12.11.1931 | Parkinsonismo e síndromes demenciais (protrusão da língua em um dos casos)

[ Parkinsonisme et syndromes démentiels (protusion de la langue dans un des cas) ]

Comunicação realizada por Henri Ey [1900-1977] e Jacques Lacan, junto à Sociedade Médico-Psicológica de Paris, em 12 de novembro de 1931. São apresentados dois casos, acompanhados no serviço coordenado por Henri Claude [1869-1945], em que as doentes, manifestando distúrbios mentais, viram se instalar uma síndrome parkinsoniana. Na primeira delas, trata-se de um caso de demência com indiferença, impulsões motoras, estereotipias verbais e motoras que a aproximam dos estados hebefreno-catatônicos; na segunda, de uma demência paranoide. Estão em cena, portanto, as relações entre a síndrome parkinsoniana e esses estados psicopáticos — que chamam a atenção pela raridade de sua presença em associação ao parkinsonismo. A discussão mobiliza os trabalhos de Eugen Bleuler [1857-1939] e Henri Claude, bem como os de diversos outros autores que refletiram sobre síndromes alucinatórias complexas. Como pano de fundo, a famigerada e intrigante “doença do sono” (encefalite letárgica), que assolou a Europa entre os anos de 1916 e 1930.

 

Annales Médico-Psychologiques, 1931, vol. 2, n. 4, pp. 418-428.

Revue Neurologique, 1931, vol. 2, n. 6, p. 833.

Revue Neurologique, 1932, vol. 2, p. 237.

 

Temos a honra de apresentar perante a Sociedade dois novos casos de parkinsonismo com distúrbios demenciais. Em um, trata-se de uma síndrome demencial simples; no outro, de uma demência paranoide.

I | B. é uma mulher de 26 anos; deu entrada na clínica em 7 de outubro de 1930 “num estado confusional[1] que data de muitas semanas e evolui sobre um fundo de debilidade”.

O seu desenvolvimento somático e intelectual efetuou-se normalmente. Até os 12 anos, diz o seu pai, ela era inteligente e se saía bem. Aos 13 (em 1917) teve uma “escarlatina”, a respeito da qual só conseguimos ter informações vagas. (419) Dessa doença em diante, diz o pai, ela ficou “pouco altiva”, passando a ser muito indiferente a tudo.

Aos 18 anos teve uma primeira rajada confusional, que se prolongou por cerca de dois anos, com intermitências. O seu estado mental aprumou-se um pouco e um médico aconselhou o casamento (1924).

Aos 20 anos (1925) ela conheceu o marido e casou-se.

Engravidou em 1929 e deu à luz em novembro. Um mês após o parto, começou a dizer coisas incoerentes, repetindo “Quero ir pra Calais[2]… Quero ir pra Calais” durante horas. Parecia não reconhecer as pessoas à sua volta.

No início de 1930 apareceram novos distúrbios, “ela ficava falando engraçado” e “saltitava” ao andar.

Foram a sua inércia e a sua incapacidade de se portar que a levaram ao manicômio.

i) Na sua entrada no serviço, em presença dos distúrbios da marcha por ela apresentados, nós a examinamos sistematicamente do ponto de vista neurológico e, de partida, apesar da discrição dos sintomas, verificamos uma síndrome de hipertonia predominante do lado esquerdo (8 de outubro de 1930):

Os movimentos são duros e aos trancos. As diversas articulações dos membros esquerdos são menos flexíveis que do lado direito. Os reflexos de postura são exagerados do lado esquerdo. A contração voluntária estabelece-se no bíceps esquerdo por uma série de pequenas contrações sucessivas que esboçam roda dentada[3].

Notamos, em seguida, um sinal importante: a ausência de balanço automático do braço esquerdo durante a marcha.

A voz é monótona e algumas sílabas, explosivas. O rosto, pouco móvel.

Não existem tremor nem distúrbios vegetativos.

A marcha apresenta um caráter de espasmodicidade. O membro inferior esquerdo só se levanta com uma flexão brusca da perna, que confere à marcha um caráter “saltitante”.

Do ponto de vista do seu sistema piramidal[4], notamos um enfraquecimento da força muscular do lado esquerdo — os flexores do membro superior e os extensores do membro inferior são os mais acometidos. Clono[5] dos dois pés e das rótulas.[6] Reflexos osteotendinosos bastante vivos, sobretudo do lado esquerdo. Reflexos cutâneo-mucosos normais (em particular, não existe sinal de Babinski).[7]

Punção lombar: albumina: 0,40. Pandy[8] e B.-W.[9] negativos. Benjoim[10] normal. Citologia: 0,8 elemento por mm3.

Exame ocular: pupilas normais, reflexos normais, sem distúrbios da convergência,[11] sem nistagmo.[12]

No momento, não hesitamos em fazer o diagnóstico de princípio de síndrome parkinsoniana. O exame psiquiátrico revelava nessa doente um ligeiro déficit das funções mentais, tal como apresentado pelos doentes ao saírem de um estado confusional (obtusão,[13] bradicinesia,[14] bradipsiquia).[15]

(420) ii) Evolução da síndrome parkinsoniana – Essa doente foi submetida, em seguida, a um tratamento com salicilato de sódio[16] intravenoso (0,10 por dia durante 6 meses consecutivos); apesar disso, vimos a síndrome parkinsoniana instalar-se e progredir diante dos nossos olhos.

No mês de janeiro de 1931 observamos: “gatismo,[17] feição estática, voz monótona, andar saltitante”.

Em fevereiro, a feição foi se tornando cada vez mais rígida, a mímica[18] se empobrece. Surgem os distúrbios da estática: a doente, na posição ereta, fica repuxada para a direita. Não anda em linha reta. A sua postura, como um todo, é rígida; ela fica com as mãos juntas, em atitude de pronação.

Em junho surgem acessos de protrusão da língua. Esses acessos são caracterizados pela projeção espasmódica da língua para fora da cavidade bucal. O espasmo cessa em intervalos; alguns segundos depois, porém, a língua é novamente “disparada” para fora. Esses acessos duram uma dezena de minutos; eles se repetem de modo bastante irregular. Não são acompanhados da mordida da língua por contração concomitante dos músculos mastigadores. São tanto noturnos quanto diurnos.

Desde então, a doente ainda viu aumentar o seu estado de hipertonia: a marcha é muito atrapalhada; todo o hemicorpo esquerdo está soldado; o membro inferior arrasta; o braço fica afastado do corpo. Suas latero e retropulsões[19] resultam numa progressão irregular.

