02.12.1975 | Conferência no Instituto de Tecnologia de Massachusetts – MIT

[ Massachusetts  Insitute of Technology – MIT ]

Conférences dans les universités nord-américaines : le 2 décembre 1975 au Massachusetts Institute of Technology. Scilicet, 1975, n. 6/7, pp. 53-63.

A linguística é aquilo pelo qual a psicanálise poderia se enganchar à ciência.

Mas a psicanálise não é uma ciência, é uma prática.

Ao falar sobre isso comigo há pouco, o sr. Quine[1] me perguntou o que eu devia a Cl. Lévi-Strauss:[2] devo muito, se não tudo. Isso não me impede de ter uma noção de estrutura totalmente diferente da dele.

Penso que a estrutura não tem nada a ver com a filosofia, que raciocina sobre o homem do jeito que pode, mas coloca em seu centro a ideia de que o homem foi feito para a sabedoria.

Eu, em conformidade com o pensamento de Freud, não tenho amizade alguma pela sabedoria. Não faço filosofia porque está muito distante desse alguém que se endereça a nós que lhe respondêssemos pela sabedoria.

Tentei adensar, formular algo atinente à nossa prática, algo que seja coerente. Isso me levou a elucubrações que muito me preocupam.

Isso me levou a um ensino que conduzi com muita cautela. Passei a lecionar porque me pediram, sabe Deus por quê.

É claro que a prática depois de Freud se veicula de forma tal que é possível se perguntar se Freud realmente acreditou que sobreviveria por si só.

Da forma como ele fez, pode-se pensar que os formados pela própria prática tinham verdadeiramente autoridade para decidir o que o analista era. A pergunta à qual cheguei, “quem é capaz de ser um analista?”, levou umas quantas pessoas (54) ao meu redor a me deixar (isso em seguida à implementação de uma sondagem: como alguém, após uma experiência analítica, podia se colocar em posição de ser analista?).

Isso me levou bastante longe, como eu disse nas minhas conferências anteriores nos USA; os pontos a que isso me levou, não ouso dizer como sendo teoria: há, da análise, uma teoria? Sim, com certeza. Não estou certo de que tenho a melhor.

Depois de muito refletir, distingui duas bases. A referência ao corpo, primeiramente. Podemos perceber, pela análise, que do corpo ela só apreende o que há de mais imaginário.

Um corpo, isso se reproduz por uma forma.

Forma que se manifesta no fato de que esse corpo se reproduz, subsiste e funciona sozinho.

Do seu funcionamento não temos a menor notícia.

Nós o apreendemos como forma.

Nós o apreciamos como tal por sua aparência.

Essa aparência do corpo humano, os homens adoram.

Eles adoram, em suma, uma pura e simples imagem.

Comecei a enfatizar o que Freud chama de “narcisismo”, id est,[3] o nó fundamental que faz com que, para se fazer uma imagem daquilo que ele chama de “mundo”, o homem o concebe como essa unidade de pura forma que o corpo representa para ele.

A superfície do corpo, foi dali que o homem tirou a ideia de uma forma privilegiada. E a sua primeira apreensão do mundo foi a apreensão do seu semelhante. Daí, esse corpo, ele o viu; ele o abstraiu; fez dele uma esfera: a boa forma. Isso reflete a bolha, o saco de pele. Para além dessa ideia do saco envolto e envolvedor (o homem começou por aí), a ideia da concentricidade das esferas foi a sua primeira relação com a ciência como tal. Na ciência grega, vemos essa harmonia das esferas que agora pouco surpreende e da qual se pode dizer, com Pascal, que ela não existe mais.

“O centro está por toda parte e a circunferência, em parte alguma”, diz Pascal. Isso não quer dizer que ele tinha razão: o centro não está por toda parte. Isso quer dizer que devemos apreender algo de uma ordem diferente do espaço esférico.

Não é certo que a imagem da circunferência seja a melhor (55) representação de uma esfera, e foi assim que eu fui levado a abrir um caminho, a saber que o círculo não é a imagem correta de uma esfera; é a imagem de uma esfera quando se a secciona, isto é, quando se a aplana.

A folha de papel sobre a qual rabiscamos é muito sensível; não podemos fazer melhor do que aplaná-la.

Esse aplanamento, à medida que avançamos no mundo, tende a desfiar como se essa superfície sobre a qual projetamos tudo o que nos cerca tivesse furos.

E o círculo se caracteriza por fazer furo. Contrachoque: a ideia matemática da topologia. No mundo não há apenas círculos. Mas esses círculos podem dar nó entre eles. Foi por aí que a topologia começou. Foi por meio desses nós que me foi possível vincular com o que é da nossa experiência.

Esses nós, se há consistência fechada, circular, representável, desses três termos que usei, a partir de Freud:

— Da captura a partir da forma do corpo.

— Desse uso da fala, marcante, qualquer que seja a ideia que se possa ter do que condiciona, no humano, o fato de que ele fala. (É uma outra consistência.)

Devemos perceber que aquilo que chamamos de “lógica” não tem outro suporte além do logos. O estranho: percebemos mal e parcamente que essa lógica é circular. Ela só se sustenta, só se substantifica, essa lógica, fazendo círculo. O círculo vicioso é o bê-á-bá da lógica.

No momento em que que partimos da linguagem, é à linguagem que retornamos.

— Como, a partir daí, nós nos imaginamos atingindo um real que seja um terceiro círculo, por assim dizer; que a sua forma seja circular é o que nos escapa.

Real que seja totalmente real, isso…

Os primeiros lineamentos da ciência mostram o real para o olho humano como aquilo que, no céu, sempre retornava ao mesmo lugar: as estrelas ditas “fixas” (muito erroneamente, visto que giram; e, se giram, é porque somos nós que giramos). Isso não foi evidente de imediato.

Não há outra definição possível do real, a não ser que: é (56) o impossível; quando algo se encontra caracterizado pelo impossível, é só o real; quando nos trombamos, o real é o impossível de penetrar.

Sonhamos que ele seria elástico. Foi por isso que fui levado a escrever de outra forma o termo “existência”: ex-sistência. Aquilo que se depara com algo e aquilo com o qual algo se depara são, precisamente, as outras consistências.

Esses três termos:

— os que imaginamos como uma forma,

— os que consideramos circulares na linguagem,

— e essa ex-sistência tanto ao imaginário quanto à linguagem,

levaram-me à valorização daquilo pelo qual eles se atam entre si.

Em todo caso, é prática.

É uma corda, um fio veiculado por mim. Teve serventia, pelo menos nessa prática.

Esses três círculos, eu os nomeio, mas a ordem não é indiferente. Colorir introduz uma distinção, indica que eles são diferentes.

I, R, S estão soltos. Isso se vê pelo fato de que estão superpostos:

— primeiro I;

— embaixo, R;

— embaixo, S.

O S passa por baixo dos dois outros círculos. Tudo se passa como se os três círculos fossem independentes.

Então, o círculo que os ata deve

— apanhar o círculo que está embaixo,

— passar duas vezes por cima de I,

— retornar àquele que está embaixo para prendê-lo passando embaixo (figura 1). Passagem por cima do de cima, por baixo do debaixo, fundamental; essa figura 1 é exatamente a mesma que a figura 2; para obtê-la, basta puxar um pouco o círculo S.

Num outro desenho, pode-se, com os três círculos, fazer três retas (figura 3).

A figura com quatro círculos, figura 2, eu chamo de “figura da realidade psíquica”, e Σ é o sintoma.

O sintoma é a nota própria da dimensão humana.

(57)

(58)Deus talvez tenha sintomas, mas o seu conhecimento é provavelmente de ordem paranoica. Um Deus que criou o mundo com palavras, a gente se pergunta o que pode ser a consistência dele.

A especificidade da figura 2 é que isso constitui círculo: Σ+S, é o que faz um novo tipo de S. O sintoma é igualmente parte do inconsciente. A linguística é o que especifica aquilo cujo sintoma interpretamos.

Ao interpretar, entramos em circularidade com o Σ, conferimos pleno exercício ao que pode se suportar com lalíngua, enquanto o analisante, aquilo de que ele sempre dá testemunho, é do seu sintoma.

Não há melhor forma de marcar a pura diferença que a cor; assim, nesse enodamento particular, a coloração torna sensível que há duas espécies de nós borromeanos impossíveis de confundir.

Basta haver um círculo que se rompa para que os dois outros estejam livres, diferenciando o nó da cadeia onde só a ruptura de um círculo do meio liberta as extremidades.

É fácil perceber que esse nó borromeano pode ter tantos círculos quanto se queira.

Eu me contento com quatro.

O nó com três termos — R, S, I —, só há ele. Não podemos nos contentar com isso, pois, por não serem distinguíveis, esses três termos poderiam passar por uma nova forma de imaginário, de real, ou mesmo de simbólico: sem a matemática, não perceberíamos que esses três são trinitários.

A Trindade, nós a reencontramos o tempo todo. Especialmente no domínio sexual. Não é só um indivíduo que o fixa, mas também um outro; isso está marcado na experiência da análise em relações clínicas (clínicas: o analisante está num divã, trata-se de um certo clināmen[4] — cf. Lucrécio e os epicureus em seu nominalismo).

O suposto mistério da Trindade divina reflete o que há em cada um de nós, e o que isso ilustra melhor é o conhecimento paranoico.

Freud dizia que a análise era uma “paranoia arrazoada”; há essa face na análise.

Por si só, a análise confirma que, dessas três categorias, R, S, I, (59) os melhores representantes são os doidos. Os doidos de pedra não duvidam nem por um instante de estarem no real.

Isso poderia se prestar ao gracejo quanto à Trindade divina, porque a Trindade divina não é tão doida, tão deus-oida.

É justamente por isso que deve haver um quarto termo.

Sintoma e inconsciente: parafuso sem fim, círculo. E nunca se chega a desabafar tudo: Urverdrangung: há um furo.

É por isso que há um nó e algum real que permanece ali no fundo.

PERGUNTAS E RESPOSTAS

  1. – Pergunta a ROMAN JAKOBSON.

D’eux [deles] vem de de illis.

Deux [dois], de duo.

O fonema está destinado a apanhar o equívoco, ou é questão de acaso para o ouvido francês?

Não é esse equívoco (que é aquilo com o qual a interpretação joga) que coloca em círculo o sintoma e o simbólico?

Pois, intervindo de uma certa maneira no sintoma, a gente se vê equivocando. Há uma vertente da linguística tratável como tal?

Seria a vertente que é sempre aquela à qual um analista deve ser sensível: a fun.[5]

 Resposta: Há vários trabalhos sobre o assunto, em particular sobre as línguas indianas. Jackson,[6] especialista em afasias, escreveu sobre o trocadilho.[7] Só as línguas formalizadas (artificiais) é que não fazem trocadilho. E a gramática tende a atualizar o trocadilho.

  1. – Lacan no quadro negro.

