08.10.1933 | Sobre o problema das alucinações

[ Sur le problème des hallucinations ]

Memória de reunião redigida por Jacques Lacan [1901-1981] quando da 84ª Assembleia da Sociedade Suíça de Psiquiatria, realizada na comuna de Prangins, nos dias 7 e 8 de outubro de 1933. Nela estiveram presentes Hans Wolfgang Maier [1882-1945], Henri Ey [1900-1977] e Henri Flournoy [1886-1955], que ficaram a cargo da apresentação de relatórios; e Jean Jacques Lhermitte [1877-1959], Ludo van Bogaërt [1897-1989], Georges de Morsier [1894-1982], Medard Boss [1903-1990], Ferdinand Morel [1888-1957], C.-G. Tauber [?-?], Jakob Wyrsch [1892-1980], A. J. Kiewiet de Jonge [?-?] e Charles de Montet [1881-1951], que apresentaram suas respectivas comunicações.

L’Encéphale, 1933, vol. 28, n. 9, pp. 686-695.

L

imitamos essa memória às duas sessões de trabalhos científicos consagrados ao problema da alucinação, que está na ordem do dia. Três relatórios. Uma discussão. Comunicações.

Cumpre assinalar as notáveis indicações do (687) discurso de abertura do doutor R. de Saussure,[1] presidente do Congresso, que, lembrando muito afortunadamente a filiação intelectual de Pinel[2] ao botânico Boissier-Sauvage,[3] opõe o “espírito de naturalista” (que anima a psiquiatria francesa) ao espírito de especulação sobre a essência (que marca a tradição alemã desde as suas origens stahlianas[4]); isso para almejar que o estudo dos nossos problemas seja abordado num espírito de síntese.

O relatório do professor H. Maier,[5] de Zurique, nos oferece, antes de mais nada, uma revisão geral das diversas teorias antigas e modernas da alucinação. Insistindo na crítica clínica dos fatos — tal como ela se consumou, para a escola alemã, na separação, retomada por Jaspers,[6] entre as alucinações verdadeiras e as pseudoalucinações —, ele cita, de passagem, as teorias mecânicas da alucinação. Projeção de uma atividade cortical automática, como com Tamburini[7] e Tanzi,[8] elas tiveram o seu papel na interpretação mesma dos fenômenos. É por rejeitarem, em seu conjunto, as concepções antigas que, para ele, elas pecam pelo próprio ponto de vista que as fundamenta. Com efeito, as distinções — produzidas como essenciais ao problema — entre sensação, percepção e representação têm, a seu ver, apenas um valor didático, mas são sem valor clínico, na mesma medida que os critérios de “materialidade”, “realidade” e “intensidade” revelaram-se insuficientes para definir as percepções mórbidas.

Doravante é preciso estudar a alucinação não como um fenômeno isolado ou como uma entidade psicológica, mas em suas relações com a personalidade total e as alterações desta. Esse ponto de vista encontra-se em concordância com Goldstein,[9] Monakow[10] e Mourgue,[11] e as tendências mais jovens da psiquiatria francesa. É nele que o professor Maier fundamenta a sua divisão genética das alucinações, que ele reparte da seguinte maneira:

1° As alucinaçõescatatímicas” ou psicógenas (o termo “catatimia”, criado pelo autor, designa a formação de complexos associativos sob a influência de fatores afetivos). Essas alucinações são psicógenas não somente quanto ao conteúdo, mas também quanto à origem, na medida em que o enfraquecimento de consciência que as condiciona depende de causas psíquicas. Alucinações como essa são encontradas em estados oníricos e hipnóticos, em delírios psiconeuróticos, nas alucinações teleológicas pré-suicidárias, frequentemente salvadoras.

2° As alucinações simultaneamente catatímicas e orgânicas. Elas são psicógenas quanto ao conteúdo, mas, quanto à origem, dependem de um enfraquecimento da consciência específico desse processo patológico do sistema nervoso, esquizofrenia, epilepsia, melancolia.

3° As alucinações de oriem tóxica. Seu conteúdo é simples, geralmente independente dos fatores catatímicos e condicionado pelo estado do sistema nervoso. Sua origem é o enfraquecimento de consciência próprio das intoxicações exógenas (álcool, cocaína, mescalina) ou endógenas (delírios agudos, urêmicos[12] etc.). Os conteúdos catatímicos (688) observados em certas embrieguezes alcoólicas, por exemplo, estão ligados a disposições esquizofrênicas anteriores.

4° As alucinações de origem orgânica pura. Estas dependem dos enfraquecimentos profundos da consciência que se observam nas lesões anatômicas corticais ou subcorticais da paralisia geral, da encefalite, da senilidade ou dos traumatismos cranianos.

O relatório[13] de nosso colega e amigo H. Ey[14] resume a posição geral do problema das alucinações, tal como ela se isola dos diferentes estudos de crítica teórica e de análise clínica, fragmentadas à medida da complexidade dos fatos, que foram o fruto de sua colaboração com o professor Claude[15]. Uma harmonia impressionante aparece ali entre as suas premissas — que são, como se sabe, de análise psicológica (ou, melhor dizendo, gnoseológica) do fenômeno da alucinação — e as conclusões — que são todas clínicas e permitem não somente um agrupamento de doentes mais conforme aos fatos, mas, contrariamente a uma ilusão simplista, uma apreciação mais justa e mais vasta dos fatores orgânicos em causa.

Com efeito, é na consideração das relações entre a imagem, a sensação e a alucinação que o relator fundamenta a sua crítica experimental das relações entre o valor de sensorialidade e o valor de realidade dos fenômenos alucinatórios. Sabe-se que é numa confusão entre esses dois últimos termos que repousa essa teoria da alucinação, a qual, em se pretendendo a teoria organicista por excelência, só tem direito, na verdade, ao título de teoria mecânica da alucinação. A sua impotência é aqui demonstrada, como de toda teoria em que a alucinação é considerada, abstratamente, como um fenômeno elementar: a alucinação é, com efeito, essencialmente uma crença no objeto sem objeto, fundamentada numa percepção (a alucinação verdadeira) ou sem percepção  (as pseudoalucinações, os sentimentos xenopáticos[16] etc.). Impossível, pois, sem integrá-la ao estado mental do qual ela procede, explicar a crença delirante, não mais que o sentimento xenopático ou o assentimento convicional, nem os graus da integração subjetiva ou da projeção espacial, todas elas qualidades que se revelam infinitamente variáveis e não correlativas, por pouco que se abstenha de atribuir valor de objeto a tais declarações do doente sistematicamente escolhidas, e de ignorar as suas variações, os seus postulados implícitos, o seu valor metafórico e as dificuldades próprias à sua expressão.

Apenas uma análise como essa permite conferir o verdadeiro lugar às alucinações e às pseudoalucinações nos estados oníricos e nos estados psicolépticos[17] (verdadeiros tipos do estado alucinatório), e nos delírios de influência, nos estados oniroides de ação externa, nas síndromes de ação externa, do tipo Claude[18] (tipos des estados pseudoalucinatórios).