Observamos, ainda, acessos de automatismo ambulatório muito bruscos e curtos. Precipita-se bruscamente para fora da cama e anda em frente a ela, depois para.

A doente apresenta uma contratura extrapiramidal[20] de tipo parkinsoniano evidente. O aspecto hemiplégico[21] que ela apresenta à primeira vista (estepagem;[22] mão em pronação,[23] com semiflexão por sobre o antebraço, por sobre o braço; a falta de jeito com os movimentos do lado esquerdo), juntamente dos distúrbios dos reflexos (hiperreflexia[24] mais marcada do lado esquerdo), pôde fazer com que pensássemos, por um instante, numa síndrome piramidal subjacente a essa rigidez. Mas a análise dos sintomas, a predominância proximal[25] da contratura dos membros, a rigidez que efetivamente prejudica os movimentos voluntários, o desaparecimento notável dessas atitudes após injeção de 1/2 mg de escopolamina,[26] nos fazem descartar esse diagnóstico; e pensamos que se trata de um estado parkinsoniano puro que vimos se constituir, rapidamente, diante dos nossos olhos.

(421) iii) Evolução da síndrome demencial – Essa doente — que, desde a sua “escarlatina”, em 1917, havia sofrido um déficit intelectual notado pela família — apresentou, durante vários meses, por volta de 1924-25, distúrbios mentais de caráter confusional.

Aqui no serviço nós a consideramos, primeiramente, uma confusa — sem grande interesse exceto por sua síndrome neurológica. Mas instalou-se rapidamente uma síndrome demencial profunda.

Ela rapidamente se desinteressou pela sua situação, pelo seu entorno. Agora está mergulhada num mutismo quase contínuo, entrecortado apenas por alguns grunhidos.

Solicitada a responder, a interessar-se por aquilo que lhe dizem, sempre opõe uma inércia profunda. A sua inatividade é naturalmente completa.

Está totalmente desorientada.

Há, no estado de demência que ela apresenta, alguns traços (a indiferença, as impulsões motoras, as estereotipias verbais e do comportamento) que a aproximam dos estados hebefreno-catatônicos.[27] Há nela tamanho rebaixamento intelectual que não queremos insistir no diagnóstico diferencial; importa-nos somente observar que há um grande déficit demencial acompanhando o seu estado parkinsoniano.

***

II | H., 27 anos de idade, deu entrada no serviço em 22 de junho de 1930. Ela é renana, casada com um suboficial francês, M. D.

1 – ANTECEDENTES

Hereditários – Pai nervoso, alcoólico; mãe “colérica”; irmã com tendências melancólicas.

 Pessoais – Contraiu a gripe em 1918 (Schlafgrippe, dizem as atestações médicas),[28] quando estava com 16 anos de idade. Em 1920 conheceu o marido, com quem se casou e teve quatro filhos.

Início dos distúrbios mentais – Frígida por muitos anos, era muito meiga, muito dócil. Do final de 1920 em diante, ocupou-se da astrologia. Tentou, por meio dela, encontrar um de seus ex-namorados. A propósito de uma herança que ela deveria receber, efetivamente, consultou cartomantes e astrólogos no ano de 1927.

Foi em julho de 1928 que as ideias delirantes se desenvolveram. Todo o mundo a queria, dizia ela. O marido aponta que “ela tinha sonhos semiadormecida”.

Certo dia ela estava no Reno com uma canoa; teria manifestado, nessa ocasião, ideias de suicídio.

Ela foi internada em Maréville[29] em abril de 1929. A atestação menciona ideias de influência e de perseguição, sensações de estranhamento, a ilusão de sósia do marido.

(422) Durante a sua estada no manicômio, de abril de 1929 a maio de 1930, o diagnóstico de demência precoce se afirma: alternância de estado de confusão com agitação extrema e de estupor, risos e choros sem motivo.

Levada, em maio de 1930, para o Hospital Henri-Rousselle,[30] é lá que, pela primeira vez, o diagnóstico de hemiparkinsonismo[31] é estabelecido.

Observou-se, então, a rigidez facial, a abolição do balanço automático do braço direito e a possibilidade de relacionar essa sua síndrome de rigidez, nesse momento muito discreto, ao episódio encefalítico de 1918.

Do ponto de vista mental: alucinações cenestésicas; ideias alambicadas, incoerentes, de influência e de transformação corporal. Obnubilação. Inibição. Oposição em intervalos.

2 – OBSERVAÇÃO DO SERVIÇO

1) Apresentação; Conduta – Essa doente permanece acamada em sua unidade. Ela se compraz num estado de devaneio alucinatório contínuo.

Em alguns momentos, apresenta impulsões bruscas, acessos de cólera (bateu nas enfermeiras diversas vezes).

2) Delírio – “Aqui é uma clínica de rejuvenescimento; já faz três séculos que venho muito aqui. Cheguei com Joseph Holmes, um detetive parisiense que vem me ver de vez em quanto. Ele pula o muro. Em Maréville era um tratamento de envelhecimento. Mas a cada vez que me tiram um dente, fico mais jovem. Em Maréville tinha a Srta. X, a datilógrafa de Arsène Lupin;[32] ela pegou meu sobrenome. Era pra eu ter estudado na França, mas mandaram alguém no meu lugar. Eu sou uma aristocrata. Ó, olha a minha mão; dá pra ver escrito nas linhas: A. D. L. P. S. (sic). Por que se fala dos aristocratas do Dr. Lenlais, Guislain?[33] São encontros de família. Me parece ser o Sr. Lupin quem está tirando um pouco de sarro de nós. Tudo isso é real. Eu estava numa clínica de velhice. Mainz[34] ou Mayenne[35] — os países se parecem tanto. Tem muitas Anne Hergen em todos os países. Na Espanha, tem Gougenheim,[36] perto de Madrid. Perdi meus pais faz quatro séculos. Eu era morena no século anterior a este, mas em seguida tenho os cabelos loiros. Fui parar em Apen.[37] Eu tinha um roupão roxo; na segunda vez, vim parar aqui. Nunca me rejuvenesci abaixo dos quatro anos e dois meses. Morei aqui na casa ao lado, no 1º andar, em Gougenheim — sempre na França. Sou loira como Marthe Dutemple (sua filha). Me perguntaram se eu tinha filhos, pus quatro no mundo; durante o nascimento dos meninos, perdi bastante sangue. Mas sempre se diz que no papel tem filhos: zero.

