Apresentação realizada por Henri Claude [1869-1945], Pierre Migault [1898-?] e Jacques Lacan, em 20 de novembro de 1931, junto à Sociedade Médico-Psicológica de Paris.
Annales Médico-Psychologiques, 1931, vol. 1, pp. 483-490.
A
presentamos à SMP dois casos de delírio a dois cuja originalidade nos pareceu residir em sua autonomia quase completa, que comporta uma parte de crítica recíproca.
Nisso diferem da doutrina clássica, que insiste no contágio mental, fundamentando-se nos casos em que se pode discernir nitidamente um delírio indutor de um delírio induzido — o qual se esteriliza ao ser afastado do primeiro.
1º caso de “Delírio a dois” | A mãe e a filha Rob…
A mãe (Marie-Joséphine), 70 anos
Síndrome interpretativa com paroxismos de ansiedade. Alucinações auditivas de caráter onírico e com predominância hipnagógica.[1] Elementos visuais de tipo sensivelmente confusional. Persistência, variável no decorrer da evolução, de elementos delirantes pós-oníricos.
– Reações: pedido de socorro, acusa-se de fatos imaginários, corrige-se, pede desculpas. Desordem de atos passageiros. – Fabulações amnésicas. – Evolução há pelo menos um ano. Insônia cuja sedação recente corresponde a uma sedação de outros sintomas.
Choque emocional (morte do filho há um ano) coincidindo com o início da evolução mórbida. Possível nota endotóxica e provável intoxicação exógena.
A doente manifesta, quando do interrogatório, uma postura afável, benevolente, isenta de toda e qualquer nota paranoica, às vezes ligeiramente reticente.
Ela declara, no decorrer das diferentes entrevistas que fizemos com ela, que:
Penetram nela com a cópia de uma chave; vasculham, roubam-na, pegam-lhe o dinheiro. Ela, no entanto, não pode afirmar isso formalmente. Trata-se, antes mesmo, de miudezas sem valor. “É, por assim dizer, pelo prazer de pegar”.
Fazem circular boatos sobre ela no bairro. “Aquela ali é doida, com certeza; pra ser ruim desse jeito, só sendo um pouco pirado; ali tem é muita inveja da sua saúde”.
Os comerciantes, os vizinhos lhe dão alimentos envenenados (sem sequer ter tocado neles, frequentemente joga-os no lixo; daí o esbanjamento considerável, constatado pelo inquérito). Ela dá dois francos a mais para ter “boas comissões”.
(484) Muitas vozes falam com ela pelo ar. Alegam que ela matou o filho. Dizem a ela através das paredes: “Tome cuidado, você tem pessoas ruins ao seu redor. Você tem ao seu redor máquinas que dizem tudo o que acontece na sua casa”.
Observam-na incessantemente com o auxílio de um jogo de espelhos, de modo que teve de cobrir o que fica na lareira.
Ela não consegue fazer sua higiene pessoal, “de tanto que é vista”. Chacotas no tique-taque do despertador. Gostos ruins, cheiros ruins.
Fundo mental:[2] orientada. Conservação das noções adquiridas. Cálculo mental bastante bom. Conservação da lógica elementar.
Exame físico: leve tremor digital de entrada, taquicardia, P.A. 23/13 no Pachon.[3] Azotemia[4] 0,27. Ausência notável de toda e qualquer canície.[5] Distrofia ungueal do médio direito. Sem distúrbios óculo-pupilares. Reflexos tendinosos normais. Constatado cafeinismo e talvez reforço vínico. Reações humorais, sangue e L.C.R.,[6] negativas.
A filha (Marguerite-Marie), 35 anos, funcionária do Crédit Lyonnais[7]
Psicose interpretativa atípica. Aparenta ser estênica,[8] emotiva e carrancuda. Revela por trás de suas reticências um autismo que deixa as suas queixas pouco coerentes. Confessa, de imediato, as práticas bizarras de base imaginativa que são as mesmas cuja revelação, admitida como certa, constitui a base de suas interpretações. A puerilidade delas constitui seu ridículo. Relação parcial com um tema erotomaníaco pouco coerente.