A figura 1 é plana? Para o quarto círculo, é preciso perfurar. Os nós, isso é algo que se imagina e, mais exatamente, não se imagina. Os nós são a coisa à qual o espírito é o mais rebelde. É tão pouco conforme ao lado envolto-envolvedor de tudo o (60) que diz respeito ao corpo, que eu considero que se espatifar na prática dos nós é espatifar a inibição. A inibição: o imaginário seria formado de inibição mental.

O significante não é o fonema.

O significante é a letra. Só a letra é que faz furo.

  1. – Pergunta do sr. QUINE: A meta da análise é desfazer o nó?

Resposta: Não, isso se mantém firme.

Daria para aventar que, se Freud demonstra algo, é que a sexualidade faz furo, mas o ser humano não tem a menor ideia do que isso é.

Uma mulher se presentifica para o homem por meio de um sintoma; uma mulher é um sintoma para o homem.

  1. – A alma

A única coisa que me parece substantificar a alma é o sintoma.

O homem pensaria com a sua alma. A alma seria a ferramenta do pensamento. O que constituiria a alma dessa suposta ferramenta?

A alma do sintoma é algo duro, feito um osso.

Nós acreditamos pensar com o nosso cérebro.

Já eu penso com os meus pés, é só aí que encontro algo duro; às vezes, penso com os subcutâneos da fronte, quando me trombo. Vi eletroencefalogramas o suficiente para saber que não há sombra de um pensamento.

  1. – Os nós têm três dimensões?

Exatamente. O more geometrico,[8] o pensamento geométrico negligencia totalmente a realidade do espaço. Nós acreditamos conhecer algo da terceira dimensão por causa da visão binocular, mas funcionamos sempre em duas dimensões.

  1. – Pergunta do sr. QUINE: Os modelos sólidos nos dão uma ideia da terceira dimensão. Só que a visão não alcança.

Resposta: Dá para representar a terceira dimensão pela esfera armilar, mas ninguém pensou nesta figura aqui.

Os modelos dificilmente nos botam na terceira dimensão. Nós vivemos em cubos, pensamos estar em esferas.

Nada é menos certo que o fato de que tenhamos um interior.

Os dejetos talvez venham do interior, mas a característica do homem é que ele não sabe o que fazer com os seus dejetos.

A civilização é o dejeto, cloaca maxima.[9]

Os dejetos são a única coisa que testemunha que nós temos um interior.

IMPROVISO SOBRE O DISCURSO ANALÍTICO

 

— S1 é aquilo pelo qual se representa o sujeito: uma fala, o falasser. É na medida em que o sujeito diz qualquer coisa que isso vai no lugar da verdade.

 — O analista é incarnado por um simulacro de (a); ele é, em suma, produzido pelo dizer da verdade, tal como ele se dá na relação S1 → S2. O analista é, de certa forma, uma queda desse dizer e, enquanto tal, ele faz de conta que “compreende”, e é aí que ele intervém no nível do inconsciente.

— A verdade é caracterizada por esse S2: o analista só diz palavras; aquele que se supõe saber alguma coisa é o analista: pura suposição, é claro.

Esse S2, o que se supõe que o analista saiba, nunca é dito completamente; só é dito na forma de semidizer da verdade.

Foi por meio desse discurso analítico que fiz a distinção entre o que é enunciado e uma espécie de semidizer.

É na medida em que o analista é esse simulacro de dejeto (a) que ele intervém no nível do sujeito $, isto é, do que é condicionado

  1. pelo que ele enuncia,
  2. pelo que ele não diz.

O silêncio corresponde ao simulacro de dejeto.



[1] Willard Van Orman Quine (1908-2000), considerado o maior lógico e filósofo analítico da segunda metade do século XX, foi um dos mais influentes matemáticos, filósofos e lógicos norte-americanos do século passado. (N. do T.)
[2] Claude Lévi-Strauss (1908-2009), antropólogo francês, tem seu nome ligado ao estruturalismo, doutrina que influenciou fortemente s ciências sociais e a filosofia no século XX. Em 1949 havia publicado a sua primeira grande obra, As estruturas elementares do parentesco. (N. do T.)
[3] Do latim, “isto é”. (N. do T.)
[4] Do latim, “inclinação”, “pendor”. Na teoria desenvolvida por Lucrécio a partir da doutrina de Epicuro, designa o desvio imprevisível dos átomos, causado por um pequeno movimento aleatório. Uma espécie de livre-arbítrio que as coisas vivas por todo o mundo tem. (N. do T.)
[5] Do inglês, “divertida”. (N. do T.)
[6] John Hughlings Jackson (1835-1911) foi um neurologista britânico que propôs uma hipótese sobre a organização e o funcionamento do sistema nervoso divergente da concepção localizacionista então predominante. Cf. CAROPESO, F. (2008) A influência de Hughlings Jackson sobre a teoria freudiana da memória e do aparelho psíquico. Mental, vol. 6, n. 11. (N. do T.)
[7] Hughlings Jackson, J. (1887) The Psychology of Joking. Popular Science Monthly, vol. 32, January 1888. (N. do T.)
[8] Do latim, “ao modo geométrico”. A expressão surge uma única vez na Ética de Spinoza, notadamente no Prefácio da Terceira Parte. O autor a emprega “para caracterizar a forma como preferiu tratar dos afetos humanos, distanciando-se tanto de Descartes, que, embora tenha se empenhado em compreender os afetos por suas causas primeiras, supunha uma intervenção direta da alma sobre o corpo, e, portanto, a possibilidade de domínio desta sobre aqueles; quanto dos filósofos moralistas, os quais amaldiçoaram ou ridicularizaram os afetos, considerando-os como vícios ou desvios da natureza humana. […] Ao invés de simplesmente uma figura retórica, esta ordem diz respeito a uma maneira de pensar, a qual pretende alcançar demonstrações a partir de razões certas” Silva Ramos, C. (2020) A penúria das palavras. Spinoza e a linguagem. Cadernos espinosanos, n. 43, pp. 195-196. (N. do T.)
[9] Do latim, “o maior esgoto”. Um dos mais antigos sistemas de escoamento do mundo, construído na cidade de Roma para drenar os pântanos locais e remover os dejetos de uma das cidades mais populosas do mundo na época, despejando-os no Tibre. (N. do T.)

01.12.1975 | Conferência na Universidade de Columbia — Auditório da Escola de Relações Internacionais

[ Columbia University – School of International Affairs Auditorium ]

Conférences et entretiens dans des universités nord-américaines. Scilicet, 1975, n. 6/7, pp. 42-45.

O sintoma

Na análise, seja lá como for, é preciso dizer, há certos resultados. Nem sempre é o que se espera: é que não se tem razão em esperar, isso é o que constitui a dificuldade de ser analista. Os analistas, deles tentei especificar algo que denominei discurso analítico.

O discurso analítico existe porque é o analisante quem o exerce… por sorte. Ele tem a sorte, a sorte que algumas vezes é uma boa sorte, de ter encontrado um analista. Isso não acontece sempre. Com frequência o analista acredita que a pedra filosofal — se me permitem dizer assim — do seu ofício consiste em calar-se. O que estou dizendo aqui é bem conhecido. Ainda assim, é um erro, um desvio, o fato de que analistas falem pouco. Acontece de eu dar o que se chamam supervisões. Não sei por que chamaram isso de supervisão. É uma superaudição. Quero dizer que é muito surpreendente que se possa, para escutar o que lhes contou um clínico… é surpreendente que, por meio do que ele lhes diz, se possa ter uma representação daquele que está em análise, que é analisante. É uma nova dimensão. Vou falar disso daqui a pouco, a dimensão, que não escrevo exatamente como geralmente se escreve em francês. É melhor eu fazer um esforço e lhes mostrar como escrevo:

 dit-mension [diz-menção]

É assim que eu escrevo… diz-menção…, menção, isto é — em inglês, dá pra entender — mention, o lugar onde repousa um dito.

(43) Então, o analista, seja como for, tem coisas a dizer. Ele tem coisas a dizer ao analisante dele; àquele que, de todo modo, não está ali para encarar o mero silêncio do analista. O que o analista tem a dizer é da ordem da verdade. Não sei se os senhores têm, da verdade, algo muito sensível. Quero dizer: se os senhores têm uma ideia do que a verdade é. Todo discurso implica ao menos um lugar que é o da verdade. O que chamo de “discurso” está em referência a um laço social. A análise é dessa ordem. Exceto pelo fato de que, como é novinha em folha — porque, afinal, não data de tanto tempo assim —, ela comporta um pacto. Um analisante sabe que o analista irá atendê-lo um determinado número de vezes por semana e, em princípio, ele deve ir até lá. Caso contrário, o analista — mesmo que ele não tenha comparecido — reivindicará honorários. Naturalmente, isso implica que o analista também tem deveres. Ele deve estar lá. A verdade, a partir de quando isso começa?

Começa a partir do momento em que se emprega frases. A frase é um dizer.

E esse dizer é o dizer da verdade.

Em algum lugar eu não só disse, mas escrevi, que há uma nuance… há mais que uma nuance, há uma montanha entre o dizer e o escrito. Prova disso é que as pessoas se acreditam muito mais seguras com uma promessa quando têm o que se chama de “um papel”. Um papel que é um reconhecimento de débito, por exemplo. Esse papel, isso dá suporte à verdade da promessa. É difícil ver alguém dizendo: “Isso não fui eu que escrevi”. Em todo caso, é aí que entram os especialistas — a saber, os grafólogos —, que dizem: “É essa letra aqui, sim”, o que prova que uma escrita também tem algo de individual. Mas a escrita nem sempre existiu. Antes, havia a tradição oral. Isso não impedia que as coisas se transmitissem de voz a voz. A origem do princípio da poesia é isso.

Enunciei um determinado número de pontos sobre o que se passa com a verdade. É sustentável dizer que a verdade tem uma estrutura de ficção. É o que se chama normalmente de “mito” — muitas verdades têm uma existência mítica —; é bem nesse sentido que não se tem como esgotá-la, dizê-la toda. O que enunciei desta forma: da verdade só há semidizer. A verdade a gente diz como pode, isto é, em parte. Só que, do jeito como isso se (44) apresenta, se apresenta como um todo.

E é bem aí que jaz a dificuldade: é que cumpre fazer com que aquele que está em análise sinta que essa verdade não é toda; que ela não é verdadeira para todo o mundo; que ela não é — essa é uma ideia antiga —, que ela não é geral; que ela não vale para todos. Como é possível essa coisa de que haja analistas? A coisa só é possível pelo fato de que o analisante recebe cognição — por assim dizer — de observar uma regra, de só dizer o que ele pode ter pra dizer, só o que lui tient à cœur [cala fundo em seu peito], como se diz em francês. O que significa ecoar — mas não é porque uma coisa é um eco que ela é especificada… —, o que significa ecoar uma ideia muito antiga daquilo que era o centro do ser dito “humano”, que se chamava anthropos: o centro era o coração (thymos), pelo menos era assim que era chamado; o que estava sob o coração era epitimiano.[1] Mas era uma concepção que dava ao homem um privilégio. Havia dois tipos de homem: o que se especificava por ser de uma polis — lambda, iota, sigma —, por ser um cidadão… somente ele era um ser humano em pleno direito. É claro que tudo isso ficou turvo. O fato é que, por meio das diferentes estruturas, a relação dita “política” continua existindo. E ela existe de forma mais sólida que qualquer outra.