Oporemos às alucinações assim definidas as alucinoses,[19] como (689) sintomas sensoriais isolados, tendo frequentemente um caráter perceptivo, mas sem crença na realidade do objeto, sem delírio.

Ora, a alucinose manifesta-se na clínica como tendo uma relação sintomática direta com uma lesão neurológica, a não ser pelo mecanismo cada vez mais problemático da excitação do centro, ao menos pelo da desintegração funcional.

As alucinações e as pseudoalucinações, ao contrário, fenômenos do conhecimento, manifestam em relação a seus fatores orgânicos essa discrepância organopsíquica que constitui a originalidade da psiquiatria. Mas sem a medida dessa discrepância — que é, para cada fenômeno, o objeto próprio da ciência psiquiátrica —, impossível apreciar o seu justo valor, isto é, sem confundir as condições dos estados alucinatórios, pseudoalucinatórios e das alucinoses. O relator é, assim, levado — pelas próprias consequências de sua investigação, e não por limitação em seu alcance — a admitir dois tipos de quedas de nível psíquico, causas dos distúrbios alucinatórios:

1° As quedas de nível psíquico por distúrbios neurobiológicos.

2° As quedas de nível por distúrbios afetivos.

Se, nas primeiras, os estados oníricos, os estados psicolépticos, os estados de dissociação pseudoalucinatórios mostram-se provocados pelas infecções, pelas mais diversas intoxicações e por uma grande variedade de lesões neurológicas; nas segundas predominam os mecanismos de ambivalência afetiva, as atitudes de objetivação próprias a certos estados delirantes — estejam eles próprios ligados a um episódio orgânico passageiro ou muito puramente psicogenético. Mas assim como nesse segundo grupo não é mascarado o mecanismo fisiológico da emoção, no primeiro desempenha um papel eficaz a personalidade, isto é, todo o complexo histórico-ideossocial, no qual nós mesmos tentamos defini-la.

O relatório do doutor H. Flournoy,[20] de Genebra, limita-se, no problema em questão, ao ponto de vista psicanalítico. Numa primeira parte, expõe a doutrina comum da psicanálise a respeito da alucinação. Sua psicogênese é constituída pela realização de um desejo, criadora não de uma imagem-lembrança, mas de uma imagem de percepção. Essa criação, no estado de vigília, é do foro de uma verdadeira regressão no ciclo sensório-psicomotor, regressão tópica (que depende da intensité das pulsões); soma-se a ela uma regressão cronológica, em que se marca a influência das lembranças recalcadas. O caráter penoso de várias alucinações está longe de excluir uma gênese como essa, caso se atente para a finalidade de tais conteúdos alucinatórios, para o seu caráter simbólico, e caso se leve em conta os processos de autopunição de uma importância tão capital. A estrutura das psicoses alucinatórias não estaria suficientemente caracterizada caso não se frisasse que a ruptura do eu com a realidade assume nela a forma de uma verdadeira invasão do eu (psicoses não de defesa, Abwehr-psychosen, mas de submersão,[21] (690)  Uberwältigung-psychosen). Trata-se, na realidade, de uma verdadeira regressão a uma fase primitiva alucinatória do eu, que a doutrina de Freud postula, e que corresponde ao estágio do narcisismo. As alucinações auditivas verbais — tanto por sua conexão com a verbomotricidade quanto por seu conteúdo — revelam, contudo, uma outra gênese em relação com o supereu.

Numa segunda parte de considerações pessoais extremamente sugestivas, o relator demonstra a indissolubilidade essencial do conteúdo e da forma no sintoma em psiquiatria e fundamenta nesse fato o valor verdadeiramente biológico da psicanálise. Ele agrupa, em seguida, todos os fatos, desde a psicologia da criança até as “disposições alucinatórias” admitidas por Bleuler[22] como normais no adulto e no idoso, que podem ser considerados como resíduos clínicos dessa fase primitiva alucinatória e permitem considerar-lhe a hipótese como fundamentada. Por fim, ele reparteos fatores etiológicos dos distúrbios alucinatórios em três pontos:

1º Alteração do sistema nervoso central;

2º Perturbação do sistema organo-vegetativo, em que ele aloca não somente fatos como aqueles que Head[23] enfatizou nas afecções viscerais, mas as alucinações teleológicas antissuicidas;

3º Os traumas afetivos e emocionais. Ele conclui demonstrando o paralelismo entre a psicanálise e as mais recentes teorias ditas organicistas, isto é, muito especialmente o trabalho de Mourgue, que todos têm em mente num Congresso como este.

A discussão é aberta por uma intervenção do professor Claude. Evitando as divergências de espírito e de método que podem separá-lo dos relatores, ele quer concentrar o debate no ponto de vista clínico. Mostra as muitas variedades, tanto qualitativas quanto evolutivas, do sintoma alucinatório. Essa própria complexidade exige uma disciplina terminológica da qual o professor Claude mostra toda a importância por meio dos exemplos apropriados, tais como o paradoxo do uso de certos termos em certos autores — o de “alucinose”, por exemplo, em Wernicke[24] —; as próprias definições de Esquirol[25] ou de Ball[26] parecem-lhe de pouco uso prático. O que é do foro da experiência clínica são certos grupos bem definidos:

1º os estados de alucinose, cujas percepções mórbidas tomam emprestado da alucinação certos caracteres, mas não acarretam a crença no objeto, são desprovidas de carga afetiva e não se integram à personalidade do sujeito; são distúrbios de natureza neurológica;

2º as alucinações verdadeiras, das quais o Sr. Claude precisa os caracteres de qualidade sensorial e de natureza delirante, e nas quais, ao lado dos mecanismos psicogênicos, é preciso admitir determinismos orgânicos, como mostram os fatos que ele estudou recentemente na encefalopatia parkinsoniana;

3º as pseudoalucinações — de aspectos sintomáticos múltiplos, mas todos integrados à personalidade —, das quais há tempos ele vem mostrando (691) as relações com as manifestações de ruminação mental, com as hiperendofasias,[27] e nas quais se marca uma objetivação evidente das preocupações do sujeito.

O professor Lhermitte[28] toma a palavra para opor, à distinção que o professor Claude e o doutor Ey estabelecem entre a alucinação não reconhecida e a alucinação reconhecida (com que caracterizam a alucinose), fatos observados em delirantes senis em que a crença delirante depende apenas do fato de a imagem alucinatória concordar ou não com a realidade atual. Ele protesta contra a separação arbitrária entre a neurologia e a psiquiatria. Concorda com Flournoy, visto que acusa o parentesco entre os estados alucinatórios e o sonho, mas apoia-se na necessidade de admitir, ao lado do dinamismo do desejo, um estado funcional especial, o hallucinatory state.