Guarda um rancor particularmente maior de seus colegas de escritório desde a morte de seu irmão “que nem sequer ofereceu trégua às suas zombarias”.
Ilusões auditivas: discordância manifesta entre seu conteúdo e a significação alusiva que ela lhes atribui.
Ostenta uma postura sistematicamente orgulhosa e distante. O inquérito revela um mínimo de manifestações exteriores: em seu escritório ela é considerada normal. Atividade intelectual autística.
Afetividade prevalente em relação à mãe. Mas, na vida comum, revelação de bizarrices de conduta, de despotismo exercido pela filha com brutalidades episódicas.
Expressa-se em um tom baixo, reticente e hostil: “Isso lhe causa bastante desgosto… Há tempos a mãe não a via sorrindo… A persistência das gozações a deixou nesse estado…” etc.
Obtém-se dela um fato, por fim: um de seus colegas, C. H., brilhante orador nas reuniões, parece lhe ter inspirado uma inclinação — uma preocupação, pelo menos — que a teria induzido a escrever, em pedaços miúdos de papel, as seguintes palavras: “C. H. casado”; “C. H não casado”; “C. H. gentil, C. H. ruim, C. H. ogro” etc. Esses papéis devem ter caído nas mãos de algum empregado da casa; ela acredita reconhecer, desde então, toda sorte de alusões a essas manifestações “que não combinam (485) com a minha idade — tem uma idade em que a gente não deveria ter pensamentos ingênuos demais”.
Além disso, desenhos ingênuos, uma Virgem, um Cristo que brinca, uma mulher carregando uma criança na cabeça, tudo isso deve ter sido descoberto e feito rir.
Ilusões auditivas manifestas: enquanto desenhava um Cristo, pronunciaram as seguintes palavras: “grande petardo”. Ela relaciona ao mesmo tema, sem que se possa saber por que, alusões desprazerosas a relações que ela teria tido com um ator de cinema, Marius M. “Milhares de vezes eu escutei: ‘Marius e cem mil francos'”, “isso posso afirmar”.
Irritabilidade manifesta frente a todo sorriso, mesmo benevolente.
Sempre preocupada com o futuro da mãe. Manifesta uma grande emoção ao se lembrar do irmão falecido.
Grande “rata de biblioteca”, no dizer dos vizinhos. Teria passado dias lendo na cama. Recita versos de cor.
Pediu uma licença a partir do último mês de dezembro para, segundo ela, cuidar de sua mãe. Ajudada, desde então, pela beneficência da casa que a empregava e que eventualmente a readmitiria.
Ecos de uma tirania exercida sobre sua mãe e de violências verbais.
Funções intelectuais elementares conservadas, vastos cálculos efetuados bem e rapidamente. Exame físico: hipotireoidismo, pequenez das extremidades, altura 1m46, obesidade, hipermastia, pulso 116. P.A. 20/11 no Pachon. Pupilas reagem. Reflexos tendinosos normais. Simpaticotonia[9] marcada.
Relação entre os dois delírios
A filha é biológica não reconhecida. A mãe teria tido dois outros filhos do mesmo pai — dos quais um teria sido entregue ao serviço assistencial infantil — e dois gêmeos, que morreram ao nascer. Desde a morte do filho, as duas mulheres vivem isoladas, cada uma com seu delírio.
A filha aprecia com exatidão os distúrbios da mãe, que ela explica como “anemia cerebral”. Preocupa-se muitíssimo com o futuro da mãe; não quis forçá-la a entrar em um hospício e pede para ficar no manicômio com ela, caso tenha de permanecer ali por algum tempo. Declara, para grande escândalo da mãe, ter constatado diversas vezes a desordem dos atos dela.
Em contrapartida, a mãe acha ininteligível as amolações de que a filha se queixa.