É sempre esse dente infeliz que me arrancaram. Eles arrancam, daí me dão bilhetes. Só que eu ia pra escola e não prestava atenção, então joguei o bilhete fora.

(423) Na minha mão ainda tem escrito “Pulaz”, em africano. É que nem anicho.[38] Em todo país tem as mesmas pessoas. Eu as vejo com os olhos internos. Eu as vejo também de noite. São pessoas que vivem. Tem sempre alguma atrás de mim. Elas falam na parede. Essa parede é muito grande. Daí vão embora. Tem o Dr. Mestre, de Mainz. Vi com meus olhos tudo o que tem no meu corpo. É muito fácil; a gente vê tudo o que está dentro. Agora os senhores escutaram; ela acaba de dizer que eu tenho que me decidir. É hora de eu me casar… As enfermeiras fazem gestos engraçados. Elas vêm de noite se meter comigo. Maior sujeira…”

 Características do delírio – Justaposição sem encadeamento racional.

Grupos de lembranças organizadas ou de cenas imaginadas, frequentemente de tipo dramático: deram-lhe marretadas; ela caiu n’água; ela jogou o bilhete num riacho (cenas de caráter onírico).

Indiferença às categorias racionais (mudanças de identidade, de tempo, de espaço).

Características do pensamento – i) Alterações da realidade; Ilusões; Alucinações Ela vê caveiras em sua unidade (aponta com o dedo manchas na parede que têm, efetivamente, essa aparência).

Aconselhada a escutar, ela dá ouvidos. Essas vozes dizem sobre “ela olhar com os olhos internos”. Mosaico de lembranças, de leituras, de contrações imaginativas. “Tudo é real”, diz ela. “Tudo me aconteceu regularmente. Com os olhos internos se vê tudo. Quando leio o que penso, vejo as coisas reais”.

ii) Simbolismo. – Exemplos: “Morri em 1929” (data da sua internação). “No papel tem filhos: zero” (para indicar que ela já não tem filhos. Ela estabelecia uma analogia entre Mainz e Mayenne; declara que as paisagens são as mesmas nessas duas regiões.

3) Afetividade – i) Confiança; Expansão – “Tenho uma grande força. Tenho muita vida. Não posso morrer. É impossível. Me deram um tiro de revólver, não me causou nada. Se me cortassem o pescoço, ele tornaria a crescer”.

ii) Euforia; Bem-estar – Estou muito bem aqui. Eu me encontro muito bem”.

iii) Indiferença absoluta em relação aos filhos – No decorrer de seus dizeres delirantes, num primeiro momento lhe dissemos: “A senhora sabe que a sua filha, Marthe, está com uma doença muito grave?” Ela se detém, pasma, e diz: “É chato, nunca me dizem nada. Não estava sabendo disso”. Daí, após alguns segundos, ela retoma o curso de seus dizeres na mais perfeita calma. Em momento algum pede maiores esclarecimentos.

(424) Num segundo momento, dez minutos depois, lhe dissemos: “Ela não está só muito doente, mas morreu”. Ela se detém, fica pasma novamente com o fato de não lhe terem dito nada, e retoma, com tranquilidade, a sequência do que vinha dizendo.

4) Sexualidade – “Eu ficava morta na cama nas minhas relações, não dá nada. Só eu que posso conseguir”. Ela sofre ultrajes por parte das enfermeiras.

O marido, o verdadeiro, era velho demais. Trocaram-no depois.

Seu erotismo é evidente através das suas palavras e do seu comportamento.

5) Fundo mental – Nos diversos testes, a atividade delirante atrapalha bastante a avaliação.

i) Memória – Ela se queixa de ter distúrbios da memória. Diz não se lembrar das coisas. Contudo, o desempenho nos testes de fixação e de reconhecimento é satisfatório.

ii) Atenção. – Desempenho muito bom com os a barrados.[39]

iii) Operações intelectuais Na presença de perguntas difíceis ou de problemas que exigem um pouco de reflexão, ela raramente chega a uma resposta satisfatória. Discerne bastante bem as dificuldades, mas perde-se um pouco no estabelecimento do raciocínio.

É assim com: “É melhor para um estudante que o relógio da escola atrase ou adiante?” Ela não faz a distinção essencial entre a entrada e a saída: “Para sair, se estamos com pressa, é melhor que o tempo ande mais rápido, que o relógio ande mais rápido”. Mas a resposta não é dada com clareza. Ela se embaralha e não tem o empenho suficiente.

iv) Curso do pensamento – As frases são embaralhadas. As proposições não se encadeiam. Nota-se que ela passa repentinamente de um assunto a outro, faz derivações, “bloqueios” bruscos.

Ela se perde bruscamente no desdobrar de suas explicações: “Não sei mais onde estou”. A maior parte do tempo ela não se apercebe disso e desliza insensivelmente na direção de temas cada vez mais afastados.

Desse modo, ela quer fazer uma frase com estas duas palavras: susto e porta. Ela concebe a ideia de uma porta que, fechada violentamente, assusta; e ela diz: “Quando eu quis ir embora estava ventando; eu abri a porta, daí o vento me derrubou. Mas eu sou forte e não me machuquei etc.” Perde o fio da meada e não sabe mais o que estava querendo dizer.

Orientação – Bastante correta. Aprecia com justeza a duração de sua estada, bem como a data. Contudo, fala no passado como se ele tivesse durado “muito tempo” — o que ela expressa com “vários séculos de 30 anos cada”.

Existe nela, então, uma discordância no exercício das funções elementares. Observam-se distúrbios importantes no (425) transcorrer do pensamento (derivações, suspensões). A síntese mental, o esforço mental não são muito eficazes. Seu pensamento permanece, em geral, de caráter inferior: justaposição de lembranças, construções de caráter onírico, incapacidade da distinção essencial entre o real e o imaginário etc.

6) Síndrome parkinsoniana – Limitação da convergência dos globos.

Hipertonia marcada no lado direito, menos marcada no esquerdo (balanço automático do braço diminuído no lado direito).

Disdiadococinesia[40] por rigidez muscular, exagero dos reflexos de postura (fenômeno da roda dentada).

Sem sinais piramidais nem distúrbios tróficos.[41] Hemiface direita rígida e inerte.

Líquido cefalorraquidiano normal. Azotemia:[42] 0,20. Regras normais.[43]

4 outubro 1930 Impaludação (malária de cepa não sifilítica). Ela apresentou somente quatro acessos febris que dissiparam espontaneamente. Ideias delirantes ricas, movediças e incoerentes, sobretudo de tema megalomaníaco.