O professor L. van Bogaërt[29] frisa o interesse dessas pesquisas para os neurologistas; insiste em sua convergência com os pontos de vista atuais da neurologia, muito distantes da determinação imediata e irritativa do sintoma pela lesão; ele traz a questão da classificação nosológica, das fotopsias,[30] cromatopsias,[31] hiperacusias,[32] e outros fenômenos sensoriais elementares.

A discussão só se encerra após as diversas comunicações, cujos elementos de interesse, frequentemente múltiplos, lamentamos não poder enfatizar suficientemente.

A alucinação peduncular, pelo Sr. Lhermitte[33] Lesões focais, infecção cefalítica epidêmica, intoxicação barbitúrica, neoplasias. Alucinações visuais, estado afetivo especial. Ritmo vespertino. Alucinações criticadas,[34] mas somente de forma relativa. Distúrbios correlativos da função hipnótica. Todos esses caracteres fazem supor que o estado alucinatório, ligado à lesão mesencefálica, compete à função ativa do sono: o sonho.

Alucinações e fenômenos oculógiros, pelo Sr. L. van Bogaërt Comunicação fundamentada em três observações notáveis, duas delas já publicadas ao menos em parte. O primeiro caso,[35] acesso oculógico com hemianestesia e distúrbios parieto-apráxicos (notáveis pelo fato de sua origem perceptiva poder ser evidenciada), complicou-se com uma hemi-algoalucinose[36] muito penosa com percepção anormal das dimensões do corpo do mesmo lado que os distúrbios anestésicos. O segundo caso comporta, durante o acesso, uma agnosia visual com distúrbios alucinósicos visuais, que parecem constituídos por fotopsias animadas e são redutíveis por intermédio de reações vestibulares. O terceiro caso, crises oculógiras com parkinsonismo e adiposidade, apresenta, por um lado, crises de alucinose — em que a doente revive, num estado de lucidez crítica e de indiferença (692) afetiva, cenas de sua vida infantil mais comovente —; de outro, estados oníricos confusionais com convicção delirante. O autor conclui admitindo o parentesco funcional entre as crises oculógiras e o estado de sono, como dois estados de inibição progressiva de extensão e de profundeza variável, tendo certos sinais em comum, modificáveis por influências de mesma natureza. Ele insiste, muito pertinentemente, no papel desempenhado no mecanismo alucinatório pelos distúrbios perceptivos e gnósicos associados aos distúrbios da proprioceptividade. Evoca os importantes trabalhos de Steck,[37] de Lausanne, sobre casos análogos.

A síndrome alucinatória (automatismo mental) em patologia geral. A síndrome mística. Um caso de síndrome alucinatória de tipo místico no decurso de uma sífilis cerebral, pelo Sr. G. de Morsier,[38] de Genebra. – A síndrome alucinatória do automatismo mental considerada como típica foi encontrada em casos de etiologia manifestamente orgânica, tais como: febre tifoide, encefalite psicósica,[39] anemia aguda, osteíte fibrosa com hipercalcemia redutível pós-tiroidectomia, hipertensão intracraniana, traumatismo craniano etc. Uma belíssima observação de síndrome mística é uma excelente ocasião para o autor criticar as quatro tendências psicógenas admitidas, desde Leuba,[40] pela maioria dos autores, como estando na base da síndrome mística.

Alucinaçõesin statu nascendi, pelo Sr. M. Boss,[41] de Zurique – Curioso caso de alucinações de tipo esquizofrênico, surgidas ao mesmo tempo que pulsões agressivas, no decorrer do tratamento psicanalítico de uma neurose. O autor vê aí o último reduto em que se refugiam, após outras manifestações neuróticas, as resistências do doente. Esse caso, graças à continuação do tratamento, terminou em cura.

Algumas características clínicas das alucinações auditivas verbais, pelo Sr. F. Morel,[42] de Genebra – Toda alucinação auditiva verbal necessita do emprego de um processo de ideação na forma fonética exata que os aparelhos, ou uma parte dos aparelhos da fala do doente, lhe conferem.

Essa é a lei que o autor institui; lei capital, com efeito, caso se vislumbre o que ela implica no mecanismo do fenômeno. O autor descarta, para o seu estudo, toda e qualquer apreciação das caraterísticas propriamente sonoras da alucinação auditiva verbal (intensidade, timbre, localização), que é preciso, com ele, reconhecer como incomensuráveis e incoordenáveis, tanto para o doente quanto para o observador. A sua lei isola-se de uma pesquisa — ainda mais impressionante em sua precisão, já que é puramente clínica — das condições de surgimento do fenômeno. O autor formula, assim, um determinado número de fatos de experiência, de uma análise extremamente fina, sobre as relações que se manifestam entre a rapidez da cadência alucinatória, o número das vozes discernidas, as suas particularidades e os seus distúrbios fonéticos, de um lado; e as mesmas qualidades e (693) distúrbios da linguagem interna ou falada do doente, de outro. O desaparecimento do eco quando o doente fala em voz alta, a irredutibilidade dos fenômenos pelas manobras que incidem no conduto auditivo, a sua redutibilidade pelas duas manobras (não pensar, não respirar) não estão entre as menores conquistas desse novíssimo estudo. Cheio de observações sugestivas (escuta-se boquiaberto, não se lê boquiaberto), ele lança uma luz que permanecerá acesa sobre a natureza do “eco mental” em suas diversas formas. É de se constatar que isso contribui para relegar as teorias que o imaginam como um eco cerebral centrípeto.

As alucinações no decorrer do processo de cura nas esquizofrenias, pelo Sr. C.-G. Tauber,[43] de Berna – No decorrer de tais casos, cuja realidade é preciso admitir, mantendo para o termo “cura” o seu valor relativo, a análise revela certa regularidade nas fases observadas (Max Müller,[44] Mayer-Gross:[45] “Les développements tipiques”, typische Verläufe [desenvolvimentos típicos]). Para as alucinações, pode-se observar:

1º a sua cessação espontânea;

2º a sua persistência com o desaparecimento da reação do doente;

3º a progressiva transformação de seu valor afetivo, por exemplo, em influências prestativas.

Esse terceiro caso parece o mais propício à psicoterapia, que não deve hesitar, então, em agir patoplasticamente, isto é, utilizar-se das convicções favoráveis do delírio do doente, premissas habituais de uma cura.

Alucinações esquizofrênicas, pelo Sr. J. Wyrsch,[46] de Saint-Urban – O autor distingue dois tipos essenciais: as alucinações fisiógenas, primárias, autênticas, também chamadas de “pseudopercepções”; as alucinações psicógenas, secundárias, também chamadas de “pseudoalucinações”. As primeiras são encontradas nos estados agudos e o sujeito tem para com elas uma atitude objetiva, semelhante à do indivíduo normal para com as suas percepções — atitude que comporta mais indiferença com a sua própria manifestação do que com o seu valor significativo. As segundas são encontradas nos estados de esquizofrenia crônica, com que o autor designa os estados paranoides, e o doente tem para com elas uma atitude subjetiva; ele as sente como muito mais semelhantes a “inspirações”, tendo por conseguinte um nítido caráter intraindividuel. Essa diferença talvez se deva à estrutura psíquica (In-der-Welt-sein [ser-no-mundo]) própria ao paranoide e se reduziria, então, à de dois fenômenos diferentes do mesmo sintoma.