Eu abri o caminho para algo que chamei de “dizer a verdade”. O analista advertiu, antes de o postulante entrar em análise; advertiu que ele devia dizer tudo. O que quer dizer “dizer tudo”? Isso não pode ter sentido. Só pode querer dizer “dizer qualquer coisa”. De fato, é o que se passa. É por aí que se entra em análise. O estranho é que se passa algo que é da ordem de uma inércia, de uma polarização, de uma orientação. O analisante (se a análise funciona, se isso avança) passa a falar de forma cada vez mais centrada, centrada em algo que, desde o princípio, se opõe à polis (no sentido de cidade) — a saber, sobre a sua família particular. A inércia que faz com que um sujeito só fale em papai ou em mamãe é, ainda assim, um negócio curioso. Para dizer qualquer coisa, é curioso que essa inclinação se siga; que isso faça, isso acabe fazendo como a água, formando um afluente; afluente de retorno àquilo pelo qual se está ligado à própria família, isto é, pela infância. Pode-se dizer que aí se explica o fato de que o analista só intervém por uma verdade particular, porque uma criança não é (45) uma criança abstrata. Ela teve uma história e uma história que se especifica por essa particularidade: não é a mesma coisa ter tido a sua mamãe, e não a mamãe do vizinho; o mesmo para o papai.

Não é nada do que se acredita, um papai. Não é de modo algum necessariamente aquele que, numa mulher, fez um filho. Em muitos casos não há garantia alguma, dado que a mulher, afinal, pode acontecer bastante coisa com ela, sobretudo se ela vadiar um pouco. É por isso que o papai não é, de jeito nenhum, necessariamente, aquele que — é o caso de dizer — é o pai no sentido real, no sentido da animalidade. O pai é uma função que se refere ao real, e não necessariamente o verdadeiro do real. Isso não impede que o real do pai seja absolutamente fundamental na análise. O modo de existência do pai tem a ver com o real. É o único caso em que o real é mais forte que o verdadeiro. Digamos que o real, ele também pode ser mítico. Isso não impede que, para a estrutura, seja tão importante quanto todo dizer verdadeiro. Nessa direção está o real.

É muitíssimo inquietante. É muitíssimo inquietante que haja um real que seja mítico, e é justamente por isso que Freud conservou tão fortemente em sua doutrina a função do pai.

Bom. Até aqui eu falei lentamente para que pelo menos os senhores escutassem algumas verdades fundamentais, mas devo lhes dizer o seguinte: é que, como leciono há muitíssimo tempo, não consigo nem lembrar o que disse da primeira vez — aquela que os senhores irão encontrar reproduzida no Seminário I, agora publicado… já tem quase vinte e dois anos… publicado como reprodução do meu seminário.[2] Confio no estenógrafo, na pessoa que se dispôs a garantir que as coisas fossem colocadas no francês dela; é alguém muito bom, de minha família imediata, que se dispõe a fazer o trabalho.[3]

O que enunciei primeiro concernindo ao dizer, ao dizer da verdade, é a prática que nos ensina. E encetei, no que acabo de enunciar… encetei o seguinte: que se trata de uma par-dita, uma análise. Uma partida entre alguém que fala, mas que foi advertido de que o seu falatório tinha importância. Os senhores sabem que tem gente, com quem se tem de lidar na análise, de quem obter isso é dureza. Há pessoas para quem dizer algumas palavras não é tão fácil. Chama-se isso de autismo. É uma forma rápida de dizer. Não é, de modo algum, necessariamente isso.

São simplesmente pessoas para as quais o peso das palavras é muito (46) sério e que não estão facilmente dispostas a ficar à vontade com essas palavras. Às vezes tenho de responder a casos como esses, naquela famosa supervisão de há pouco, que, de forma mais simples, em francês chamamos de contrôle (o que não quer dizer, é claro, que acreditamos controlar alguma coisa). Com frequência, nas minhas sessões de controle — pelo menos no início —, eu mais encorajo o analista — ou aquele ou aquela que acredita ser um —; eu encorajo a seguir o seu movimento. Não acho que seja sem razão — não que ele se coloque nessa posição, é muito pouco controlado —; mas não acho que seja sem razão que alguém lhe venha contar algo em nome simplesmente do seguinte: que lhe disseram que era um analista. Não é sem razão porque ele espera algo com isso. Agora, aquilo de que se trata é compreender como o que acabo de lhes retratar aqui, em linhas muito gerais, pode funcionar.

Funcionar de forma tal que, mesmo assim, o laço social constituído pela análise ricocheteie, se perpetue. Foi aí que tomei partido e disse… — em algo onde, de um lado, há alguém que fala sem a menor preocupação em se contradizer, e do outro, alguém que não fala —, já que, na maior parte do tempo, cumpre justamente deixar a palavra àquele que ali está para alguma coisa; quando ele fala, supõe-se que esteja dizendo a verdade, mas não qualquer uma, e sim a verdade que é preciso que o analisante escute. Que é preciso que o analisante escute: para que? Para o que ele espera, a saber: se ver livre do sintoma.

O que é que pode supor que, por dizer, alguém se veja livre do sintoma? Isso supõe que o sintoma e essa espécie de intervenção do analista — me parece que é o mínimo que se possa aventar — são da mesma ordem. O sintoma, ele também diz alguma coisa. Ele diz, ele é uma outra forma de dizer a verdade; e o que, em suma, o analista faz é tentar fazer um pouco mais do que deslizar por cima. É justamente por isso que a análise, a teoria analítica usa um termo como “resistência”. O sintoma, isso resiste; não é algo que vai embora sozinho; mas apresentar uma análise como algo que seria um duelo também é totalmente contrário à verdade; é justamente por isso que eu — com o tempo, isso não veio de imediato — tentei construir alguma coisa que prestasse contas do que se passa (47) numa análise. Não tenho a menor “cosmovisão”, como se diz.[4] O mundo é essa conchinha encantadora na qual se coloca no centro esta pedra preciosa, esta coisa única que seria o homem. Ele deve ter (dado esse esquema) coisas que nele palpitam: um mundo interno. E então, o mundo seria um mundo externo. Não acredito de jeito nenhum que isso baste. Não acredito de jeito nenhum que haja um mundo interno reflexo do mundo externo, tampouco o contrário. Tentei formular alguma coisa que, incontestavelmente, supõe uma organização mais complicada. Se dizemos — nós, analistas — que há um inconsciente, é com base na experiência. A experiência consiste no seguinte: é que desde a origem há uma relação com “lalíngua”, que merece ser chamada, justificadamente, de “materna”, porque é pela mãe que a criança — se me permitem dizer assim — a recebe. Ela não a aprende. Há uma inclinação. É muito surpreendente ver como uma criança manipula muito cedo coisas tão notavelmente gramaticais quanto o uso das palavras “talvez” ou “ainda não”. É claro que ela escutou, mas que compreenda o sentido delas é algo que merece toda a nossa atenção.

Há na linguagem algo que é estruturado. Os linguistas se guarnecem nisso, em manifestar essa estrutura que se chama de “gramatical”. E que a criança esteja tão à vontade com isso, que tão cedo ela se familiarize com o uso de uma estrutura que — não foi à toa que a localizaram aí, mas de uma forma elaborada — é o que se chama de “figuras de retórica”, manifesta que não se ensina a gramática pra ela. Elabora-se a gramática a partir do que já funciona como fala. E isso não é o que há de mais característico. Se empreguei o termo: “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, é justamente porque quero sustentar que uma linguagem não é a linguagem. Há algo na linguagem já demasiado geral, demasiado lógico.

É todo o sistema que se apresenta como se fosse inato que a criança executa, a propósito de uma saída da mãe, com o enunciado que tanto impressionou Freud — aquele com um dos netos dele —, o enunciado Fort-Da. É aí que tudo se insere. Esse Fort-Da já é uma figura de retórica.

Alguém me deixou bastante surpreso por ter me citado, porque sequer sabia que ele me conhecia — ele obviamente me conhece (48) por meio de Paul de Man: Paul de Man, que me recebeu em Yale; Paul de Man, a quem, é claro, só posso agradecer por todo o cuidado que despendeu pra garantir minha chegada às Américas —; mas, mesmo assim, fiquei surpreso com o fato de que tantas pessoas, afinal, dizem certas coisas que não estão tão distantes do que eu digo … Acontece em vários lugares uma espécie de pequeno turbilhão, uma maneira de dizer que é o que eu chamo de “estilo”. Não tenho “cosmovisão”, mas tenho um estilo; um estilo que, naturalmente, não é totalmente fácil, mas aí está todo o problema. O que é um estilo? O que é uma coisa? O que é a forma como um estilo se situa, se caracteriza? Eu, na época em que falava somente com camaradas, o que era mais natural era dizer “não é bem isso”; e se aquilo que escrevi depois de ter dito… se aquilo que eu escrevi, elaborando o que eu disse, tem um carimbo, é o de marcar que tento chegar o mais perto possível do que é “bem isso”. É claro, não é fácil; não é fácil partir, como fazem por exemplo os estruturalistas, de uma divisão entre natureza e cultura. De minha parte, a cultura foi o que tentei esquartejar na forma de quatro discursos, mas é claro que isso não é limitante. É o discurso que flutua, que sobrenada na superfície da nossa política; digo, da nossa forma de conceber um determinado laço social. Se o laço era puramente político, nós acrescentamos outra coisa. Acrescentamos o discurso que se chama “universitário”, o discurso que se chama “científico”, que não se confundem, contrariamente ao que se imagina. O discurso científico, não é à toa que, no campo universitário, lhe reservam faculdades especiais. Afastam-no, mas não é à toa. Eu mostrei em algum lugar que há uma relação, que não é anódina, entre o discurso científico e o discurso histérico. Isso pode parecer bizarro — num certo encadeamento próximo de certas funções que defini empregando um certo S1 e um certo S2, que não têm a mesma função, e também um certo S que chamo de “sujeito” e um certo objeto (a), numa certa ordem de rotação próxima dessas quatro funções —, o discurso científico não se distingue do discurso histérico, a não ser pela ordem na qual tudo isso está distribuído.

(49) Tudo isso desembocou em algo que se pode desenhar empregando várias cores diferentes. Acreditei poder ligar o simbólico (este aqui, o arbitrário), o real e o imaginário.