9 de outubro – Mais calma. Alucinações auditivas ativas em alemão.

15 de novembro Inoculação de duas gotas de veneno de naja[44]; reação local discreta sem fenômenos gerais. Estado mental sem modificação sensível.

Essa terapêutica foi repetida mais 6 vezes, sem resultado.

A doente foi transferida sem modificação de seu estado mental e de seu estado parkinsoniano em agosto de 1931.

As duas observações de nossas doentes convocam alguns comentários:

1) Natureza encefalítica do parkinsonismo – No caso de nossa doente H., a noção de uma encefalite é certa. Pudemos ver atestações médicas que mencionam uma Schlafgrippe em 1918. A doente teria ficado, naquele momento, em estado narcoléptico durante 9 dias.

Para a nossa doente B., ao contrário, a dúvida é permitida e fica ainda mais perturbadora pela afirmação do médico que dela cuidou e constatou uma “escarlatina”. Essa “escarlatina”, na sequência da qual se nota uma regressão mental considerável — e que provoca, sete anos depois, o surgimento de uma síndrome parkinsoniana —; essa “escarlatina” de 1917, num momento em que a doença de Cruchet e de Economo[45] não era conhecida, pode ser considerada suspeita, e talvez pudesse se tratar de uma forma eritematosa[46] da encefalite. Aqui só podemos discutir esse ponto, evidentemente, sem tentar elucidá-lo por completo.

(426) 2) Síndrome parkinsoniana – Nossas duas doentes são portadoras de uma síndrome parkinsoniana. Em ambas, foi no decorrer de distúrbios mentais que a síndrome instalou-se insidiosamente. A evolução mais notável é a da doente B., na qual nós assistimos, verdadeiramente, à progressão muito rápida dos sintomas em um ano, conduzindo-a agora a um estado de rigidez extrema. Ao expor a observação de B., levantamos a questão de saber se não havia nela, subjacente à sua síndrome parkinsoniana, uma síndrome piramidal, mas não pensamos que devemos no deter nisso.

Insistimos, a propósito da observação de B., num pequeno sintoma que só adquire especial valor por sua raridade: a protrusão espasmódica da língua, que é apontada apenas por alguns autores — e, em especial, por um de nós.[47]

3°) Características das síndromes demenciais – Nossas duas observações apresentam uma notável diferença: em uma, trata-se de um estado demencial simples que vai nos colocar diante da questão das formas hebefrênicas da encefalite; na outra, trata-se de um estado demencial e delirante que nos incita a dizer algumas palavras quanto as suas características paranoides.

Nossa primeira observação mostra, numa doente acometida por uma síndrome parkinsoniana progressiva, o desenvolvimento de um estado demencial. Trata-se justamente, aqui, de um estado demencial — e não, como na maioria dos casos, da síndrome de “bradifrenia”[48] que atrapalha, entrava o pensamento dos doentes sem alterá-lo profundamente. Aqui, os critérios gerais da demência: a inconsciência, a inadaptação ao meio, o rebaixamento das funções elementares (mnésicas, atencionais, reflexivas) são evidentes.

Já pontuamos alguns traços de comportamento, as iterações, as estereotipias, as impulsões, a indiferença que aproximam esse caso das síndromes hebefrênicas, e não queremos reabrir a discussão das relações da demência precoce com a encefalite. Vamos nos limitar a lembrar que, ao passo que, para Guiraud,[49] a analogia de mecanismo é completa, para Claude,[50] ao contrário, trata-se de síndromes que, em seu aspecto catatônico, são bem diferentes. Entre as mais recentes, lembremos a observação de Marchand,[51] em 1929.[52]

Nossa segunda observação aproxima-se de casos como aqueles publicados por Heuyer[53] e Le Guillant,[54] Courtois[55] e Trelles,[56] Baruk[57] e (427) Meignant[58] (para citar apenas alguns observadores), em que se tratava de síndromes alucinatórias complexas.

Nossa doente — foi o que tentamos mostrar no decorrer da exposição de sua observação — apresenta um vasto, rico e absurdo delírio paranoide, e nela se encontra uma alteração do fundo mental, característica da deslocação[59] esquizofrênica, tal como magistralmente descrita por Bleuler.[60] O diagnóstico de demência paranoide nos parece, nesse caso, totalmente fundamentado. Assinalemos, de passagem, não se tratar, em todos os casos, daquelas síndromes alucinatórias das quais o sujeito reconheceria o caráter patológico, teria uma vaga consciência: não há alucinose,[61] mas as mais autênticas alucinações integradas numa atmosfera delirante paranoide à qual as rajadas oniroides ou oníricas do início — e, talvez, no decorrer da doença — não podem ser estranhas.

Terminando, para frisar o interesse dos casos que acabamos de apresentar aos senhores, nós insistimos no fato de que, ao passo que, via de regra — como muito recentemente vinha insistindo Heuyer[62] —, a encefalite produz quase que exclusivamente distúrbios motores, do humor ou do caráter, ela impõe ao comportamento e ao pensamento do sujeito uma determinada descontinuidade e certo desconforto; ela age — conforme a imagem habitual — liberando automatismos instintivos e motores, forçando constantemente a consciência do sujeito em fenômenos como a alucinose, a obsessão, a impulsão, as expressões emotivas incoercíveis etc. Nos nossos casos, trata-se, antes de mais nada, de síndromes psíquicas que alteram a esfera intelectual com um mínimo de distúrbios instintivos e afetivos.

Sr. Georges PETIT[63] – As duas síndromes psicopáticas, cuja tão interessante observação acaba de ser relatada pelos Srs. Ey e Lacan, parecem se depreender, tanto uma quanto outra, da evolução de uma encefalite, do tipo encefalite epidêmica crônica.

Durante as grandes epidemias de 1918, 1919, 1920 e 1921, pudemos observar os episódios iniciais mais polimorfos dessa afecção. Em particular — como na primeira observação dos apresentadores —, de síndromes febris, com angina e erupção de tipo escarlatiniforme, que puderam impor, por vezes, o diagnóstico de escarlatina.[64]

Por outro lado, parece-nos contrário à observação clínica pretender que a encefalite epidêmica seja julgada pelas síndromes (428) psicopáticas particulares e características dessa afecção. Na realidade — e como viemos relatando em diversos exemplos, desde 1920 — a encefalite epidêmica pode produzir todos os sintomas e todas as síndromes da psiquiatria, seja a título de síndromes episódicas, com ou sem realizações consecutivas; seja de uma forma contínua, dando assim todos os quadros clínicos da nosologia psiquiátrica, tanto em suas formas mais clássicas quanto em suas manifestações mais polimorfas.

