominado crise jacksoniana.” E. Kandel et al. (2013) Princípios de neurociências, 5ª ed. Trad. A. L. S. Rodrigues et al. Porto Alegre: AMGH Editora, 2014; p. 725. (N. de T.)
[2] Denotam, sucessivamente, rigidez persistente (convulsão tônica) e mudança constante de tensão muscular (convulsão clônica). (N. de T.)