Como é que pode — tendo distinguido esse simbólico, esse imaginário e esse real, e tendo-os especificado com base no fato de que o simbólico é o nosso elo com a linguagem — ser com base nessa distinção que somos seres falantes? É um círculo vicioso dizer que somos seres falantes. Somos “falasseres”, palavra pela qual é vantajoso substituir o inconsciente, equivocando com o falatório, de um lado, e com o fato de que é da linguagem que puxamos essa loucura de que há ser: porque é claro que acreditamos nisso, acreditamos nisso por causa de tudo o que parece constituir substância; mas em que isso é ser, afora o fato de que a linguagem usa o verbo “ser”? Ela usa o verbo “ser”, mas moderadamente. O homem poderia dizer que ele é um corpo, e isso seria muito sensato, pois é evidente que o fato de que ele consiste num corpo é o que ele tem de mais certo. Emitiram-se algumas dúvidas sobre a existência de um mundo externo em nome do fato de que, afinal, dele só temos percepções, mas é suficiente criar (como eu mesmo fiz há pouco), criar um galo ao trombar com algo duro pra que fique totalmente manifesto que há coisas que resistem, que há coisas que não se deslocam tão facilmente; em contrapartida, isso em que o homem insiste é não que ele é um corpo, mas sim, como ele se exprime (aí está uma coisa impressionante), que ele tem um.

Em nome de que ele pode dizer que tem um corpo? Em nome de ele o tratar de qualquer jeito, de o tratar feito mobília. Ele o coloca em vagões, por exemplo, e ali se deixa arrastar. Também era verdade, porém, que isso já estava querendo começar (50) quando ele o colocava em charretes. Então, gostaria de dizer que essa história de falasser vai ao encontro dessa outra apreensão do corpo, e isso não acontece sem mais nem menos. Estou querendo dizer que um corpo tem uma outra forma de consistir que não aquela que designei sob uma forma falada, sob a forma do inconsciente, na medida em que é da fala como tal que ele surge. São marcas das quais vemos o rastro naquilo que é inconsciente. São marcas que são aquelas deixadas por uma certa forma de ter relação com um saber, que constitui a substância fundamental do que é inconsciente. O inconsciente, nós imaginamos que é algo como um instinto, mas não é verdade. Carecemos totalmente de instinto, e a forma como reagimos está ligada não a um instinto, mas a um determinado saber veiculado não tanto por palavras, mas pelo que chamo de “significantes”. Significantes são aquilo que diz; são uma retórica, é claro, muito mais profunda; são o que se presta ao equívoco. A interpretação deve sempre — para o analista — levar em conta o fato de que, no que é dito, há o sonoro, e que esse sonoro deve estar em consonância com o que é inconsciente.

Há algo importante nessa forma de representar o elo — o elo do simbólico, do imaginário e do real —, e a questão é a seguinte. É que não é necessariamente de forma planificada que devemos colocar esses três termos. O corpo, é claro, também tem forma, uma forma que acreditamos ser esférica; mas devemos também saber desenhar as coisas de outro modo.

Como veem, é notável que, para um objeto que me é tão familiar quanto os senhores podem (51) imaginar que me seja essa forma de desenhar o nó… que eu seja forçado a guardar um papelzinho. Quer dizer que não é tão natural desenhar isso assim.

Isto aqui é, portanto, um nó.

Espero que todos estejam vendo que isso dá nó. O que isso quer dizer? Quer dizer que, aos olhos dessa referência à esfera, 1 envolve 2. O 1 em relação ao 2, pode-se muito exatamente fazer com que ele o volteie, assim como se pode fazer com o que o 1 se faça voltear pelo 2. Mas o que quer dizer o fato de que o 3 esteja disposto dessa forma aqui? Ele está disposto de uma forma que é tornada sensível por essa maneira de dispor o que na ocasião chamamos de a esfera e a cruz — tirante o fato de que não é uma esfera, mas uma rodela. Uma rodela não é, de jeito nenhum, a mesma coisa que uma esfera. Suponham que eu aperte isto no meio e vamos obter o seguinte, que é uma forma a mais do que podemos enunciar como sendo um nó borromeano.

Quero dizer que, de qualquer forma que o número 3 aqui envolva o 1, ele é envolto pelo outro, mas é envolto pelo outro numa terceira dimensão. Contrariamente ao que se imagina — nós que somos ambiciosos e que passamos o nosso tempo a sonhar com uma quarta —, faríamos melhor em (52) pensar no peso que a diz-mensão terceira tem (aquela que descrevi há pouco). Seria preciso se maravilhar com a terceira antes de fazer mais uma. Não há nada mais fácil do que fazer mais uma. Quando elas estão todas separadas, a saber, se supomos três círculos… todos se afastando à deriva, basta fazer um quarto; basta anexar a ele um círculo de uma forma que constitua uma rodela para que tornemos a encontrar o que constitui a consistência desses círculos.

Depois de lhes ter fornecido desses nós o dado que desemboca nessa noção de que não há espaço, de que só há nós — ou, mais exatamente, de que é em função dos nós que pensamos o espaço —, agora, já que não estou terminando tarde demais…, ficaria feliz em ouvir as perguntas dos senhores…



[1] Do grego ἐπιθυμία [epitimia]: desejo intenso, anseio, paixão. Na medicina: o desejo que sentem as gestantes. (N. do T.)
[2] O volume havia sido publicado em francês naquele mesmo ano. Cf. J. Lacan ([1953-54]1975) O seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud. Trad. B. Milan. Rio de Janeiro: Zahar, 1986. (N. do T.)
[3] Referência a Jacques-Allain Miller (1944-), casado com Judith Miller (1941-2017), que era filha de Lacan com Sylvia Bataille (1908-1993). (N. do T.)
[4] No original, “conception du monde”. Expressão francesa que comumente traduz o termo alemão Weltanschauung (visão de mundo, cosmovisão). Cf. S Freud (1933) “Novas conferências introdutórias à psicanálise” In: Obras completas, vol. 18: “O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos”. Trad. P. C. de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (N. do T.)

25.11.1975 | Conferência na Universidade de Yale — Auditório da Escola de Direito

[ Yale University – Law School Auditorium ]

 

Conférences et entretiens dans des universités nord-américaines. Scilicet, 1975, n. 6/7; pp. 38-41.

 

A histérica produz saber.

A histérica é  um  efeito;  como  todo  sujeito  é  um  efeito.  A histérica  força a “matéria significante” a confessar, e por isso constitui um discurso.

Foi Sócrates quem começou.

Ele não era histérico, mas bem pior: um mestre sutil. Isso não impedia que ele tivesse sintomas histéricos: acontecia de ele ficar num pé só e não conseguir mais se mexer, sem meio algum de tirá-lo do que chamamos de “catatonia”. E isso não impedia que ele tivesse muitos efeitos: como a histérica, ele paria qualquer um com o seu saber; com um saber que, em suma, ele próprio não conhecia.

Isso parece o que Freud, tarde da vida, chamou de “inconsciente”; Sócrates, de certa forma, não era nada mal como analista.

O escravo se define pelo fato de que alguém tem poder sobre o seu corpo. A geometria é a mesma coisa, isso tem bastante a ver com o corpo.

O corpo tem como propriedade o fato de que ele é visto, e mal. Acredita-se que é uma bolha de ar, um saco de pele. Aqui se trata de suporte, de figura, isto é, de imaginário, com um material que afirmo como real (do outro lado, a primeira figura).

Como o escravo reagia?

Ele sabia que o mestre colocava um preço em seu corpo; ele era uma propriedade, e só isso o protegia. Ele sabia que o seu corpo o mestre não iria retalhar: pouco provável que o seu corpo fosse despedaçado. Ao mesmo tempo, sabia que estava a salvo de um bocado de coisas.

(39)

R, I e S são estritamente independentes. Se puxamos o S para o fundo, totalmente para trás, o nó então se encontra tracionado no R em quatro pontos (que, sem dúvida, poderiam se aproximar mais), mas isso necessita que o I tracione o S; tem-se, então, o seguinte:

(40) No que se diz, mentir te impera: tempera.[1] O quarto círculo é o sintoma.

Entre o corpo na medida em que ele se imagina e aquilo que o liga (a saber, o fato de falar), o homem imagina que pensa. Ele pensa na medida em que fala. Essa fala tem efeitos sobre o seu corpo. Graças a essa fala, ele é quase tão esperto quanto um animal. Um animal se vira muitíssimo bem sem falar.

O real: introduzir esse termo já faz a gente se perguntar o que está dizendo. O real não é o mundo externo; é também a anatomia, isso tem a ver com o corpo todo.

Trata-se de saber como tudo isso se ata.

O mínimo exigível era que, desses três termos — imaginário, simbólico (a saber, o falatório), real —, cada um fosse estritamente igual aos dois outros, atado de forma tal que o jogo ficasse empatado.

Procuro fazer uma outra geometria que enfrentaria o que se passa com a cadeia. Isso nunca, nunca foi feito.

Essa geometria não é imaginária, como a dos triângulos; é real, círculos de barbante.

Suponham que o corpo, o falatório e o real vão por água abaixo cada um para o seu lado…

O isso de Freud é o real.

O simbólico, ao qual o supereu compete, isso tem a ver com o furo.

Se é preciso um elemento quarto, é o que o sintoma realiza, na medida em que forma um círculo com o inconsciente.

Se quisermos colocar o real e o imaginário em ambas as pontas, teremos:

(41) Se erguemos uma barra horizontal ou se puxamos para direita ou esquerda a linha vertical, vocês ficam encurralados; isso dá nó.

(A reta é equivalente ao círculo de barbante, caso se suponha aí um ponto no infinito.)

O sintoma é o que muitas pessoas têm de mais real; para algumas pessoas, daria para dizer: o simbólico, o imaginário e o sintoma.

O gozo fálico está na junção do simbólico com o real, fora do imaginário, do corpo, enquanto algo que parasita os órgãos sexuais.

 



[1] Ou ainda, mantendo a mesma chave de homofonia entre as línguas: “o que se diz, mente”; “o que se desmente”. Em francês, Lacan faz um jogo entre ce qu’on dit ment [o que se diz mente] e ce condiment [esse condimento]. (N. do T.)

27.11.1933 | Alcoolismo subagudo com pulso normal ou retardado: coexistência da síndrome de automatismo mental

[ Alcoolisme subaigu à pouls normal ou ralenti. Coexistence du syndrome d’automatisme mental ]

Comunicação realizada por Georges Heuyer [1884-1977] e Jacques Lacan [1901-1980], em 27 de novembro de 1933, junto à Sociedade Médico-Psicológica de Paris.

Les Annales Médico-Psychologiques, 1933, vol. 2, n. 4, pp. 531-546.