A sessão encerrou ao meio-dia.

Os Secretários de Sessão,
Courbon[65] e Demay.[66]


[1]  “O estado confusional é caracterizado por obnubilação da consciência (diminuição do grau da clareza de consciência, prejuízo da concentração, lentidão da compreensão, dificuldade de percepção e elaboração das impressões sensoriais), desorientação temporal e espacial, delírio onírico (assemelha-se ao sonho: vivo, dramático, alucinações visuais de conteúdo, muitas vezes, aterrorizantes) e prejuízo da memória, geralmente com amnésia lacunar posterior à remissão desse estado psíquico-patológico”. Cf. J. C. do Nascimento Pitta, “Diagnóstico e conduta dos estados confusionais”, Psiquiatria na prática médica, vol. 34, n. 4, 2001/2002. Disponível em: <www2.unifesp.br/dpsiq/polbr/ppm/atu2_07.htm>. (N. do T.)
[2] Cidade situada ao norte da França, no departamento de Pas-de-Calais. (N. do T.)
[3] Sintoma neurológico extrapiramidal devido à hipertonia muscular e a consequente limitação dos movimentos passivos dos segmentos dos membros. Ocorre uma resistência que cede aos poucos, como que em pequenos trancos, o que remete aos movimentos de uma roda dentada. Trata-se de um sinal semiológico observado na doença de Parkinson. (N. do T.)
[4] O sistema piramidal é responsável pela execução dos movimentos voluntários, realizados através dos músculos estriados. Cf. H. S. Ivamoto, “Sistema piramidal”, Revista Acta Medica Misericordiæ. Disponível em: <www.actamedica.org.br/publico/noticia.php?codigo=314&cod_menu=314>. (N. do T.)
[5] Sequência de contrações e relaxamentos musculares rápidos e involuntários que pode ocorrer de modo normal e breve em virtude do estiramento de um músculo, ou de modo patológico e ininterrupto. (N. do T.)
[6] Ossos situados na parte anterior dos joelhos. Na nomenclatura atual: “patelas”. (N. do T.)
[7] Também chamado de “reflexo plantar”, o sinal de Babinski — que recebe o nome do neurologista francês que o descobriu, Joseph Babinski [1857-1932] — consiste na extensão do hálux e na abertura em leque dos dedos em decorrência de um estímulo na planta do pé. (N. do T.)
[8] O Teste de Pandy é uma prova semiquantitativa onde o fenol reage principalmente com as globulinas. Em infecções crônicas, como sífilis terciária, e na esclerose múltipla a elevação de globulinas torna o teste de Pandy positivo. (N. de T.)
[9] Levando os nomes de Jules Bordet [1870-1961] — Nobel de fisiologia e medicina em 1919, por sua descoberta do bacilo da coqueluche — e August Paul von Wassermann [1866-1925] — um bacteriologista alemão —, a reação Bordet-Wasserman trata-se de uma reação de hemólise (dissolução dos glóbulos vermelhos) que foi desenvolvida por Wassermann em 1906, não sem reconhecer a importância de achados anteriores realizados por outros cientistas, dentre eles Jules Bordet. Consistia essencialmente em pôr frente a frente o antígeno, um complemento e o soro suspeito de conter o anticorpo sifilítico, permitindo detectar precocemente um anticorpo não específico contra a sífilis (a anticardiolipina), garantindo a intervenção medicamentosa precoce. Cf. E. Gonçalvez (1926) Sobre a sero-reacção de Bordet-Wasserman. Porto: Enciclopédia portuguesa. Disponível em:  <repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/17673/2/221_2_FMP_TD_I_01_C.pdf>. (N. de T.)
[10] A Reação do Benjoim Coloidal é uma reação de floculação de uma suspensão coloidal de benjoim pelo líquido cefalorraquidiano (L.C.R.) utilizada como meio de diagnóstico tanto da sífilis quanto das meningites. Ela é realizada em 15 (ou 16) tubos nos quais se faz a diluição sucessiva do L.C.R., e a cada tubo adiciona-se a mesma quantidade de coloide de benjoim, observando-se, depois, a ocorrência ou não de floculação nos tubos. O tubo que não apresentar floculação receberá o valor 0; o tubo com floculação total, o valor 2;  o que for parcial, o valor 1. Dito isso, o resultado será dado por uma sequência de 15 algarismos (ou uma vírgula e mais um), contados da direita para a esquerda. (N. de T.)
[11] A convergência ocular é a função pela qual os dois músculos retos mediais — músculos extraoculares responsáveis pela adução do bulbo ocular — se contraem, ajustando o direcionamento dos eixos visuais a um objeto próximo. (N. do T.)
[12] Oscilação reflexa nos olhos causada por rotação da cabeça ou por estimulação térmica do ouvido interno. (N. de T.)
[13] Diminuição, mais ou menos acentuada, da permeabilidade mental e da consciência. (N. do T.)
[14] Lentificação dos movimentos voluntários. Embora presente em várias condições médicas que afetam o sistema nervoso central, é associada sobretudo ao Parkinson. (N. do T.)
[15] Tipo de transtorno da velocidade do pensamento, promovendo a lentidão dos processos psíquicos e intelectuais. (N. do T.)
[16] Sal sódico do ácido salicílico com propriedades analgésicas, antitérmicas e antirreumáticas. (N. do T.)
[17] Incontinência de urina ou de fezes. (N. do T.)
[18] Trata-se da mímica facial. Os músculos delgados responsáveis pelas expressões faciais são chamados, justamente, de músculos da mímica facial. (N. do T.)
[19] O termo “pulsão” [pulsion] refere-se aqui à perturbação do equilíbrio, frequente na doença de Parkinson — em que há tendência para cair para a frente (anteropulsão), para o lado (lateropulsão) ou para trás (retropulsão). (N. do T.)
[20] Formado pelo tálamo, pelo cerebelo e pelos gânglios da base, o sistema extrapiramidal está envolvido em vários processos, inclusive a modulação do controle motor. Cf. C. O. Godeiro Júnior; A. C. Felício, G. F. do Prado (2006) “Sistema extrapiramidal: anatomia e síndromes clínicas”, Revista Neurociências, vol. 14, n. 1. Disponível em: < <periodicos.unifesp.br/index.php/neurociencias/article/view/8787>. (N. do T.)