O quarto que as duas têm em comum está em um estado de extrema sordidez; toda a renda é aplicada em dispendiosas compras de comida.
A filha era considerada perigosa pelo círculo próximo, enquanto a mãe — que, no entanto, nomeia seus perseguidores: os S., seus vizinhos —, por sua postura sorridente e graciosa, devia gozar da benevolência geral.
(486) 2° caso | A mãe e a filha Gol
A mãe, Jeanne G., 67 anos, não internada
Delírio de interpretação[10] típico, evoluindo há pelos menos quinze anos. Demonstrações na rua com períodos de recrudescência anunciados por certas manifestações que possuem valor significativo. Violação de domicílio. Ideias de envenenamento. Traições do círculo próximo, mesmo de amigos. Todas as manifestações hostis frequentemente marcadas por um caráter muito mais demonstrativo do que eficaz.
Extensão da síndrome impondo a ideia de uma notoriedade sem limite do sujeito. Reações: migrações domiciliares para fugir de um inimigo que não se despista; interpretações significativas de palavras banais.
Ilusões auditivas.
Gases.
Correntes elétricas. Os desconfortos tomam emprestado sua expressão dos vocabulários da eletricidade, do bobinamento etc…
Reações: calafeta sua casa; lacra as portas; leva sacolas enormes para lá, onde carrega todas as suas provisões alimentares; cimenta os furos e as quinas, estende barbantes (“era como se estivéssemos num submarino”). Há nesses cômodos alguns cantos particularmente perigosos.
Sordidez, esbanjamento.
Fundo mental não diminuído. Bem mais que isso: crítica externa conservada: “Você quer que eu vá protestar pelo que, se não tenho provas? Vão dizer: ‘ela é tão louca quanto a filha que está em Ste-Anne[11]‘”. Nenhuma reação protestatória, de fato.
Essa mulher, que está em liberdade, expressa-se em um tom muitíssimo moderado, é pontual nos encontros que marcamos com ela a propósito de sua filha, sustenta-a com o seu trabalho há alguns anos, parece ser pontual no trabalho. Expressa-se assim:
“A rua nos é muitíssimo hostil; muita gente está a par da nossa história — uma grande parte do clero, em particular, cujos inimigos são, muito provavelmente, causa de muitas das nossas chateações”. “Nós, os Gol… somos muito conhecidos em Paris; conhecidos como o Presidente da República”.
É sobretudo no mundo operário que se recrutam seus perseguidores: “Dia desses, um escavador disse, olhando na direção dela: ‘Olha só, lá vem o marmanjo’. Ao que o colega respondeu: ‘Negócio sujo, certeza’. – ‘Negócio sujo’, repetiu o outro; ‘será que era pra gente ter em mente que ia ter que lidar com marmanjos que nem esse?'”.
A perseguição da rua varia em intensidade e em modo.
Tinha hora que elas não podiam sair sem que cuspissem quando elas passavam, “sem ficarem cobertas de cuspe”, sem que xingassem — “safada, puta” —, sem que as ameaçassem (estouro de pneus, (487) exibição de cordas, de carros pretos e fechados), sem que as ridicularizassem de todas as maneiras.
Quanto ao seu domicílio, penetram nele incessantemente. Quando entram em sua casa, “fazem uma marca para mostrar que entraram”. “Param o despertador para mostrar a hora em que vieram”. “No começo eram os vizinhos, os W…, de acordo com o material telefônico, que faziam essas incursões”.
Frequentemente encontrava nos mantimentos pequenos sinais que provam que haviam instilado veneno.
Deram-lhe choques elétricos muito doloridos, sobretudo nas partes genitais. Ela teve uma sensação que só se pode ter quando se é eletrocutado. Todos esses desconfortos são aumentados em 1920: nas oficinas, sempre as colocavam do lado de uma porta onde essas correntes eram tão fortes que os operários fugiam delas. As patroas acabam entregando, com suas palavras, que cuidam para que seja assim.