Os autores das primeiras descrições do delírio subagudo alcoólico notaram suas múltiplas variedades de formas. Lasègue,[1] que descreveu o delírio das perseguições[2] e o delírio alcoólico subagudo,[3] reuniu as oposições semiológicas entre essas duas entidades mórbidas novas com as quais dotou a psiquiatria. Ele considera os casos em que a clínica exibe uma mistura dos traços característicos de cada uma das formas como fatos de associação mórbida, em que a suspensão do tóxico faz facilmente com que se reencontre o delírio de perseguição permanente e puro. Todavia, nas observações de delírio alcoólico subagudo que ele relata, percebe-se que em algumas delas[4] predominam as alucinações auditivas verbais; que a agitação motora correlativa à extrema mobilidade das alucinações visuais é menor; que a ansiedade não é tão viva; que o delírio assume uma forma de ameaça menos imediatamente iminente e mais parece uma tentativa de demonstração razoada e sistemática.

Esses casos de delírio subagudo fazem parte das próprias características que Lasègue atribuiu ao “delírio das perseguições”.

Magnan[5] retomou, nos mesmos termos que Lasègue, a oposição dos dois termos clínicos. Em seu memorial sobre o alcoolismo para o Prêmio Civrieux,[6] em 1872, ele precisa as características próprias às alucinações do delírio subagudo.[7] Define-as como fastidiosas, móveis, tendo como objeto as ocupações ordinárias e as preocupações dominantes do doente; analisa sua grande variedade sensorial, mas pouco insiste acerca das alucinações auditivas — que seriam, segundo ele, sensações acústicas simples antes de se tornarem alucinações verbais. Com o auxílio de uma frase do próprio Lasègue, ele opõe a mobilidade desse delírio à estereotipia do delírio crônico. Mas a classificação evolutiva que ele faz dos delírios subagudos leva-o a agrupar “certos doentes predispostos, acometidos por delírio alcoólico, com recaídas frequentes e convalescência muitas vezes entravada por ideias delirantes, afetando mais ou menos a forma do delírio parcial”. Os casos que ele cita distinguem-se (532) pela predominância das alucinações auditivas verbais e das interpretações delirantes, no sentido moderno do termo.

Insistimos nesses pontos históricos para mostrar como, desde o início, colocou-se a questão do terreno para a eclosão de certas formas especiais do delírio subagudo tóxico.

Não vamos entrar na história das inúmeras pesquisas que essa questão suscitou. Trata-se sobretudo de estudos fisiológicos que tendem a precisar o terreno neurovegetativo. Queremos trazer aqui apenas a contribuição de um simples fato clínico. Sua constatação nos foi facilitada pela precisão trazida, na pesquisa das alucinações auditivas verbais, pela dita síndrome de automatismo mental. Foi a pesquisa metódica dos diversos elementos dessa síndrome que nos permitiu isolar um grupo de casos que responde a uma individualidade pressentida e indicada por Lasègue e por Magnan, e cujas características veremos. Em algumas observações de alcoolismo subagudo, encontramos um pulso normal ou retardado, cuja correlação clínica com alguns elementos da síndrome de automatismo mental nos parece totalmente importante como valor prognóstico e como significação patogênica. Nas descrições que são feitas do alcoolismo subagudo, ou delirium tremens,[8] é clássico descrever a aceleração do pulso; esse sintoma, mais ainda que o tremor, é um elemento importante do prognóstico vital. Porém, num determinado número de observações que um de nós pôde fazer por muitos anos na Enfermaria Especial do Comando de Polícia,[9] alguns alcoólicos subagudos apresentavam pulso normal ou retardado, ao mesmo tempo que existiam alucinações auditivas, e por vezes, uma síndrome completa de automatismo mental, com um mínimo de alucinações visuais. Relataremos, primeiro, as nossas observações que permitirão evidenciar os fatos clínicos essenciais.

Classificamos nossas observações em três grupos. Num primeiro grupo, trata-se de formas subagudas reais que terminaram em cura. Num segundo grupo, trata-se de doentes que evoluíram ulteriormente para um delírio crônico de perseguição. Por fim, num terceiro grupo, o alcoolismo apenas conferiu uma nova coloração a um desequilíbrio que já existia anteriormente.

(533) OBSERVAÇÃO I. – Maurice K., 40 anos, internado por um de nós em 4 de fevereiro de 1932, com o seguinte laudo:

Enfermaria Especial, 4 de fevereiro 1932.
Alcoolismo crônico. Ideias delirantes de perseguição. Alucinações auditivas muito ativas. Escuta vozes através das paredes. Injúrias. Ameaças. Proposições obscenas. Eco dos atos e das leituras. Interpretações: foi intoxicado ccom cocaína. Meio erótico empregado para intoxicá-lo. Bando de inimigos que ele conhece e que, por intermédio de “Ripa”, quer dar um sumiço nele. Sem confusão. Sem onirismo visual. Foi espontaneamente prestar queixa na delegacia de polícia. Pele quente e úmida. Tremor digital e lingual. Tendência à miose. Pulso 72. Excesso de bebida (3 litros, mais aperitivos e cafés com licor). Obesidade. Início há 3 semanas.

Ass.: Dr. Heuyer.

Aqui, o laudo de entrada emitido em Sainte-Anne[10] e em Villejuif:[11]

Entrada, Manicômio de Sainte-Anne, 5 de fevereiro de 1932:
Acometido de alcoolismo com alucinações fastidiosas e ideias de perseguição, excitação passageira e pedido de socorro na delegacia, insônia.

Ass.: Dr. Simon.[12]

Entrada, Manicômio de Villejuif, 7 de fevereiro de 1932:
Alcoolismo crônico. Episódio subagudo recente. Corrige atualmente o seu delírio e reconhece a sua origem. A ser mantido em internação provisória.

Ass.: Dr. Maurice Ducosté.[13]

Alguns dias depois de sua entrada no Manicômio de Villejuif, um de nós o examina, com a autorização do Dr. Ducosté. Ele se encontra na presença de um sujeito um pouco obeso, que responde com precisão às perguntas e parece ter reduzido em parte as suas crenças delirantes.

Todavia, observa-se certa mímica ansiosa, fórmulas de perplexidade, modificações do tom da voz quando fala de seu delírio recente.

Havia dado entrada, diz ele, em 31 de janeiro de 1932 no Hospital Tenon,[14] e só conseguiu ficar quatro dias por causa de sua agitação.

Fazia dez dias que escutava vozes. Elas lhe diziam: “Você vai morrer, seu imundo”, e então: “indecências, sacanagens: Vai se f… !”. “Tinha a impressão de que queriam me matar”.

Há um diálogo entre as vozes hostis e outras vozes favoráveis: “Você vai morrer sifilítico num hospital”. Ao que outras (534) vozes respondem: “Vem com a gente: é uma pena te deixar morrer assim. Você vai ter dinheiro”. As próprias vozes hostis reconhecem a injustiça da sina dele: “Você foi corajoso e trabalhador; é uma pena, mas você vai morrer”. Outras vezes, elas o ficam tentando: “Entre para a nossa sociedade. A gente vai te dar 6.000 francos”.

O elemento de iminência ansiosa próprio ao tóxico alcoólico aparece no conteúdo das palavras que marcam os intervalos de tempo próximos da ameaça: “Você vai estar morto amanhã de manhã…, às 9 horas, vou te matar”.

Essas vozes eram sussurradas. No entanto, reconhecia os seus interlocutores, eram dois vizinhos dele: Trub…, com que havia tomado “umazinhas”, e Bout… Das palavras de encorajamento e dos sinais de compaixão, quem se encarregava era “a mulher de Trub…”.

Os sutis fenômenos do automatismo mental não estavam ausentes da síndrome. Será que ele pensava na mulher dele? “Ele pensa na mulher dele”, diziam as vozes. Na filha dele? “Ele pensa na filha dele”. De igual maneira, os seus atos eram comentados. Se assumisse uma postura indiferente em relação aos inoportunos, escutava o seguinte: “Ele é esperto; ele lê o jornal dele”. Esse jornal, atrás do qual ele se refugiava, “era lido em voz alta ao mesmo tempo que ele o lia no hospital”.

Nota-se a percepção de maus cheiros sem verdadeira convicção delirante. Por outro lado, as vertigens, as contrações que experimenta, lhe haviam feito acreditar que estava envenenado: “Me veio à cabeça que era cocaína”.

Havia uma estreita intricação desses fenômenos alucinatórios com as interpretações. Se imputou uma grande parcela desses fenômenos aos seus vizinhos de leito no hospital, justamente em razão dessa vizinhança (“eles fingiam um barulho de arma”), compreendeu bem o sentido simbólico de algumas das atitudes deles: “Me fizeram entender que era um bando de gente ruim”.

A insônia existia há vários meses, assim como os pesadelos que se relacionavam com o “seu trabalho ou com algo que não estava indo bem”. Ele sentia espasmos, câimbras.

Operador de torno e válvulas, o sujeito entregou-se ao alcoolismo depois da morte da mulher, que ocorrera há pouco menos de um mês. Três litros de “vinho meia-boca” por dia, reforçado com inúmeras “doses” à noite (Byrrh, Turin e Mandarin), constituíram sua dieta desde então.

Antecedentes. – A mulher morreu de tuberculose. Um filho morreu com 4 dias, tem uma filha saudável. Teve uma icterícia em 1918 e gripe em 1932. Atualmente, está com a barriga um pouco grande, o fígado grande, um pouco de (535) tremor. Suas pupilas são desiguais, D>E; reagem bem à luz. O pulso está em 80. Está bem orientado.

Sai do manicômio em 3 de março de 1933 considerado curado. Não foi observado desde então.

OBSERVAÇÃO II. – Eis aqui uma outra observação, talvez menos típica, na qual a síndrome tem uma evolução mais lenta, constituiu um episódio isolado, sem recidiva, e terminou em cura.

Henri N., motorista, 36 anos. Internado por um de nós em 14 de junho de 1931:

Alcoolismo crônico, ataques subagudos, estado confusional. Amnésia. Desorientação. Obtusão.[15] Onirismo. Perseguição por três indivíduos, dois homens e uma mulher, que o vigiam por um buraco no teto; estão armados e o ameaçam. Alucinações auditivas. Calma exposição dos fatos. Poucos elementos visuais. Demanda espontânea de proteção aos agentes. Congestão cefálica. Tremor lingual e digital. Pulso 64.

Ass.: Dr. Heuyer.

Um de nós o atende em Sainte-Anne e se encontra na presença de um sujeito que já não está desorientado, mas permanece marcado por uma nítida obtusão intelectual. O tipo do delírio é onírico, com ráptus de fuga, que é a origem de uma série de migrações domiciliares. Não obstante, é muito preciso acerca das alucinações auditivas; ele as interpreta. “Queriam fazer com que saísse do quarto para alugá-lo por um preço mais alto”.

O etilismo é antigo e foi reforçado por um desemprego recente.

O sujeito escreve ao Chefe do Comando de Polícia para protestar contra a internação. A redução das alucinações auditivas foi rápida, mas em setembro do mesmo ano, constatamos a persistência da convicção delirante, dirigida contra a senhoria do seu hotel. Um ano depois da internação, um de nós torna a atendê-lo em Ville-Évrard.[16] A convicção delirante está reduzida. O doente trabalha e é bem avaliado. Está bem orientado, mas conserva certa bradipsiquia. Ainda possui uma coloração subictérica e um tremor digital e lingual. Seu pulso está em 56.