O autor assinala, por fim, casos de alucinose crônica. Essa comunicação se enquadra no ponto de vista fenomenológico, familiar à escola alemã e deveras negligenciado entre nós.

Alucinações e energia psíquica, pelo Sr. de Jonge,[47] de Prangins – Essa comunicação, da qual o tempo infelizmente nos (694) impediu de ouvir mais que as premissas, entrega-nos reflexões profundas sobre as funções da quantidade e da qualidade nos fenômenos psíquicos.

A alucinação e o real, pelo Sr. de Montet,[48] de Vevey – Comunicação em que o mais radical relativismo numenal é introduzido na consideração dos próprios fenômenos psicopatológicos. A sua qualidade, para o autor, mostra-se sempre inapreensível à medida de qualquer realidade ontológica. Para esses fenômenos, como para todos os outros, nada possui significação a não ser em relação a outra coisa. As discriminações sagazes, mas impotentes, das nossas teorias não passam do reflexo dessa relatividade entre um número infinito de singularidades. Parece que o problema que se debate aqui não é um problema de ordem médica, é o problema da verdade.

O doutor Jung,[49] que ilustra esse Congresso com a sua presença, cede à simpática insistência do presidente e traz o seu ponto de vista a respeito da alucinação. Ele é tirado da história da profecia e das observações que ele próprio fez nos africanos primitivos, na maioria medicine-men, que ele frequentou e observou.[50] As alucinações que eles têm e que eles utilizam não passam de uma forma especial dessa função expressa pela palavra “intuição”, “inspiração” — ou, para ser mais exato, aquilo que há de intraduzível na palavra alemã Einfall, empregada pelo próprio doutor Jung.[51] Existem todas as transições entre as formas que nos são familiares e aquelas propriamente alucinatórias dessa função que é de natureza subliminar. O nível da cultura individual e do ambiente influencia o uso, a interpretação, até mesmo o surgimento do fenômeno.

A discussão é, então, retomada. Lastimamos a renúncia, por parte do professor Claparède,[52] de uma intervenção muito esperada. O professor Vermeylen,[53] aprovando em seu conjunto as posições dos relatores, nos traz exposições sumárias a respeito do papel da atividade psíquica na percepção normal, bem evidenciado pelos trabalhos da Gestalt-Psychologie. Ele esboça num quadro, ilustrado com observações pessoais e que chamou bastante a atenção, as fases evolutivas da constituição do real na criança.

O professor Maier e o doutor Flournoy declaram não ter nada a acrescentar às posições assumidas pelos interpeladores.

O douteur Ey responde a algumas delas. É de frisar o quanto os fatos trazidos pelo professor van Bogaërt parecem-lhe favoráveis às distinções clínicas que ele sustenta. Os fosfenos,[54] acufenos,[55] algias,[56] parestesias[57] de toda sorte parecem-lhe, de pleno direito, integrar a alucinose. Insiste que os fatos trazidos pelo professor Lhermitte parecem-lhe entrar no enquadramento das alucinações ligadas a estados oníricos e psicolépticos, e não nas alucinoses. Apesar de sua concordância com o doutor F. Morel acerca do mecanismo funcional que a sua análise muito fina revela para as alucinações auditivas verbais, H. Ey acredita dever lançar uma dúvida sobre a legitimidade de uma precisão descritiva demasiado grande em semelhante (695) matéria. Por trás da incontestável evidência dos fatos trazidos pelo Sr. de Morsier, Ey implica mais uma vez com aquilo que chama de “espírito do automatismo mental”: é uma implicância cortês. Ele conclui respondendo ao professor Lhermitte que não se trata de opor os métodos da neurologia e da psiquiatria em seu uso pelo observador, que deve, ao contrário, empregá-los conjuntamente, mas de delimitar os seus domínios nos fatos.

Encerrando, gostaríamos de agradecer aos nossos colegas da Sociedade Suíça de Psiquiatria a hospitalidade confraternal, que não é menos generosa — sem tirar, nem pôr — que a sua hospitalidade científica.

Jacques LACAN


INFORMAÇÕES ADICIONAIS | Os relatórios e as comunicações foram mencionados de forma abreviada nos Annales Médico-Psychologiques,vol. 15, n. 2. Disponíveis em: <archive.org/details/BIUSante_90152x1933x02>. Foram publicados por completo nos Archives Suisse de Neurologie et Psychiatrie / Schweizer Archiv für Neurologie und Psychiatrie, 1933, vol. 32.