Asfixia, desconfortos tamanhos que certa noite, em 1925, têm de passar a noite, ela e a filha, do lado de fora. Interpretações olfativas: perfumes etc.
No começo (1917), todos os comerciantes haviam se juntado para envenená-la, ela tinha de abastecer de medicamentos em um local afastado do subúrbio. Fartaram-se disso, ultimamente.
Exame neurológico negativo.
P.A. 25/13.
A filha, Blanche, 44 anos
Delírio paranoide.
Construção extremamente vasta, que é uma segunda realidade: “o outro dia”, diz ela, no qual reluz outro sol; dia no qual ela adentra quando mergulha no sonho e cuja existência e cujos acontecimentos lhe são revelados por intuição.
Essas concepções formam um sistema coerente, constante de um interrogatório a outro. Elas incidem:
– no seu próprio corpo: Ela é o quadricéfalo de olho verde. O que lhe indicou o caminho foi seu sangue ser perfumado. Sua pele se metaliza e se endurece a temperaturas elevadas; então ela é de pérola e dá à luz a joias. Suas partes genitais são únicas, pois há um pistilo, é como uma flor. Seu cérebro é quatro vezes mais forte que os outros, seus ovários são os mais resistentes. Ela é a única mulher do mundo que não precisa fazer sua higiene pessoal.
– na natureza dos sexos: “Um homem, quando faz sua higiene pessoal, vira uma dama”. Todas as damas, menos ela, precisam fazê-la, senão elas são homens.
Para ela, “não tem nada em demasia em sua pessoa, não tem nada pra tirar”. “Não tem nada pra cortar em mim, não tem cebola pra cortar. Em mim, tudo é natural. Não tenho nenhum desejo ruim? Sou uma dama”.
(488) Ela é um ser único e sem equivalente no mundo, que se caracteriza:
– por suas ressurreições sucessivas: quando morre, ela é reduzida a cinzas e delas renasce. Testemunha disso é o que aconteceu em 1885, com seu retorno à vida em 1887, segundo papeis que estão no paço municipal: o pequeno corpo que então tiraram de seu corpo sofreu toda sorte de provações — “um teste quadricéfalo, pra ver se ele era forte o bastante”.
– por sua fecundidade: ela é a mãe de todas as crianças nascidas desde 1927 — “as quadricéfalas”.
Sente os movimentos delas em seu ventre e nas costas; carrega-as durante 27 meses, e 30 meses para que seus órgãos sejam mais fortes.
“O que é uma mãe?” — “Uma dama que fez sua higiene pessoal e em quem a prefeitura instalou uma criança que tiraram do meu corpo”.
Retiram-nas dela, de fato, no segundo dia — aquele em que impera o regimento “quadricéfalo”. Conseguem fazer isso graças ao seu diafragma reforçado. Sua internação aqui vai acarretar uma baixa da natalidade, pois ela se recusa, de agora em diante, a procriar; apesar disso, devido à duração de suas gestações, nós não vamos notar imediatamente.
– por sua virgindade: se no “outro dia” ela pode ser violada até doze vezes por noite pelo criador, na forma de duas serpentes entrelaçadas, neste, não obstante, ela desperta virgem, ela permanece virgem. Tudo isso “desde que o mundo existe”. Ela é a mãe única e a virgem eterna.
– por sua correspondência com outro ser único, que é o Criador. Seus poderes alternam misticamente: “Como é que ela procriaria sem ele? Como é que ele criaria sem ela?” Aliás, não é porque ela o designa como “Ele” que ele não é “mais dama do que todas as damas”: “Ele é o quadricéfalo de olho negro, sua pele é de marfim etc.” São dois seres únicos, seus sangues não se misturam jamais.
– por sua soberania, sua infinitude, sua universalidade.
Evolução: Segundo o que ela diz, em 1920, ela e sua mãe passaram por duras provações: correntes elétricas que serviram para reforçar seus órgãos, assim como “os batimentos do coração, a pressão das dores de cabeça, o enervamento e a ‘bordoada’ que queriam dar nela com alimentos envenenados”. Mas tudo isso parou completamente em 1925 e começou o bobinamento, que é o meio pelo qual lhe revelaram tudo o que ela é: “foi a bobina que me disse, no tique-taque do meu pêndulo” etc.