Ele sai em julho desse segundo ano de internação e seis meses depois recupera sua carteira de habilitação.

OBSERVAÇÃO III. – Gelino F., 31 anos, internado em 14 de março de 1932 por:

Alcoolismo crônico. Confusão leve. Orientação imperfeita. Automatismo mental. Alucinações auditivas. Vozes de debaixo do piso. Controle e eco do pensamento e dos atos. Alucinações psicomotoras. Pensamentos alheios. Distúrbios cenestésicos. Espasmos “neurostênicos”. Mínimo de interpretações. Um jovem (536) amigo seu parece ser a causa. Sem sistema de perseguição. Ansiedade. Medo de ser guilhotinado. Marcha automática, pés descalços, no meio da rua. Confessa excesso de bebida (vinho, aperitivos, aguardente). Tremor digital e lingual. Pesadelos zoopsíquicos. Pulso: 72.

Transferido para a Itália.

Notamos, no limite desses delírios subagudos, em que o automatismo mental existe ao menos na forma de alucinações auditivas, delírios com predominância interpretativa que são, eles próprios, correlatos de um pulso retardado.

OBSERVAÇÃO IV. – Dim. P., jornaleiro, 40 anos, internado em 13 de junho de 1931, com o seguinte laudo:

Ideias delirantes de perseguição. Interpretações mórbidas. Há três anos, é seguido pela polícia. Avisam dos seus passos por toda parte. Quando ele quer trabalhar, o chefe é avisado. Probabilidade de alucinações auditivas. Escuta vozes com injúrias, alusões. Provável onirismo. Perseguição por indivíduos na rua. Ele os vê afiando as suas facas. Pesadelos. Sonhos de premonição. Preso por ter jogado uma pedra na fachada do jornal Le Matin [A Manhã]. Alcoolismo crônico. Rosto vultuoso.[17] Tremor digital e lingual. Confusão leve. Pulso: 64. Sífilis. Cancro em 1919. Algumas injeções intravenosas.
Sem sinais neurológicos.
Começo de leucoplasia comissural. Ex-legionário.

Ass.: Dr. Heuyer.

Mantido em internação há um ano por persistência das ideias de perseguição. Diz-se perseguido pela polícia e acusado de espionagem. Já teria estado internado em Marselha três anos atrás.

II

Relataremos agora observações em que a questão do terreno é colocada, seja pela nota especial das reações, seja pelas recidivas do delírio, seja por sua evolução para a cronicidade. Nessa série de observações, há ainda coexistência de alucinações auditivas verbais e de um pulso lento, mas diversos elementos permitem fazer com que se leve em conta a noção de um terreno particular.

Relataremos, primeiro, observações que uma nota melancólica com ideias de autoacusação, e frequentemente uma reação suicida, caracteriza.

As recidivas da intoxicação são frequentes e reproduzem-se com a mesma nota depressiva. A hereditariedade parece muitas vezes estar envolvida e transições para a cronicidade são encontradas.

(537) OBSERVAÇÃO V. – Pierre-François B. se apresenta no dia 7 de janeiro de 1931 à delegacia de polícia da sua comuna e acusa-se de ter cometido uma dezena de estupros e atentados ao pudor. Ele é enviado para a Enfermaria. É internado por um de nós com o seguinte laudo:

Pierre-François B., 24 anos, encanador-telhadista.
Alcoolismo crônico. Ataques subagudos. Estado confusional leve. Distúrbios da memória. Perseguido por um bando de ciganos que entram em sua casa, esperam por ele à porta, dão tiros de revólver; eles o levaram para a caravana e furaram-lhe o rosto. Na casa dele, colocaram um véu numa parede, uma espécie de tela sobre a qual desfilavam homens e mulheres. Alucinações  visuais  coloridas:  roupas azuis, verdes, amarelas. Alucinações auditivas. T.S.F.[18] Injúrias. Acusações de ter estuprado garotas, de ter engravidado algumas delas. Reação depressiva. Apresentou-se espontaneamente à delegacia acusando-se de estupros e atentados ao pudor. Intenção suicida. Cartas para os pais. Atualmente, narração de uma tentativa de suicídio inexistente, produção onírica. Rosto vultuoso. Tremor digital e lingual. Pulso: 76. Hereditariedade alcoólica: pai morto aos 52 anos de delirium tremens.

Ass.: Dr. Heuyer.

Internado em Sainte-Anne com o seguinte laudo:

Acometido de alcoolismo com ataques subagudos. Alucinações múltiplas e fastidiosas.
Pavores e tendências suicidas. Insônias, atordoamentos e tremor das mãos.

Ass.: Dr. Simon.

É caracterizado no serviço como alguém que sofre de alucinações e perseguições. O laudo quinzenal, de 22 de janeiro de 1931, caracteriza a diminuição dos ataques subagudos. O laudo de saída, de 31 de março de 1931, declara o doente “atualmente calmo, não parece mais apresentar delírio, trabalha regularmente e pode ser restituído à mãe que o reivindica”.

É internado compulsoriamente de novo em 18 de fevereiro de 1932 com o seguinte laudo:

Degenerescência. Alcoolismo. Distúrbios predominantes do humor e do comportamento. Embriaguezes subintrantes[19]. Obtusão moral. Negações cínicas. Violências contra a mãe inválida (contusões múltiplas recentes). Preguiça mórbida. Instabilidade. Tirania familiar. Sujeito para manicômios especiais. Pai, morte etílica. Mãe, débil.

Ass.: Dr. De Clérambault.[20]

O sujeito, que um de nós examina em 3 de abril de 1932, é um débil mental; encanador-telhadista, amputado da perna esquerda após um acidente, estava desempregado desde a última alta do manicômio. Empregado como cantoneiro em sua comuna, “ofereciam-lhe (538) bebida”. A mãe, trepanada após um acidente de automóvel, tornou-se inválida sem indenização; irritadiça, discutia frequentemente com ele. O sujeito confessa as violências às quais ele se entregou nessas disputas.

Emotividade. Instabilidade do pulso. Tremor. Atual redução das convicções delirantes. Mantido em internação, não obstante, em razão da particular situação familiar. Fígado ligeiramente transbordante.

Quando da sua primeira passagem por Sainte-Anne, observava que todo o mundo lhe queria mal. Caçoavam dele. Os fenômenos de automatismo mental desapareceram por completo.

OBSERVAÇÃO VI. – Pierre M., 41 anos, internado em 21 de novembro de 1931 com o seguinte laudo:

Alcoolismo crônico. Ideias delirantes de perseguição. É vítima dos vizinhos, que querem perturbar sua família. Automatismo mental. Alucinações auditivas. Injúrias a ele próprio e à mulher. Comentários dos atos. Controle do pensamento. Sentimento de estranheza, de perplexidade. Imprecisão das ideias delirantes. Obnubilação. Desordem dos atos. Fugas. Tentativa de suicídio coletivo (abriu a torneira de gás do imóvel). Confessa excesso de bebida. Tremor digital e lingual. Pulso: 64.

Ass.: Dr. Heuyer.

O laudo de entrada em Sainte-Anne insiste em

um ligeiro estado de confusão mental com ideias de perseguição. Interpretações, tendências melancólicas. Hábito de beber.

Ass.: Dr. Simon.

O sujeito é mantido internado em Vaucluse[21] pelo seu estado de depressão, com ideias de perseguição, reticências etc.

OBSERVAÇÃO VII. – Antoinette T., mulher R., 37 anos, internada em 20 de março de 1931 com o seguinte laudo:

Automatismo mental com início recente e brusco. Alucinações auditivas. Todos os objetos falam ao redor dela: os relógios, o fogão, um motor, até a água. Injúrias das pessoas “que cruzam com ela”. Eco do pensamento. Escuta “por toda parte” tudo o que ela diz e tudo o que ela faz. Falam, sobretudo, de seu passado um pouco atribulado. Andou pelo meretrício. Prostituiu-se. Dizem: “Você vai voltar pro buraco de onde veio”, onde estava “empregada”. Um pouco de confusão. Desorientação. Reações depressivas e ansiosas. Foi prestar queixa na delegacia de polícia espontaneamente. Tentativas de suicídio na Enfermaria. Tom queixoso. Nenhuma sistematização. Fundo de debilidade mental. Obesidade. Aspecto disendócrino.[22] Alcoolismo crônico. Vinho e sobretudo álcool de menta. Tremor digital e lingual. Pulso: 72. Início dos distúrbios psíquicos há quadro dias.

Ass.: Dr. Heuyer.

(539) A doente foi espontaneamente prestar queixa na delegacia de polícia onde declarou que “a casa era mal-assombrada” e que ela mesma estava “imantada”; que “a água da sua lavanderia estava eletrificada”; que “palavras se inscreviam na sua tábua de lavar roupa”. “Todo mundo na rua diz que ela faz programa”. “Na casa, ninguém lhe diz nada; porém, quando está sozinha, escuta bem as pessoas sussurrando”. Ela anuncia, então, sua tentativa de suicídio.

Ao ingressar na Sainte-Anne,

nota-se um estado melancólico com alucinações fastidiosas e terrores; ela desperta em sobressalto e suando. Tentativa recente de suicídio: teria engolido grampos de cabelo e alfinetes. Leve tremor das mãos. Provável alcoolismo. Febre de 38°.

Ela é vista novamente por um de nós.

Nota-se a sua obesidade, o seu aspecto empastado, disendócrino. Diz-se bem regulada: sempre foi uma menina grande, diz ela, desde a infância.

Todas as minhas roupas na lavandeira me diziam: você vai voltar pro buraco de onde veio (bis); estão te esperando, os frangos.

Os relógios diziam: “Vai voltar pra Rua Boulay, vai voltar lá pra Rua Gessen”. Trata-se de um “bordel” onde ela “trabalhou” antes do casamento e onde teve dificuldades com a chefe. “Queriam-lhe mal porque ela não ia com os clientes de que ela não gostava”.

Tudo isso, senhor, começou de repente, numa manhã em que estava fazendo faxina, com uma máquina, uma espécie de motor que estava embaixo ou do lado; um motor que falava, que dizia: sua puta, você vai voltar a encher a cara.

Todo mundo disse, pergunte para todo mundo; todo mundo disse que eu era uma puta, que eu fazia programa.

Todas essas declarações são entrecortadas por desvios, queixas, cuja corrente é difícil de romper para fazer com que ela responda perguntas precisas sobre os fenômenos sentidos.

As alucinações verbais parecem ser experimentadas, o mais das vezes, com base num ruído rítmico de origem externa e real. “O fogão também fala”. “Ela nunca conseguiu impedir que despertasse para o fato”. “A água também fala; no último dia, as cadeiras, tudo em que eu mexia, falava. Todo mundo fora repetia: “É ela, é ela”. “As pessoas com quem ela cruzava diziam: Ela gosta de ser fod…, vou provar pra vocês”.