[1] Raymond de Saussure [1894-1971], psiquiatra suíço, era filho do linguista genebrino Ferdinand de Saussure [1857-1913]. Formado em medicina nas cidades de Genebra e Zurique, estudou psiquiatria em Paris, Viena e Berlim. Foi um dos fundadores da Sociedade Psicanalítica de Paris e um dos pioneiros do freudismo no universo de língua francesa. Seu livro La Méthode psychanalytique (Lausanne-Genève: Payot, 1922) leva um prefácio assinado por Freud, que também foi seu analista. (N. do T.)
[2] Philippe Pinel [1745-1826] formou-se em 1773 e logo depois tornou-se doutor pela Escola de Medicina de Toulouse. Em Paris, frequentava os círculos de escritores, literatos e cientistas imbuídos da filosofia iluminista. Em 1793, nomeado pelo Governo Revolucionário como médico-chefe do Hospital de Bicêtre e diante das precárias condições em que os alienados se encontravam, solicitou autorização à Assembléia Nacional para retirar as correntes dos pacientes, à época um tratamento usual para os doentes mentais. É considerado o principal percussor do processo de mudança que possibilitou o surgimento do alienismo na sociedade moderna, integrando a corrente que constituiu o saber psiquiátrico por meio da observação e da análise sistemática dos fenômenos perceptíveis da doença. Ao longo de todo o século XIX, outros alienistas deram continuidade a tais conceitos a partir das observações por ele feitas. Em 1795, foi para o hospital de Salpêtrière, onde atuou por 31 anos. (N. do T.)
[3] François Boissier de Sauvages [1706-1767] era professor de medicina em Montpellier (França). Apreciador de classificações, foi autor de uma Nosologie méthodique [Nosologia metódica] — que chegou a ser estudado e citado por Philippe Pinel [1745-1826] — na qual os doentes são ordenados por classes, segun­do o sistema de Thomas Sydenham [1624-1689], da mesma forma que as plantas. Cf. J. Grasset, Le médecin de l’amour au temps de Marivaux, étude sur Boissier de Sauvages, d’après des documents inédits. Paris: G. Masson, 1896. (N. do T.)
[4] Georg Ernst Stahl [1659-1734] foi um químico e médico alemão. Opondo-se à filosofia mecanicista, Stahl considerava que os seres vivos eram dotados de algo a que chamou de anima [alma]. (N. do T.)
[5] Hans Wolfgag Maier [1882-1945], formado em medicina nas cidades de Zurique, Viena e Estrasburgo, foi médico-assistente da clínica psiquiátrica de Burghölzli, na cidade de Zurique, entre os anos de 1905 e 1927. Fundador e coordenador da policlínica psiquiátrica e do serviço de psiquiatria infantil de Estrasburgo, também atuaria como professor de psiquiatria na Universidade de Zurique (1927-41) e diretor da Burghölzli. Em 1942, participará da elaboração do Código Penal suíço. Autor de diversas obras de referência, Maier era defensor das ideias eugenistas da época. (N. do T.)[6] Karl Theodor Jaspers [1883-1969], filósofo e psiquiatra alemão, graduou-se em medicina em 1909 e atuou no hospital psiquiátrico de Heidelberg. Em 1913 publica o seu Psicopatologia geral, compêndio que se tornaria um clássico no campo do diagnóstico das doenças mentais. Lecionou psicologia e filosofia na Universidade de Heidelberg, chegando a ter Hanna Arendt [1906-1975] como aluna. (N. do T.)
[7] Augusto Tamburini [1848-1919], formato em medicina pela Universidade de Bologna, foi uma das figuras-chave da psiquiatria italiana entre os séculos 19 e 20. Foi diretor do manicômio San Lazzaro, que sob sua coordenação conquistou grande reputação científica, atraindo muitos expoentes da psiquiatria da época. Em Roma, torna-se diretor da clínica universitária. Foi presidente da Società Freniatrica Italiana [Sociedade Psiquiátrica Italiana] entre 1890 e 1910, e diretor da Rivista sperimentale di frenatria, de 1877 a 1919. Autor de diversas publicações, seus trabalhos abrangem múltiplos campos da disciplina psiquiátrica, como a localização cerebral, a hipnose, a histologia do sistema nervoso, a psicologia e a neuropsiquiatria infantil. Cf. V. Bongiorno, Il Dedalo della mente: Augusto Tamburini tra neurofisiologia e psichiatria. Roma: Kappa, 2002. (N. do T.)
[8] Eugenio Tanzi [1856-1934] foi um psiquiatra italiano. Trabalhou no manicômio de San Lazzaro, no serviço de Augusto Tamburini [1848-1919], onde colaborou com Gabriele Buccola [1854-1885]. Convencido de que a psiquiatria deveria ter bases estritamente biológicas, propunha que estímulos externos poderiam oferecer modificações reais aos tecidos cerebrais. Pensava que o sistema nervoso fosse constituído por um conjunto de neurônios separados por distâncias mínimas;  e que as “ondas neurais”, atravessando o sistema, estimulariam o crescimento de outros neurônios, facilitando a passagem dos estímulos — poucos anos depois, em 1897, o fisiologista inglês Charles Scott Sherrington [1857-1952] cunharia o termo “sinapse”. Com Tamburini e Enrico Morselli [1852-1929], fundou em 1896 a Rivista di patologia nervosa e mentale [Revista de patologia nervosa e mental]; e em 1907, foi um dos responsáveis pela fundação da Sociedade Italiana de Neurologia, da qual seria secretário e vice-presidente. (N. do T.)
[9] Kurt Goldstein [1878-1965], neurologista e psiquiatra alemão, é considerado um dos pioneiros da neuropsicologia moderna. Estudando um pouco de filosofia em Heidelberg e medicina na Breslávia, trabalhou como assistente no laboratório do anatomista Ludwig Edinger [1855-1918], em Frankfurt. Orientado por Carl Wernicke [1848-1905], exerceu a neurologia em clínica particular, passando a lecionar a disciplina na universidade após o falecimento de Edinger. Depois da Primeira Guerra, desenvolve as suas teorias a respeito das relações entre a mente e o cérebro. Lecionará, ainda, na Universidade Humbold (Berlim) e nas universidades de Columbia e Harvard (Estados Unidos). Seu pensamento será introduzido no universo de língua francesa por Maurice Merleau-Ponty [1908-1961] e Georges Canguilhem [1904-1995], ajudando a constituir a base do pensamento estruturalista dos anos 1960. Cf. K. Goldstein, Der Aufbau des Organismus [A construção do organismo]. Den Haag: Nijhoff, 1934. (N. do T.)
[10] Constantin von Monakow [1853-1930], neurologista suíço de origem russa, estudou na Universidade de Zurique e atuou como assistente na clínica Burghölzli. Foi responsável, em 1917, pela fundação do periódico Schweizer Archiv für Neurologie und Psychiatrie [Arquivo Suíço de Neurologia e Psiquiatria], do qual foi diretor até o fim da vida. Interessava-se sobretudo pelo estudo das capacidades sensoriais e motoras no cérebro, bem como pelas relações funcionais entre as regiões cerebais. Sua descoberta do fascículo arqueado (um feixe de axônios), entendido como aquilo que conecta as áreas de Broca e Wernicke, rendeu muitas especulações e modelos para o processamento cerebral da linguagem. Monakow é citado em O anti-Édipo, em razão daquilo que os autores nomeiam como uma “introdução do desejo na neurologia”. Cf. G. Deleuze; F. Guattari (1972-73) O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia 1. Trad. L. Orlandi. São Paulo: Ed. 34, 2010, pp. 59-ss. (N. do T.)