Reações: A doente confessa práticas estranhas, faz um caldo com o sangue de suas regras: “bebo um pouco todo dia, é meu alimento fortificante”; ela chegou ao serviço com frascos hermeticamente fechados — um contendo matéria fecal; outro, urina — e embrulhados em tecidos bizarramente bordados.
Ela está bem decidida a não trabalhar mais, “tiraram demais com (489) a minha cara, me devem no mínimo uma pensão alimentícia”. “Mesmo que recusem, ainda vão se arranjar por debaixo do pano com a minha mãe”.
Não obstante, ajuda a mãe muito regularmente nos serviços domésticos, prepara as refeições etc.
Todas essas declarações são enunciadas com um sorriso sereno, um tom cheio de certeza, uma complacente satisfação; a resposta vem fácil, viva, às vezes cáustica. Sobre sua virgindade: “se não tenho olho nesse lugar, tenho um dedo para ver”. “Ah, não! O golpe dos nove meses, isso não funciona comigo” etc. As palavras “poder”, “propriedade”, “regimento” ficam voltando incessantemente etc.
Fundo mental: Integridade da lógica elementar, conservação das noções adquiridas, orientação, informações precisas dos acontecimentos recentes.
Exame físico: Adiposidade, metabolismo basal reduzido, sem sinais neurológicos.
Relações entre as duas delirantes
A filha — filha única da mãe — é, como no caso anterior, uma filha biológica não legitimada. Mais ainda que no caso anterior, o isolamento social é manifesto; ele dura desde a infância.
A mãe parece ter delirado primeiro. Mas a filha logo a acompanhou em suas interpretações. Elas comungaram na expressão de sua cenestopatia,[12] de suas angústias, de seus pânicos, na organização de seu sistema de defesa. Com diz a mãe: “Minha filha era que nem uma pessoa normal”.
Não obstante, a partir desse momento a mãe observa ser bem estranho escutá-la queixando-se de lhe roubarem o pensamento. Para ela, ela não sentia nada parecido: apenas reconhecia, em conversas, alusões ao seu pensamento.
Agora ela está acabada de ver a filha delirar: “Ela tem delírios de grandeza”. Mas não ousa contradizê-la demais, pois tem medo dela.
Esta, com efeito, a repreende severamente: “é irritante, ela insiste em achar que eu sou a filhinha dela, em me tomar como uma pessoa como outras cem mil que existem por aí”. “Mas primeiro não te pedem pra compreender”. Chegou a acontecer de bater em sua mãe.
Por outro lado, acontece de uma relacionar à outra a acentuação de alguns de seus distúrbios; a mãe “tem correntes” quando sua filha se desloca; a filha lhe diz: “Era você que estava me enviando elas, velha canalha”. A mãe traz para suas interpretações os distúrbios de caráter da filha, que ela acredita ver se acentuarem nos dias de festa religiosa. A filha, fechada em seu delírio metafísico, caçoa das interpretações da mãe e declara que “não se tem que dar corda pra nada disso”. Quanto às correntes, ela consegue suportá-las; isso não a incomoda.
Uma antiga nota de ambivalência afetiva nos parece digna de ser notada: “Vivíamos como duas irmãs; duas irmãs, ambas sérias”. A hostilidade da filha ia progredindo quanto mais ela (490) renegava seu parentesco com a mãe. Ela demonstrava maneirismo. Quando a mãe empregava o nós: “Vamos nos deitar“, por exemplo. – “No singular, não no plural”, replicava a filha, que acrescenta diante de nós: “Vocês nunca vão me fazer viver junto com a minha mãe”.