Havia poucos fenômenos sutis, pouca ação sobre o pensamento; também não havia odores desagradáveis, gosto ruim ou gás. Ela não é violada, mas sente “espasmos elétricos, de noite, na cama, e também de dia”.

Três dias depois, ela renova suas declarações. Algumas interpretações são acrescentadas: “Todo o meu passado respingou por toda parte; Paris inteira, todo mundo olha para mim e fala disso”.

Nesse momento, fixa-se muito mais a sua atenção em questões precisas, mesmo na pesquisa dos testes mentais que praticamos. (540) Responde bem aos exames de julgamento elementar, é um pouco menos brilhante nos testes de abstração; aliás, ela só havia recebido uma instrução das mais rudimentares. Reconhece perguntas absurdas, repete corretamente cinco números de trás para frente. No entanto, é ligeiramente desorientada no tempo. Seu pulso está em 72. Apresenta um leve tremor dos dedos, transpiração. Os reflexos tendinosos são normais. As pupilas, ligeiramente desiguais, reagem.

O alcoolismo antigo, que data da época em que ela estava “no buraco”, antes do casamento, é confessado.

O alcoolismo atual, em sua forma tão particular (álcool de menta) é reconhecido até pelo marido, que quer reavê-la. O início muito brusco dos distúrbios é confirmado pelo círculo próximo.

Um ano depois, a doente, internada na Maison Blanche, é laudada como

acometida de debilidade mental. Síndrome alucinatória sem sistema delirante. Sedação. Calma habitual. Inércia e baixa afetiva. Com a condição de vigilância constante, a alta pode ser tentada.

Insiste-se na debilitação afetiva e na persistência do delírio.

Uma outra série de fatos extremamente interessante nos parece constituída pelos casos em que, após um ou mais acessos de delírio subagudo alcoólico aos quais a predominância das alucinações verbais e o pulso normal ou retardado concederam o seu caráter constante, vê-se fixar um delírio baseado em automatismo mental. Acreditamos ver nessa correlação clínica um elemento prognóstico importante e trazer uma precisão na patogenia controversa daquilo que Rogues de Fursac[23] isolou com o nome de “delírio sistematizado alcoólico”. Eis aqui um belíssimo exemplo:

OBSERVAÇÃO VIII. – Louis L., pintor, 50 anos.

É internado uma primeira vez em dezembro de 1930, após ter apresentado, num hospital parisiense, distúrbios caracterizados por “alucinações visuais (zoopsias) e auditivas, uma amnésia considerável, com fabulação discreta e distúrbios do reconhecimento” (Laudo do Dr. Trocmé[24]).

Os laudos de entrada e quinzenais dos psiquiatras que o viram insistem então em cenas oníricas variadas com “zoopsia; alucinações liliputianas. Assassinato da família”, nos sinais manifestos de impregnação alcoólica e sobretudo no elemento auditivo das alucinações.

O doente sai curado do manicômio de Villejuif em 20 de fevereiro do ano seguinte.

Em junho de 1931, ou seja, um ano e meio depois da sua internação, ele se apresenta à delegacia, dizendo que não pararam de lhe dar eletricidade desde a sua primeira estada no hospital. Essa (541) iniciativa foi precedida por uma carta ao médico-chefe do hospital em que ele se queixa de sofrer, desde a primeira estada, com um “torniquete na cabeça, com a eletricidade enviada para a suas costelas; dá tremor nas mãos”. Ele escreve: “Fui lesado, então; os senhores vão me fazer perder meu trabalho; imediatamenti cai no rizo e recomessa; levei testemunhas; seus Citroën de que sou parte por causa da eletricidade que ele me dava nos braços”

O tremor está à vista na escrita. Um de nós examina o sujeito na Enfermaria e reconhece, sob o alcoolismo crônico, um:

Automatismo mental e ideias delirantes de perseguição. Alucinações auditivas. Injúrias e ameaças. “É preciso deixar ele louco”. Alucinações olfativas (odores fecais). Controle e eco do pensamento. Enunciado dos atos e repetição das palavras. Distúrbios cenestésicos. Eletricidade no corpo, formigamento e queimaduras. Alguns elementos visuais. Pobreza das interpretações. Três homens, talvez enfermeiros no Hospital Bichat,[25] querem se vingar dele. Também querem deixar a mulher dele louca.
Alcoolismo comprovado e confesso. Tremor digital e lingual. Hiperalgesia muscular. Pulso: 80.
Um internação anterior. Persistência, após a alta, dos elementos alucinatórios auditivos e dos distúrbios cenestésicos após o desaparecimento da confusão e do estado onírico.

Ass.: Dr. Heuyer.

O último laudo de situação relata a persistência, há um ano, da “psicose alucinatória desenvolvida sobre um fundo de alcoolismo crônico”

OBSERVAÇÃO IX. Antoine B., 63 anos.

Observado há 8 anos no Hospital Henri-Rousselle,[26] apresenta então um alcoolismo crônico inveterado há vinte anos, com ideias de perseguição notadas como assaz particulares. Declara-se “seguido pelo cunhado desde Lyon, de onde ele teria voltado para Paris a pé”. “É”, diz ele, “por uma questão de herança…, estão atrás de mim o tempo todo…, ele me repreende… Sinto a sombra dele atrás de mim… Quis bater nele e o ameacei”.

A postura é inquieta e desconfiada. Obnubilação intelectual. Agitação violenta e perigosa. Gritos. Gesticulação amedrontada etc.

Tremor. Língua saburral, B.-W.[27] + no sangue.

É internado (já é sua segunda internação). Em seguida é liberado e, seis anos depois, em 1931, um de nós o atende na Enfermaria Especial e o interna com o seguinte laudo:

Alcoolismo crônico no limite do estado subagudo. Orientação bastante boa. Pouca confusão. Onirismo. Zoopsia. Visão de precipícios. (542) Alucinações auditivas. Escuta a família repreendendo-o etc. Pulso: 76.

O automatismo mental e a sensação de presença dão uma nota particular ao quadro clínico. Tendência à cronicidade.

Relatamos, por fim:

OBSERVAÇÃO X. – Maximin V., 35 anos de idade. Internado em 6 de abril de 1931 com o seguinte laudo:

Alcoolismo crônico. Ataques subagudos. Estado confusional. Dismnésia.[28] Desorientação. Obtusão. Automatismo mental. Alucinações auditivas muito ativas. Ameaças de morte. Alucinações psíquicas: voz em seu coração que serve de intermediário para as ordens que ele recebe e as ameaças que lhe fazem. Controle e eco do pensamento. Comentário dos atos. Envio de gás. Algumas interpretações pobres. Ideias de envenenamento. Inveja dos vizinhos, que querem fazer com que ele saia do imóvel. Sem alucinações visuais. Os inimigos veem tudo o que ele próprio vê. Distúrbios cenestésicos. Eletricidade. Início recente dos distúrbios psíquicos, bruscamente, há oito dias.
Pediu espontaneamente por proteção na delegacia de polícia. Sem ansiedade, mas recusa alimentos. Insônia. Rosto vultuoso. Tremor mínimo, digital e lingual. Pulso: 64. Antecedentes de desequilíbrio e delinquência.

Dr. G. Heuyer.

Laudo de entrada:

Delírio de perseguição com alucinações e distúrbios da sensibilidade geral. “Querem que ele morra, seu coração fala e sabem o que ele pensa e faz…”. Queixa na delegacia. Segundo as declarações do doente, o seus distúrbios haviam começado há quinze dias, apenas.

Ass.: Dr. Simon.

Transferido com o diagnóstico de “delírio de perseguição com distúrbios psicossensoriais múltiplos. Início recente. Adjuvação etílica”

III

Queremos indicar agora uma categoria de fatos em que o terreno psicopático é caracterizado anteriormente ao abcesso subagudo etílico, que não passa de um episódio. Aqui, mais uma vez, a forma auditiva verbal da alucinação parece ligada à existência de um pulso retardado.

OBSERVAÇÃO XI. – Georges L., montador, estava com 21 anos em 1919, quando internado com o laudo do Dr. Delmas[29] apontando “ideias delirantes e (543) recusa de alimentos”. Nosso colega assinala que o doente, por volta dos dez anos de idade, havia tido crises de epilepsia.

É examinado na entrada pelo Dr. Briand,[30] cujos laudo e observação se seguem:

Laudo de entrada, Dr. Briand:

Delírio melancólico, com ideias de perseguição e culpa. Agitação ansiosa. Negativismo. Epilepsia antiga (?).
O doente parece inquieto e angustiado. Não fica parado (recusa-se a se sentar). Crispações nervosas da face. Gestos desesperados. Só responde com monossílabos, ou diz: “É lamentável (bis).” “Os senhores querem ter minhas respostas para terem o contrário… Fiz minha mãe chorar”. Mussitação[31].
Informações da mãe: pai morto de abcesso no pulmão, alcoólico, sem epilepsia (se embriagava com frequência).
Mãe saudável, quatro filhos, dois vivos.
Muito nervosa durante a gravidez. Parto normal. Criança normal, sem convulsões. Por volta dos 4 ou 6 anos, queixava-se de dores de cabeça. Na sala de aula, por volta dos 4 anos e meio, caráter difícil. Aprendia bem. Aos dez anos, seis semanas depois de uma queda numa escada, à noite, crise de epilepsia confirmada na Salpétrière. Durante 15 meses, uma crise a cada dois meses: “Mamãe, isso vai me pegar”. Crise típica com micção. Dos 11 anos e meio em diante, mais nada disso.
Caráter violento, desde sempre. Fazia um mês que nunca participava das conversas. Ansiedade noturna: (para a mãe) “Não tenha medo, não te quero mal”. Depois, mutismo. Choro. Foge de um médium chamado pela mãe. Manifesta ideias de indignidade. Dromomania[32] na chuva. Recusa de alimentos. Esgotamento há alguns meses.
Não bebe.

Transferido para Vaucluse, é ali considerado um delírio melancólico com “ideias de perseguição e culpa. Alucinações auditivas. Agitação ansiosa. Negativismo. Epilepsia antiga?”. Depois, no mesmo ano, parece se mostrar uma “demência precoce com manifestações paranoides e catatônicas, ecolalia, incontinência urinária noturna; nos antecedentes, crises comiciais[33]”. (Dr. Roubinovitch[34]).

No entanto, ele sai no ano seguinte, considerado pelo Dr. Vurpas[35] como suficientemente melhor. Vive em liberdade durante 20 anos, pouco estável no trabalho, mas ganhando a vida, como parecem testemunhar as diversas comprovações de vínculo empregatício encontradas a seu respeito quando de sua última detenção. Empregado, por último, no centro de aviação de Nanterre. Dispensado por indisciplina, escreve para o Coronel Comandante desse centro inúmeras cartas de ameaça de caráter nitidamente delirante, nas quais ele se queixa particularmente dos “sequestradores, torturadores”. Convocado à delegacia, diz: “Eu (544) protesto contra os raios que me enviam, por que vocês querem impedir a minha barriga de crescer?”