[11] Raoul Mourgue [1886-1950], neuropsiquiatra francês, graduou-se em letras e filosofia na cidade de Montpellier e em medicina na cidade de Paris. Conclui seu doutoramento com tese intitulada Étude critique de l’évolution des idées relatives à la nature des hallucinations vraies [Estudo crítico da evolução das idéias relativas à natureza das alucinações verdadeiras] (Paris: Jouve & Cie, 1919). Atuou como médico-chefe em Villejuif, Fains-les-Sources e Auxerre. Foi secretário de redação da revista L’Encéphale durante os anos de 1919 e 1928. Começou a trabalhar com Constantin von Monakow [1853-1930] no começo da década de 1920. Estudou psicologia, psicanálise, a filosofia biológica de Auguste Comte [1798-1857], o método nas teorias neovitalistas contemporâneas, o movimento psicobiológico na Alemanha, as obras de Ivan Pavlov [1849-1936] e Kurt Goldstein [1878-1965]. Suas contribuições são consideradas uma unificação de diversas doutrinas: o ponto de vista neurobiológico (Bergson), a evolução da função (Monakow) e o método de estudo das afecções da linguagem (Jackson). Cf. R. Mourgue, Neurobiologie de l’hallucination [Neurologia da alucinação]. Bruxelles: M. Lamentin, 1932. (N. do T.)
[12] Relativos à uremia: elevação do índice de ureia no sangue. (N. do T.)
[13] Os três relatórios devem ser publicados in extenso nos Archives Suisses de Neurologie et de Psychiatrie. [cf. abaixo, em “Informações adicionais” (N. do T.)]
[14] Henri Ey [1900-1977], psiquiatra francês formado em medicina em Toulouse e Paris, iniciou seu internato em 1925, sendo nomeado chefe de clínica no serviço de Henri Claude [1869-1945] no ano de 1931. Médico-chefe do Manicômio — posteriormente, Hospital Psiquiátrico — de Bonneval (Eure-et-Loir) de 1933 à 1970, Ey funda a Associação Mundial de Psiquiatria, da qual é secretário-geral entre 1961 e 1967. Redator-chefe da revista L’Évolution psychiatrique de 1945 a 1974, é autor de diversas obras no campo da psiquiatria, dentre elas: Études psychiatriques [Estudos psiquiátricos] (1948-1954); La conscience [A consciência] (1963); Traité des hallucinations [Tratado das alucinações] (1973). Publicado em 1960, seu Manuel de psychiatrie [Manual de psiquiatria] — escrito em coautoria com Paul Bernard [1909-1995] e Charles Brisset [1914-1989] —, foi referência de várias gerações de psiquiatras. Foi responsável, em 1925, pela primeira tradução francesa do clássico trabalho de Eugen Bleuler [1857-1939], Dementia praecox oder gruppe der Schizophrenien [Dementia praecox ou o grupo das esquizofrenias]. O Hospital de Bonneval e a Biblioteca de Sainte-Anne receberam seu nome, em homenagem. Inventou e teorizou aquilo que chamava de organodinamismo. (N. do T.)
[15] Henri Charles Jules Claude [1869-1945] foi discípulo do patologista francês Charles Bouchard [1837-1915] — este, por sua vez, discípulo de Jean Martin Charcot [1825-1893] — e assistente do neurologista Fulgence Raymond [1844-1910], na Salpêtrière. Entre os anos de 1922 e 1939, ocuparia a cátedra da clínica de doenças mentais do Hospital Sainte-Anne, em Paris, cumprindo um papel importante na introdução das teorias de Freud na França. A criação do primeiro laboratório de psicoterapia e psicanálise da Faculdade de Medicina de Paris deve-se ao seu trabalho. Entre seus alunos estiveram Jacques Lacan [1901-1981] e Henri Ey [1900-1977], que foi seu assistente. Membro titular da Academia Nacional de Medicina a partir de 1927, foi também membro da Legião de Honra. Debruçando-se sobretudo sobre a esquizofrenia, é a ele que se deve a cunhagem do termo “esquizose”. (N. do T.)
[16] Xenopatia é o estado mórbido de um sujeito que tem a impressão de que alguém age nele à distância, e suas diferentes atividades psíquicas são sentidas como estranhas à sua própria personalidade. (N. do T.)
[17] Relativo a medicamento ou droga que exerce efeito sedativo sobre o psiquismo. (N. do T.)
[18] Cf. H. Claude, “Mécanisme des hallucinations: syndrome d’action extérieure” [Mecanismo das alucinações: síndrome de ação externa], L’Encéphale, n. 25, 1930, pp. 345-59. (N. do T.)
[19] Percepções de uma imagem patológica com todas as características de uma imagem alucinatória; porém, com menor convicção de realidade ou menor participação do eu — a experiência perceptiva é notada como algo estranho, como um acontecimento patológico. (N. do T.)
[20] Henri Flournoy [1886-1955], médico psiquiatra que, foi um dos pioneiros da psicanálise na Suíça de língua francesa. Era cunhado de Raymond de Saussure [1894-1971]. Como analisante, passou pelos consultórios de Carl Jung [1875-1961], Johan van Ophuijsen [1882-1950], Sigmund Freud [1856-1939] e Herman Nunberg [1884-1970]. Foi membro da Sociedade Psicanalítica de Paris e da Sociedade Suíça de Psicanálise. (N. do T.)
[21] Uberwältigung, na realidade, significa “subjugação”, “dominação”. É possível que tenha ocorrido uma troca entre os termos submersion [submersão] e submission [submissão]. (N. do T.)
[22] Paul Eugen Bleuler [1857-1939], psiquiatra suíço, contribuiu enormemente para o campo da pesquisa sobre as psicoses, fundando a visão científica contemporânea a respeito das esquizofrenias. Cf. M. E. Costa Pereira (2000) “Bleuler e a invenção da esquizofrenia”, Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, vol. 3, n. 1. São Paulo, pp. 158-163. Disponível em: <dx.doi.org/10.1590/1415-47142000001011>. (N. do T.)
[23] Henry Head [1861-1940], considerado um dos maiores neurologistas ingleses, realizou pesquisas pioneiras no campo dos sistemas sensoriais. Seu último grande trabalho, Aphasia and kindred disorders of speech [Afasia e outros distúrbios da fala aparentados], foi avaliado por Macdonald Critchley (The black hole and other essays [London: Pitman, 1964]) como “a melhor monografia sobre o tema da afasia na literatura neurológica”. Ao descrever a “afasia semântica” nessa obra, Head propõe um vínculo entre os aspectos linguísticos e intelectuais da fala, algo cujas implicações posteriormente receberiam crédito e ampliação de afasiologistas moderno. No campo da fisiologia experimental, investigou o funcionamento dos nervos sensoriais, utilizando a si mesmo como cobaia. (N. do T.)
[24] Carl Wernicke [1848-1905], neurologista, anatomista e psiquiatra alemão, é conhecido por suas pesquisas que correlacionam neuropatologias a áreas cerebrais específicas. Após Paul Broca [1824-1880] publicar suas descobertas sobre aquilo que ficaria conhecido como “área de Broca”, Wernicke dedicou-se ao estudo das afasias em relação com traumatismos cranianos, identificando o que passará a ser chamado como “área de Wernicke” (região posterior esquerda do giro temporal superior), associada por ele a défcits de compreensão linguística. (N. do T.)