[21] Relativo à paralisia total ou parcial da metade lateral do corpo. (N. do T.)
[22] Marcha particular a certos doentes portadores de paralisia dos flexores do pé e dos extensores dos artelhos. (N. do T.)
[23] Inclinação para diante, com a face anterior para baixo. (N. do T.)
[24] Condição neurológica caracterizada por atividade aumentada dos reflexos. (N. do T.)
[25] Mais próximo do tronco (no caso dos membros) ou do ponto de origem (no caso de vasos e nervos). (N. do T.)
[26] Fármaco utilizado como antiespasmódico, atua impedindo a passagem de determinados impulsos nervosos para o sistema nervoso central pela inibição da ação do neurotransmissor acetilcolina — molécula que atua na passagem do impulso nervoso dos neurônios para as células musculares. (N. do T.)
[27] Emil Kraepelin [1856-1926] havia reunido num mesmo grupo, sob a designação de “demência precoce”, a hebefrenia de Ewald Hecker [1843-1909], a catatonia de Karl Kahlbaum [1828-1899] e as formas paranoides — além de outros estados clínicos, como a demência precoce de Bénédict Morel [1809-1873]. Cf. M. de Campos (1929) “O grupo das esquizofrenias ou demência precoce. Relatório apresentado ao III Congresso Brasileiro de Neurologia, Psiquiátrica e Medicina Legal. Rio de Janeiro. Julho de 1929”, História, Ciências, Saúde-Manguinhos, Rio de Janeiro, vol. 17, supl. 2, pp. 709-732. Disponível em: <dx.doi.org/10.1590/S0104-59702010000600030>. (N. do T.)
[28] Do alemão, Schlafgrippe: “gripe do sono” — termo utilizado para descrever a encefalite letárgica. Cf. nota X (N. do T.)
[29] Construído no começo do século XVII, o Manicômio de Maréville — situado em Laxou, no departamento de Meurthe — foi, por muito tempo, o único estabelecimento do Leste francês destinado a receber alienados. Hospital Departemental de Alienados, em 1838, torna-se Centro Psicoterápico em 1949 e, em 1970, um estabelecimento público de saúde. O famigerado Bénédict Morel [1809-1873] foi seu diretor entre os anos 1848 e 1856. (N. do T.)
[30] O Hospital Henri-Rousselle — nascido do Centro de Psiquiatria e Profilaxia Mental, idealizado por Édouard Toulouse [1865-1947] e Georges Heuyer [1884-1977] — faz parte, hoje, do complexo hospitalar Sainte-Anne, após ter perdido sua autonomia em 1941. (N. do T.)
[31] Síndrome de Parkinson apenas em uma das metades do corpo. (N. do T.)
[32] Criado por Maurice Leblanc [1864-1941] no começo do século XX, Arsène Lupin se tornaria um dos personagens mais populares da literatura em língua francesa. Um contraponto ao Sherlock Holmes de Conan Doyle [1859-1930], Lupin assumia diversos papéis, inclusive os mais controversos — como o de ladrão, por exemplo. Capaz dos crimes mais impressionantes e fazendo justiça a qualquer preço, jamais se beneficiava pessoalmente das contravenções que cometia. (N. do T.)
[33] Considerando a origem da paciente (Renânia), talvez se trate do médico belga Josepeh Guislain [1797-1860], pioneiro no campo da psiquiatria. (N. do T.)
[34] Cidade situada na Renânia e atual capital do estado federal de Renânia-Palatinado, na Alemanha. Em francês: Mayence. (N. do T.)
[35] Departamento francês localizado na região País do Loire. (N. do T.)
[36] Comuna francesa situada na região administrativa do Grande Leste, no departamento do Baixo Reno. (N. do T.)
[37] Município da Alemanha localizado no distrito de Ammerland, no estado da Baixa Saxônia. (N. do T.)
[38] Talvez Anicho, nome que deriva do alemão antigo e significa “ancestral”. (N. do T.)
[39] Os testes de atenção dessa natureza, ditos “testes de barragem”) — que consistem em discernir rapidamente e a riscar/barrar alguns elementos (formas geométricas, letras, números, sinais) em meio a outros que possam com eles se confundir —, remontam aos trabalhos do pioneiro francês da psicologia experimental, Benjamin Bourdon [1860-1943]. O intuito é mensurar a capacidade que o sujeito tem de sustentar, por um tempo relativamente longo, o seu nível de atenção. (N. do T.)
[40] Dificuldade em realizar movimentos rápidos em sequência. (N. do T.)
[41] Problemas ligados a uma má nutrição dos órgãos em razão de má vascularização ou mau controle controle neurológico dessa nutrição. (N. do T.)
[42] Trata-se do aumento de concentração — no sangue, no plasma ou no soro — de compostos nitrogenados como ureia e creatinina. (N. de T.)
[43] Menstruação regulada. (N. do T.)
[44] Sobre o papel dos venenos animais na pesquisa biológica, em geral, cf. J.-P. Chippaux (2004) “Venins animaux dans la recherche biologique”, Ethnologie française, vol. 34, n. 3, pp. 419-426. Disponível em: <www.cairn.info/revue-ethnologie-francaise-2004-3-page-419.htm#>. (N. do T.)
[45] Conhecida popularmente como “a doença do sono”, seu nome se deve ao neurologista romeno Constantin von Economo [1876-1876], responsável por sua descrição em 1917. Em 1915-16, no entanto, o patologista francês Jean-René Cruchet [1875-1959] havia feito um relatório a respeito da doença, apontando para o acometimento de membros de tropas francesas — o que fez com que a enfermidade fosse conhecida, igualmente, como “doença de Cruchet”. Também chamada de encefalite letárgica — ou, ainda, encefalite epidêmica —, trata-se justamente da Schlafgrippe mencionada pelos autores anteriormente neste texto. Responsável por uma epidemia que ocorreu na Europa entre 1916 e 1930, estima-se que a doença — que causa um dano ao tecido cerebral semelhante ao da doença de Parkinson — tenha afetado, no mínimo, meio milhão de pessoas. Cf. P. Blum (1920) “L’encéphalite létargique”, Paris médical: la semaine du clinicien, vol. 35, n. 12, 20 de março de 1920, pp. 237-246. Disponível em: <www.biusante.parisdescartes.fr/histoire/medica/resultats/?cote=111502x1920x35&p=283&do=page>. Cf. também: H. Moawad (2018) “Encephalitis lethargica: the still unexplained sleeping sickness”, Neurology Times, 12 de fevereiro de 2018. Disponível em: <www.neurologytimes.com/blogs/encephalitis-lethargica-still-unexplained-sleeping-sickness>. (N. do T.)