Em resumo: Nós podemos realçar nesses dois casos:
1°) A hereditariedade em linha direta com reforço análogo da tara psicopática; 2°) um isolamento social que pode ter determinado as perturbações afetivas que vemos se manifestar; 3°) uma evolução independente dos delírios com possibilidades de críticas recíprocas, que se medem pelo grau de conservação do contato com o real.
Do ponto de vista da análise e da classificação dos delírios, o da mãe no grupo Gol é característico devido ao caráter intuitivo, imposto e pouco razoável das interpretações, caráter este que contrasta com o sentimento que ela tem da dificuldade de justificar seu sistema.
O delírio da filha é interessante por seu caráter de egocentrismo monstruoso, e pela presença de intuições de retorno periódico e de recomeço (ressurreições sucessivas) que frequentemente se encontram em um certo tipo de delírio paranoide.
[1] Trata-se das visões/alucinações que se têm ao cair no sono. (N. do T.)
[2] Num indivíduo, trata-se da soma de disposições psíquicas inatas ou adquiridas que subjazem, frequentemente, uma manifestação patológica. (N. do T.)
[3] Michel Victor Pachon [1867-1938] foi o fisiologista francês, professor da Faculdade de Bordeaux, responsável pela criação de um modelo de oscilômetro para aferimento da pressão arterial (P.A.) e do índice oscilométrico. Cf. <www.museudavida.fiocruz.br/index.php/museologico/objeto-em-foco/acervo-museologico-oscilometro-de-pachon>. (N. do T.)
[4] Trata-se do aumento de concentração — no sangue, no plasma ou no soro — de compostos nitrogenados como ureia e creatinina. (N. do T.)
[5] Trata-se do embranquecimento dos cabelos por senilidade, anomalia orgânica congênita ou causas acidentais. (N. do T.)
[6] Líquido cefalorraquidiano. (N. do T.)
[7] O Crédit Lyonnais foi um banco francês fundado em 1863. Tendo falido em 1993, foi comprado pelo Crédit Agricole no ano de 2003 — assumindo, a partir de 2005, o nome “LCL” (Le Crédit Lyonnais). (N. do T.)
[8] Referente à “estenia”: excesso de força, exaltação da ação orgânica. (N. do T.)
[9] Trata-se do estado patológico em que existe um predomínio do tono do sistema nervoso simpático e em que se verificam espasmos vasculares, hipertensão arterial, taquicardia, dilatação pupilar etc. (N. do T.)
[10] Sobre “delírio de interpretação”, cf. P. Sérieux; J. Capgras (1909) “As ‘loucuras raciocinantes’. O delírio de interpretação” [Trad. M. V. Pacheco], Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, v. 10, n. 2, pp. 340-345. São Paulo, junho de 2007. Disponível em: <dx.doi.org/10.1590/1415-47142007002012>. (N. do T.)
[11] O Centro Hospitalar Sainte-Anne foi edificado num local com vocação assistencial desde o século XIII. Em seguida à Casa de Saúde de Margarida da Provença, esposa de Luís IX; e então, ao Sanitat Saint-Marcel, no século XV (destinado aos doentes por contágio), Ana de Áustria ordenou a construção, por volta de 1650, de um hospital que receberia o nome de Sainte-Anne [Sant’Ana]. Pouco utilizado num primeiro momento, o local foi transformado numa espécie de fazenda onde iam trabalhar os alienados do Hospital de Bicêtre, que ficava relativamente próximo. Em 1863, no entanto, Napoleão III decide criar ali um hospital psiquiátrico, designado por ele próprio como “asilo clínico”, uma vez que se destinaria a ser um local de tratamento, de pesquisa e de ensino. O manicômio é inaugurado no primeiro dia do ano de 1867, e seu primeiro paciente dará entrada em 1º de maio. Em 1922, havia sido criado ali, por Édouard Toulouse [1865-1947], um centro de profilaxia mental: o primeiro serviço livre, isto é, no qual os doentes não ficam internados. (N. do T.)
[12] Perturbações da cenestesia; alteração local da sensibilidade comum na esfera da sensação geral; a sensação geral de estar doente. (N. do T.)