[25] Discípulo de Philippe Pinel [1745-1826] e continuador de sua obra, Jean-Étienne Dominique Esquirol [1772-1840] foi nomeado médico da Salpêtrière em 1811. Sua vida profissional destacou-se pelo empenho em construir e organizar diversos manicômios. Para ele, a loucura era definida pelo delírio e acometia a vontade; percepção que foi considerada, à época, um grande avanço em relação ao trabalho de Pinel, embora utilizasse elementos do tratamento moral. Via na questão do isolamento uma grande importância para o tratamento eficaz do paciente, e o justificava atribuindo à presença de parentes e amigos uma das causas da loucura. Ele e seus alunos tiveram um papel fundamental no estabelecimento do sistema institucional e da legislação do campo psiquiátrico francês, sobretudo com a aprovação de uma lei, que data de 1838, regulando a assistência aos doentes mentais e prevendo dois tipos de internação (a voluntária e a compulsória) — lei que seria copiada por diversos outros países. (N. do T.)
[26] Benjamin Ball [1833-1893], médico psiquiatra e neurologista naturalizado francês, foi o primeiro titular da cátedra de doenças mentais e do encéfalo no manicômio de Saint-Anne. Discípulo de Jean Martin Charcot [1825-1893] e Charles Lasègue [1816-1883], havia iniciado seu internato em 1855 sob orientação de Jacques Moreau de Tours [1804-1884], em Bicêtre, de onde data seu interesse pelas investigações a respeito do haxixe, da morfina e da cocaína. Na companhia de Jules Luys [1828-1897], fundou o periódico L’Encéphale [O Encéfalo] no ano de 1881. Em 1883, foi eleito membro da Academia Nacional de Medicina. (N. do T.)
[27] Endofasia denota uma formulação verbal interna do pensamento não expresso, com a representação mental da própria voz. (N. do T.)
[28] Jean Jacques Lhermitte [1877-1959], neurologista francês, foi aluno de Gustave Roussy [1874-1948], Fulgence Raymond [1844-1910] e Pierre Marie [1853-1940]. Foi chefe de clínica e laboratório na Salpêtrière, na Clínica de Doenças Nervosas, e chefe de laboratório de Pierre Marie até 1914. Entre 1915 e 1919, foi médico-chefe do Centro Neurológico de Bourges, sob a direção de Henri Claude [1869-1945]; depois, compôs o corpo médico do Lar Paul-Brousse. Em 1923, tornou-se professor de psiquiatria. Viria a ser membro da Academia de Medicina e comendador da Legião de Honra. Foi um dos diretores da revista L’Encéphale e membro do comitê diretivo de diversos periódicos, dentre eles a Revue Neurologique. (N. do T.)
[29] Ludo van Bogaërt [1897-1989], neurologista belga, iniciu seus estudos em medicina nos Países Baixos, interrompendo-os para lutar na Primeira Guerra Mundial e retomando-os em Bruxelas, para então concluídos no ano de 1922. Especializou-se em neurologia (Paris) e em neuropatologia (Paris, Viena, Berlim e Munique), iniciando sua carreira médica no Hospital Stuyvenberg, na Antuérpia. Foi o primeiro presidente da Federação Mundial de Neurologia. (N. do T.)
[30] Sensação luminosa, como fagulhas ou pequenos raios, devido à irritação da retina. (N. do T.)
[31] Afecção visual em que as cores são percebidas incorretamente. (N. do T.)
[32] Acuidade auditiva exacerbada, com audição dolorosa de certos sons. (N. do T.)
[33] Cf. J. Lhermitte, L’Encéphale, 1932, vol. 27, n. 5. [Trata-se do texto “L’hallucinose pédonculaire” (A alucinose peduncular), disponível em: <gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k9676818h/f459>. (N. do T.)
[34] Sinônimo de alucinose. (N. do T.)
[35] Cf. R. Delbeke e L. van Bogaërt: L’Encéphale, vol. 23, n. 10, 1928 (Obs. I e III). L. van Bogaërt; Helsmoortel, Revue Neurologique,1927, n. 6. [Respectivamente: “Le problème general des crises oculogyres” (O problema geral das crises oculógiras), disponível em: <gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k96599365/f915>; “Recherches sur l’état des fonctions vestibulaires dans les crises oculogyres de l’encéphalite” (Pesquisas sobre o estado das funções vestibulares nas crises oculógiras da encefalite), disponível em: <archive.org/details/BIUSante_130135x1927x01/page/n1043>. (N. do T.)]
[36] Algoalucinose denota a dor sentida num membro amputado. (N. do T.)
[37] Hans Steck [1891-1918], médico suíço, doutora-se pelo Instituto de Fisiologia de Berna, sob orientação de Léon Asher [1865-1943]. Inicia-se na prática da hipnose com Wilhelm von Speyr [1852-1939], a partir da técnica de Ambroise-Auguste Liébault [1823-1904]. Em 1916, inicia sua atividade como médico voluntário no manicômio de Cery; e interessado por histologia, desenvolve seus estudos em anatomia cerebral. Ali, Steck se aproxima das investigações a respeito da linguagem e da arte. Cf. F. Choquard, “Le psychiatre Hans Steck: médiateur entre l’asile et le musée”, Swiss Arch Neurol Psychiatr Psychother, vol. 169, n. 1, pp. 19-25. Disponível em: <doi.org/10.4414/sanp.2018.00540>. (N. do T.)
[38] Georges de Morsier [1894-1982], nascido na França, faz seus estudos em ciências naturais e medicina em Genebra, onde também se especializa em psiquiatria e neurologia. Em Paris, trabalhou como assistente de Gaétan de Cérambault [1872-1934]. Inicia sua carreira docente em 1928, na Universidade de Genebra, lecionando na área de neurologia. No hospital público da cidade, em 1953, criará um serviço de neurologia separado da clínica de medicina interna, da qual se torna professor e, no ano de 1961, diretor. (N. do T.)
[39] Referente ao que tem a aparência de uma psicose. (N. do T.)
[40] James H. Leuba [1868-1946], psicólogo nascido na Suíça e radicado nos Estados Unidos, é conhecido por suas contribuições no campo da psicologia da religião. Cf. J. H. Leuba, “Les Tendances fondamentales des mystiques chrétiens”, Revue Philosophique de la France et de l’Étranger, vol. 54, 1902, pp. 1-36. Disponível em: <www.jstor.org/stable/41077605>. (N. do T.)
[41] Medard Boss [1903-1990], psiquiatra e psicoterapeuta suíço, foi bastante influenciado por Eugen Bleuler [1857-1939] durante seus anos de formação em medicina, trabalhando como seu assistente na clínica Burghölzli, em Zurique. Havia feito uma análise didática com Freud em 1925; porém, ao entrar em contato com o pensamento fenomenológico de psiquiatras como Karl Jaspers [1883-1969], Eugène Minkowski [1885-1972] e Ludwig Binswanger [1881-1966], iniciou sua crítica à metapsicologia freudiana. Será um dos expoentes daquilo que, a partir de 1941, ficará conhecido como daseinsanálise, calcada em elementos desenvolvidos pelo filósofo Martin Heidegger [1889-1976]. Cf. “A clínica Daseinsanalítica: considerações preliminares”, Revista da abordagem gestáltica, vol. 17, n. 1. Goiânia, jun. 2011. Disponível em: <pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672011000100006>. (N. do T.)