[46] Relativo a eritema: vermelhidão da pele. (N. do T.)
[47] J. Lacan, Sociedade de Psiquiatria, novembro de 1930. [Trata-se de “Crises tônicas, combinadas com protrusão da língua e trismo produzindo-se durante o sono, em uma parkinsoniana pós-encefalítica. Consecutiva amputação da língua”, Escritos avulsos. Trad. P. S. de Souza Jr. Disponível em: <escritosavulsos.com/1930/11/20/crises-tonicas-amputacao-lingua> (N. do T.)].
[48] Lentificação mental. O mesmo que “bradipsiquia”. (N. do T.)
[49] Paul Guiraud [1882-1974] foi um alienista francês que, em coautoria com Maurice Dide [1873-1944], escreveu o manual de referência de clínica psiquiátrica que ficou em vigor até os anos 1950. Foi médico chefe em Ville-Évrard, Villejuif e Sainte Anne. O hospital psiquiátrico de Villejuif receberá seu nome, em homenagem: primeiramente Centro Hospitalar Paul Guiraud; depois, Paul Guiraud Villejuif; e, mais recentemente, Grupo Hospitalar Paul Guiraud. (N. do T.)
[50] Henri Claude [1869-1945], com seu entendimento dinâmico e psicobiológico, ocupou a cadeira de clínica de enfermidades mentais entre os anos de 1922 e 1939 no Hospital Sainte-Anne. Aberto à psicanálise, teve entre seus assistentes René Laforgue [1894-1962], Adrien Borel [1886-1966], Michel Cénac [1891-1965], Rudolph Loewenstein [1898-1976], Sacha Nacht [1900-1977], Jacques Lacan [1901-1981] e Raymond de Saussure [1894-1971]. Entre 1927 e 1931, foi o primeiro professor de psiquiatria de Lacan no referido hospital. A Revue Française de Psychanalyse foi lançada, em 1927, sob os seus auspícios, marcando a estreiteza do laço que os primeiros psicanalistas almejavam conservar com a psiquiatria. Cf. J. Sédat (2004)” Lacan et la psychiatrie. Lacan et les psychiatres”. Topique, 2004/3, n. 88; pp. 37-46. Disponível em: <www.cairn.info/revue-topique-2004-3-page-37.htm>. (N. de T.)
[51] Iniciando o externato em Paris no ano de 1895, Ludovic Marchand [1873-1976] exerceu a neuropsiquiatria em Blois, Charenton, Villejuif e Sainte-Anne. Quando atuava no Lar Nacional de Charenton (antiga denominação do Hospital Esquirol), trabalhando ali para a inauguração de uma escola, elaborou, em colaboração com Roger Mignot [1874-1947] — médico-chefe da instituição —, uma obra que seria reeditada diversas vezes ao longo do século XX: Manuel technique de l’infirmier des établissements d’aliénés [Manual técnico do enfermeiro dos estabelecimentos de alienados] (Paris: Doin, 1912). Foi professor de Adolphe Courtois [1903-1935] no Hospital Henri-Rousselle, do qual foi um dos fundadores, conduzindo o laboratório de anatomia patológica por ele criado em 1923. Ali desenvolveu suas pesquisas em anatomobiologia das doenças cerebrais, em epilepsia e em patologia comparada das doenças nervosas, humanas e animais. Quando foi médico-chefe em Villejuif, ocupou também a vice-presidência da Sociedade Clínica de Medicina Mental — sediada no complexo hospitalar Sainte-Anne —, de cujo periódico (Bulletin de la société clinique de médecine mentale) era redator-chefe. Presidiu a Sociedade Médico-Psicológica em 1932 e atuou em Sainte-Anne até o ano de 1959. (N. do T.)
[52] Cf. L. Marchand; A. Courtois; J. Lacan (1929) “Síndrome epileptoparkinsoniana encefalítica”. In: J. Lacan, Escritos avulsos. Trad. P. S. de Souza Jr. Disponível em: <escritosavulsos.com/1929/06/17/sindrome-epileptoparkinsoniana/>. (N. do T.)
[53] Médico e professor da Faculdade de Medicina de Paris, Georges Heuyer [1884-1977] foi membro da Academia Nacional de Medicina. É considerado o fundador, na França, da pedopsiquiatria — especialidade que praticou por mais de 50 anos, em diversas instituições parisienses, especialmente na Salpêtrière. Tendo iniciado seus externato e internato em 1906, defenderia sua tese de doutorado em medicina no ano de 1914, sob a orientação de Ernest Dupré [1862-1921], que havia sido aluno de Jean Martin Charcot [1825-1893]. Entrando para o exército em 1904, trabalhou como médico militar durante 15 anos. Foi nomeado chefe clínico ajunto de doenças mentais na Faculdade, em 1919, passando a titular em 1921 (cargo que abandonará no ano seguinte). Em paralelo, atua como médico da Enfermaria Especial de Alienados do Comando de Polícia e como médico-inspetor escolar. Em 1922, em colaboração com Édouard Toulouse [1865-1947], idealiza a criação de um serviço livre de higiene mental, futuro Hospital Henri Rousselle (parte do complexo hospitalar Sainte-Anne desde 1941). Em 1923, torna-se médico hospitalar e cria, dois anos depois, um ambulatório que se tornará um serviço de atendimento psiquiátrico infantojuvenil, comportando a sede da Clínica Anexa de Neuropsiquiatria Infantil, também por ele criada. Em 1937, em Paris, organizará aquele que será o 1º Congresso Internacional de Psiquiatria Infantil. (N. do T.)
[54] O psiquiatra francês Louis Le Guillant (1900-1968) é considerado um dos principais líderes de um grupo de fundadores da Psicopatologia do Trabalho (e da Psicoterapia Institucional) na França, tendo sido de grande importância para a reforma psiquiátrica. Cf. P. C. Zambroni-de-Souza et al. (2009) “O pioneirismo de Louis Le Guillant na reforma psiquiátrica e psicoterapia institucional na França: a importância do trabalho dos pacientes para a abertura dos hospícios”, Estudos e Pesquisas em Psicologia, vol. 9, n. 3. Rio de Janeiro, dezembro de 2009. (N. do T.)
[55] Aluno de Ludovic Marchand [1873-1976], Adolphe Courtois [1903-1935] era cunhado de Édouard Toulouse [1865-1947], com quem colaborou no Hospital Henri-Rousselle, no complexo hospitalar Sainte-Anne. Fez seu externato em 1923 e seu internato manicomial em 1927; foi médico-assistente e, a partir de 1931, titular manicomial. Em sua curta carreira, empreendeu diversas investigações biológicas e anatomopatológicas, abordando temas nos quais neurologia e psiquiatria encontravam-se intimamente relacionadas. Defendeu seu doutorado na Faculdade de Medicina de Paris, com uma tese intitulada Sur un syndrome comitio-parkinsonien: étude anatomo-clinique [Sobre uma síndrome epileptoparkinsoniana: estudo anatomoclínico] (Paris: Libr. Le François, 1928), diante de uma banca presidida pelo emérito Georges Guillain [1876-1961], o qual — na companhia de dois outros colegas — havia descrito a doença que também levaria seu nome: a Síndrome de Guillain-Barré (em que o sistema imunológico ataca os nervos do enfermo). Em 1925, havia sido um dos fundadores da revista L’Évolution psychiatrique, tendo como intuito conjugar psiquiatria e psicanálise. Seus caminhos e os de Jacques Lacan [1901-1981] cruzaram-se em diversas ocasiões. (N. do T.)
[56] Eleito correspondente estrangeiro da Academia Nacional de Medicina da França em 1964, Julio Oscar Trelles Montes [1904-1990] foi um neuropsiquiatra peruano, considerado o responsável pela fundação da psiquiatria em seu país. Comandante da Legião de Honra, foi também político (ministro, senador) e diplomata. Estudando em Cusco e Paris, Trelles foi colega de internato de Henry Ey [1900-1977] e trabalhou na fundação da Fundação Dejerine em Paris, com Jean Lhermitte [1877-1959]. Graduado pelo Instituto de Medicina Legal e Psiquiatria de Paris, obtém o título de doutor em 1935, sob orientação de Henri Claude [1869-1945], na Faculdade de Medicina de Paris. Foi professor de clínica neurológica na Universidade de Lima e fundador da Revista de neuro-psiquiatria. (N. do T.)
[57] Henri Baruk [1897-1999] foi um psiquiatra francês. Ele viria a ser professor universitário e membro da Academia de Medicina. Aluno de Joseph Babinski [1857-1932] e Achille Souques [1860-1944], em 1921 esteve no internato  em Sainte-Anne, no serviço de Henri Claude [1869-1945]. Teve Henri Ellenberger [1905-1993] entre seus alunos. Baruk, juntamente com Moïse Weisengrun, seria responsável pela tradução (hebraico-francês) do estudo crítico intitulado L’homme Moïse: Freud et le monothéisme hebreu [O homem Moisés: Freud e o monoteísmo hebreu], da autoria de Israel Doryon [1908-1992] — tradução que também contaria com um extenso prefácio escrito pelo psiquiatra. (N. de T.)
[58] Aluno de Henri Claude [1869-1945] e Georges Heuyer [1884-1977], Meignant defenderia seu doutorado com uma tese — desenvolvida no serviço e no laboratório conduzidos por Clovis Vincent [1879-1947] — intitulada Le réflexe de flexion dorsale directe du pied [O reflexo de flexão dorsal direta do pé] (Paris: Clerc, 1927). Na Escola Normal Superior, colaborou ao longo de 7 anos (até 1930) com o pediatra e professor Pierre Nobécourt [1871-1943], e se tornaria um dos grandes nomes da neuropsiquiatria infantil do pós-guerra. (N. do T.)
[59] Em 1925 Henri Ey [1900-1977] havia utilizado a palavra francesa dislocation para traduzir Spaltung — termo alemão utilizado por Eugen Bleuler [1857-1939] em seu Dementia praecox oder gruppe der Schizophrenien [Dementia praecox ou o grupo das esquizofrenias] —, considerando-a um equivalente de dissociation [dissociação]. (N. do T.)
[60] Paul Eugen Bleuler [1857-1939] foi um psiquiatra suíço que contribuiu enormemente para o campo da pesquisa sobre as psicoses, fundando a visão científica contemporânea a respeito das esquizofrenias. Cf. M. E. Costa Pereira (2000) “Bleuler e a invenção da esquizofrenia”, Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, vol. 3, n. 1. São Paulo, pp. 158-163. Disponível em: <dx.doi.org/10.1590/1415-47142000001011>. (N. do T.)
[61] Percepção de uma imagem patológica com todas as características de uma imagem alucinatória; porém, com menor convicção de realidade ou menor participação do eu — a experiência perceptiva é notada como algo estranho, como um acontecimento patológico. (N. do T.)
[62] La Semaine des hôpitaux de Paris, junho de 1931.
[63] Georges Petit [1883-?] fez seu internato no manicômio de Blois e trabalhou no manicômio de Bourges e era, à época, diretor do Hospital Ville-Évrard. Colaborou, dentre outros, com Ludovic Marchand [1873-1976] e Sacha Nacht [1900-1977]. (N. do T.)
[64] Doença infectocontagiosa provocada por um tipo de estreptococo hemolítico (Streptococus scarlatinae) e caracterizada por febre alta, erupção escarlate e descamação da pele. (N. do T.)
[65] Paul Courbon [1879-1958] (N. do T.), psiquiatra francês, formou-se em medicina na cidade de Lyon e trabalhou no manicômio de Amiens. É coautor, com Gabriel Fail [?-?], do trabalho que descreve a chamada síndrome de Fregoli: uma ilusão que consiste em acreditar que vários indivíduos, que não parecem uns com os outros, são a encarnação de uma pessoa só, que se disfarça ou muda de aparência. Cf. P. Courbon; G. Fail (1927) “Syndrome d’illusion de Frégoli et schizophrénie” [Síndrome de ilusão de Fregoli e esquizofrenia], Bulletin de la Société Clinique de Médecine Mentale, vol. 20, pp. 121-125. (N. do T.)
[66] Georges Demay foi médico-chefe do hospital psiquiátrico de Maison Blanche (Neuilly-sur-Marne), entre 1929 e 1953, e membro do Conselho Superior da Assistência Pública (1935-1939), bem como do Comitê de Assistência da França — que substituiu o primeiro a partir de 1940. (N. do T.)