[42] Ferdinand Morel [1888-1957], psiquiatra suíço especialista em anatomopatologia cerebral, vinha de uma formação teológica anterior à medicina — havia estudado teologia em Neuchâtel e filosofia em Paris, doutorando-se em Genebra no ano de 1918, com tese intitulada Essai sur l’introversion mystique: étude psychologique de Pseudo-Denys l’Aréopagite et quelques autres cas de mysticisme [Ensaio sobre a introversão mística: estudo psicológico de Pseudo-Dionísio, o Areopagita, e alguns outros casos de misticismo] (Genève: Kundig, 1918). Seus estudos em medicina serão concluídos em 1927. Como docente, atuará em faculdades de letras (1919) e de medicina (1934), tornando-se professor de psiquiatria em 1938. Diretor da clínica psiquiátrica de Bel-Air, em Genebra, opunha-se frontalmente às psicocirurgias — sendo um dos poucos de sua época a desaprovar a prática da lobotomia. Chegará ao cargo de presidente da Sociedade Suíça de Psiquiatria. (N. do T.)
[43]  C.-G. Tauber [?-?], psiquiatra, dirigia uma pequena clínica particular na cidade de Berna. (N. do T.)
[44] Max Müller [1894-1980], médico psiquiatra formado em Berna, conclui seu doutoramento em 1920. Trabalha como assistente de Eugen Bleuler [1857-1939] em Zurique e, depois, como médico-chefe na clínica psiquiátrica de Münsingen — da qual será diretor entre os anos de 1939 e 1954). Atua como docente no campo da psiquiatria em Berna, e diretor da clínica universitária de psiquiatria de Waldau (1954-1963). Sob sua direção, a clínica de Münsingen torna-se referência internacional como centro de terapia somática (insulina, sismoterapia) e de psicanálise. (N. do T.)
[45] Willy Mayer-Gross [1889-1961], médico nascido em Bingen, fez seus estudos em Heidelberg, Kiel e Munique. Assistente na clínica psiquiátrica de Heldelberg em 1912, no ano seguinte conclui seu doutoramento com a tese intitulada Zur Phänomenologie abnormer Glücksgefühle [Sobre a fenomenologia dos sentimentos anormais de felicidade] e, em 1924, sua livre-docência com a obra Selbstschilderungen der Verwirrtheit [Auto-relatos de estados confusionais]. Entre 1928 e 1934, coedita a revista Nervenarzt [Psiquiatra] na companhia de Kurt Beringer [1893-1949]. Em 1929, torna-se professor-associado em Heidelberg. Cf. T. A. Cordás; M. R. Louzã, “Willy Mayer-Gross (1889-1961)”, Revista de psiquiatria clínica, vol. 30, n. 4. São Paulo, 2003. Disponível em: <dx.doi.org/10.1590/S0101-60832003000400001>. (N. do T.)
[46] Jakob Wyrsch [1892-1980], psiquiatra e escritor suíço, havia estudado medicina em Zurique. Trabalha como assistente de Eugen Bleuler [1857-1939] na clínica Burghölzli entre os anos de 1920 e 1921. Após estágios de pesquisa em Paris e Londres, torna-se assistente na clínica St. Urban, em Lucerna, atuando depois como médico sênior em Berna — cidade na qual também desempenhará a atividade de professor universitário. (N. do T.)
[47] A. J. Kiewiet de Jonge [?-?]. (N. do T.)
[48] Charles de Montet [1881-1951], psiquiatra suíço, foi professor de psiquiatria na Universidade de Lausanne. Em 1912, quando da VII Reunião da Sociedade Suíça de Neurologia, em Lausanne, havia sido designado para redigir um relatório acerca do estado atual da psicanálise. Cf. Ch. de Montet, “Der gegenwärtige Stand der Psychoanalyse Freuds. Vortrag gehalten an der VII. Versammlung der Schweiz. Neurolog. Gesellschaft in Lausanne, 4. und 5. Mai 1912. Rezension und Diskussion”, Correspondenz-Blatt für Schweizer Ärzte, Jhg. XLII, 1912. (N. do T.)
[49] Carl Gustav Jung [1875-1961], psiquiatra e psicoterapeuta suíço, havia publicado sua primeira obra em 1903, intitulada Zur Psychologie und Pathologie sogenannter occulter Phanomene [Psicologia e patologia dos fenômenos ditos ocultos], fruto de sua tese de doutoramento. Publicou nos anos seguintes mais três trabalhos, relacionados à descoberta dos complexos afetivos e das significações nos sintomas das psicoses. Em 1905 tornou-se docente na Universidade de Zurique, entrando em contato com Sigmund Freud [1856-1939] em Viena, dois anos depois, com quem iniciou uma estreita colaboração. Em 1910 foi fundada a Associação Psicanalítica Internacional (IPA), da qual Jung foi eleito presidente. As primeiras divergências entre eles surgiram em 1912, que culminou no rompimento definitivo em 1914. (N. do T.)
[50] Sobre a passagem de Jung pelo continente africano, em 1925-1926, cf. B. Burleson, “Jung in Africa: the historical record”, Journal of Analytical Psychology, vol. 53, n. 2, 2008, pp. 209-223. Disponível em: <doi.org/10.1111/j.1468-5922.2008.00717.x>. Cf. também, do mesmo autor, o livro Jung in Africa (London: Bloomsbury Academic, 2005). (N. do T.)
[51] Einfall, do alemão, também tem o sentido de “ideia subida”, “insight”, “aquilo que vem à mente”. (N. do T.)
[52] Edouard Claparède [1873-1940], neurologista e psicólogo, fez sua formação na Alemanha, na França e na Suíça. Destacou-se pelos seus estudos nas áreas da psicologia infantil, da pedagogia e da memória. Um dos maiores expoentes europeus da psicologia funcionalista, suas teorias tiveram grande repercussão nos movimentos de renovação pedagógica da primeira metade do século XX. Em 1912 fundou o Instituto Jean-Jacques Rousseau: uma instituição genebrina dedicada à investigação e ao ensino da psicologia e da psicopedagogia. (N. do T.)
[53] Guillaume Vermeylen [1891-1943], psiquiatra belga, havia se tornado o primeiro diretor do Instituto de Psiquiatria no Hospital Brugmann, posto que ocupará de 1931 até a sua morte. Em 1932, foi nomeado professor de pedagogia na Universidade Livre de Bruxelas. (N. do T.)
[54] Sensações visuais produzidas, na ausência de luz, quando os olhos são mantidos fechados. (N. do T.)
[55] Sensações auditivas produzidas na ausência de som externo. (N. do T.)
[56] Dor num órgão ou numa região do corpo, sem corresponder a lesão anatômica. (N. do T.)
[57] Sensações anormais e desagradáveis sobre a pele que assume diversas formas: queimação, dormência, coceira, entre outras. (N. do T.)

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Sobre o Autor

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Linguista e tradutor, exerce a psicanálise na cidade de São Paulo. Bacharel e doutor em linguística pelo IEL-Unicamp, realizou pós-doutoramento no Depto. de Ciência da Literatura da UFRJ. Atuou como professor-associado junto ao Depto. de Língua Romena e Linguística Geral da Universidade Alexandru Ioan Cuza (Iaşi, 2009) e foi tradutor residente do Instituto Cultural Romeno (Bucareste, 2013). Organiza a coletânea “A psicanálise e os lestes” (Ed. Annablume) e é um dos editores da Revista Lacuna (www.revistalacuna.com).