Examinado por um de nós vinte anos depois da primeira internação, apresenta-se da seguinte maneira:

Alcoolismo  crônico.  Estado  confusional.  Obtusão. Desorientação.  Ideias  de perseguição. Há três anos, não querem deixá-lo trabalhar em Paris. Alucinações auditivas. Ameaçam-no de morte. Querem colocá-lo num tubo. Enviam-no raios. Ansiedade, está condenado à morte. Súplicas. Solicita que acabemos com isso agora. Quebra de azulejos em sua residência. Ameaça contra a tia com a qual vive. Tremor digital e lingual. Hiperalgesia muscular. Pulso retardado: 60. Sífilis há 20 anos sem sinal neurológico atual. Já teria sido internado. Bloquear carteira de habilitação, ao menos temporariamente.

Ass.: Dr. Heuyer.

OBSERVAÇÃO XII. – Marius M., 40 anos. Internado em 23 de março de 1929 com o seguinte laudo:

Debilidade mental. Ideias delirantes de grandeza e perseguição. É inspetor da igreja porque recebeu uma gravata branca do seu tio, pároco em Turim. Tem a missão de “limpar o pessoal da igreja”. Em decorrência de suas reclamações, fez com que afastassem um vigário.
Interpretações múltiplas. É vítima da inveja dos vizinhos. Elemento imaginativo megalomaníaco um pouco tolo. Alucinações auditivas episódicas. Injúrias e ameaças. Desordem dos atos. Perturba os ofícios com as suas excentricidades. Gritos. Gesticulação. Hábitos eclesiásticos antigos. Unção. Sinais de alcoolismo crônico. Tremor digital e lingual. Pulso: 72.

Ass.: Dr. Heuyer.

O laudo de entrada do Dr. Marie[36] informa: “debilidade mental, escândalo na igreja para protestar contra a ausência de assistência do vigário aos seus filhos (6 crianças), exagero do eu”. O laudo de alta, de 21 de abril de 1929, declara que ele não delira mais e que a sua família o reivindica.

Retorna a um de nós em 13 de abril de 1931.

Alcoolismo e debilidade mental. Excitação psíquica. Loquacidade incoercível. Gesticulação. Tema de perseguição mal sistematizado. Conspiração contra a sua “paternidade”. Desde que entregou seus filhos para assistência pública, impedem-no de encontrar trabalho. Recriminações, grandiloquência, desordem dos atos. Escândalo na Embaixada da Itália, onde foi reivindicar seus filhos. Tremor digital e lingual. Pulso: 84.

Ass.: Dr. Heuyer.

(545) O laudo de entrada do Dr. Simon informa:

Alucinações e ideias de perseguição e grandeza; seu caso é mundial, uma conspiração para tirar o seu direito paterno; estilo diferenciado entre os marceneiros: seis canelura para lembrar seus seis filhos etc.

Um de nós o examina em Villejuif e encontra o grande delirante imaginativo, megalômano, contra um fundo de debilidade mental indicado pelos laudos. Observam-se algumas das interpretações mórbidas mais importantes, sinalizadas em laudos anteriores, e alucinações auditivas verbais. Ouviu vozes, especialmente na igreja, onde elas lhe diziam: “Cafetão! Fingido! Italiano sujo!”. Era a voz de uma senhora, que “tentava assim diminuir o valor de seu prestígio para sufocar a amizade e a simpatia que, nessa mesma igreja, existiam por mim”. Viva emoção ao evocar esse “estilo maldito que invade o Faubourg St-Antoine, e em que fazem seis caneluras para evocar os seis filhos dele”. Ele os entregou para a assistência pública, mas apesar disso não quer que ataquem os seus direitos de paternidade. Desenvolve ideias de envenenamento. Mantém uma postura mista de superioridade íngreme e de unção eclesiástica. Loquacidade pretensiosa. Fez escândalo em Lourdes, tentativas obstinadas de reconquistar seus filhos. Autoritarismo familiar. Cartas imperativas e pouco coerentes para a mulher e os filhos, repletas de conselhos pueris que pretendem regular as condutas deles nos mínimos detalhes.

Mantido no manicômio até o momento.

OBSERVAÇÃO XIII. – Aqui temos um jovem perverso, dipsomaníaco,[37] que se entrega à intoxicação desde a saída da colônia penitenciária onde o colocaram por furtos diversos.

D.Germain L., 21 anos, internado em 1º de março de 1931:

Alcoolismo crônico. Ataques subagudos. Confusão leve. Orientação imperfeita. Obtusão. Amortecimento. Onirismo. Seguem-no a fim de envenená-lo. Vê a imagem da mãe grudada em sua calça e não consegue tirá-la. Alucinações auditivas. Ameaças. Acusação de ter violado a mãe. Distúrbios cenestésicos. Eletricidade. Tocam seu ombro durante a noite. Rosto vultuoso. Tremor digital e lingual. Pulso: 64. Fundo de debilidade mental e de perversões. Ficou quatro anos na colônia penitenciária para furtos (em Belle-Isle[38]). Saída em 13 de fevereiro. Embriaguezes sucessivas desde a saída.

Ass.: Dr. Heuyer.

Entrada:

Acometido de alcoolismo com alucinações fastidiosas e ideias de perseguição: excitação passageira, leve tremor das mãos. Contusão no olho esquerdo. Saída recente de uma colônia penitenciária.

Ass.: Dr. Simon.

(546) Transferido para Évreux,[39] reduziu, após um ano, os seus fenômenos delirantes. Pulso permaneceu em 60. Fim do tremor. Foge dali a um ano.

São esses os diversos grupos de observações que desejamos relatar.

Para resumir, acreditamos poder fixar os seguintes pontos:

  1. Existem casos de delírio alcoólico subagudo em que o pulso é normal ou retardado. Eles se apresentam de uma forma clínica caracterizada por predominância das alucinações auditivas verbais, uma convicção delirante que se aproxima à dos delírios crônicos, uma maior fixidez dos temas, uma menor ansiedade pantofóbica,[40] uma relativa redução dos fenômenos visuais e motores;
  2. Essa forma é frequentemente marcada por uma forte nota melancólica com ideias de autoacusação e tendências ao suicídio;
  3. Ela pode sarar completamente. Ela pode recidivar na mesma forma. Pode ter uma tendência à cronicidade e merece ser procurada na origem de todos os casos ditos de delírio crônico de origem alcoólica. Por outro lado, a correlação de um pulso retardado não adquire menor valor que a intoxicação alcoólica no determinismo de certas psicoses alucinatórias crônicas;
  4. Em certos estados psicopáticos evolutivos (demência precoce, delírio polimorfo), rajadas delirantes[41] com predominância de alucinações auditivas verbais que parecem condicionadas por uma intoxicação etílica, episódica ou recidivante, apresentam uma notável correlação com um pulso normal ou retardado, e provavelmente encontram, nesse fenômeno, uma outra das suas condições determinantes.

Abstemo-nos atualmente de qualquer consideração ou hipótese patogênica. Um de nós reserva-se comentar ulteriormente esses fatos e outros análogos que serão objeto de apresentações. Podemos dizer somente que essa produção de alucinações auditivas e da síndrome de automatismo mental mais ou menos na íntegra, em correlação com um pulso normal ou retardado, no alcoolismo subagudo, dificilmente permite uma explicação ideogênica.


INFORMAÇÕES ADICIONAIS | Um resumo deste artigo pode ser encontrado em: L’Encéphale, 1934, vol. 29, n. 1, p. 53. O trabalho de Valentin Magnan sobre o alcoolismo, especialmente o uso de absinto, é Étude expérimentale et clinique sur l’alcoolisme, alcool et absinthe; epilepsia absinthique (1871).



[1] Charles Lasègue [1816-1883] foi um médico psiquiatra francês. Depois de estudar filosofia e atuar como professor suplente no liceu Louis-le-Grand, em Paris, começou a estudar medicina com Bénédict Morel [1809-1873] e Claude Bernard [1813-1878], e depois psiquiatria com Jean-Pierre Falret [1794-1870], na Salpêtrière. Tornou-se médico em 1854, passando a ministrar um curso de clínica das doenças mentais em 1862 e, por fim, sendo nomeado professor de clínica médica. Com Henri Legrand du Saule [1830-1886], é responsável pelos atendimentos realizados no Comando de Polícia (a futura Enfermaria Especial), onde é levado a estudar alguns problemas de medicina legal, em particular o da “responsabilidade dos alienados”. Examinando diversos delirantes alcoólicos, entende que o delírio alcoólico não é da mesma natureza que a psicose delirante crônica; para ele,  “não é um delírio, mas um sonho”. (N. do T.)

[2] Ch. Lasègue (1852) “Du délire des persécutions”, Archives Générales de Médecine, vol. 4, n. 28, pp. 129-150. Disponível em: <www.biusante.parisdescartes.fr/histoire/medica>.

[3] Ch. Lasègue (1868-69) “De l’alcoolisme subaigu”, Archives Générales de Médecine, vol. 6, n. 13, pp. 513-536, 656-675 (disponível em: <archive.org/details/BIUSante_90165x1869x13>); n. 14, pp. 145-163 (disponível em: <archive.org/details/BIUSante_90165x1869x14>).

[4] Cf. Ch. Lasègue (1884) Études médicales, vol. 2. Paris: Asselin et Cie., pp. 171-ss., obs. 25, 26, 27. Disponível em: (<gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k77273v>); Ch. Lasègue (1868-69) “De l’alcoolisme subaigu”, Archives Générales de Médecine, vol. 6, n. 13, pp. 513-536, 656-675 (disponível em: <archive.org/details/BIUSante_90165x1869x13>); n. 14, pp. 145-163 (disponível em: <archive.org/details/BIUSante_90165x1869x14>).

[5] Valentin Magnan [1835-1916] foi um psiquiatra francês. Estudou medicina em Lyon e Paris, onde foi aluno de Jean-Pierre Falret [1794-1870] e Jules Baillarger [1809-1890] — discípulos de Jean-Étienne Dominique Esquirol [1772-1840] na Universidade de Paris. De 1867 até o fim de sua carreira, manteve-se vinculado ao Hôpital Sainte-Anne. É conhecido por expandir o conceito de degeneração introduzido por Bénédict Morel [1809-1873] na psiquiatria. Acreditava que o consumo excessivo de álcool — particularmente absinto — tinha um papel importante no declínio da cultura francesa. Em suas investigações sobre a bebida, tentou identificar um “efeito absinto” que não estava presente em outras formas de alcoolismo, e sugeriu que o delírio a ele associado era diferente das experiências de delirium tremens associadas ao alcoolismo. (N. do T.)

[6] Prêmio concedido pela Academia Nacional de Medicina (França). (N. do T.)

[7] Trata-se de “Des diverses formes des délires alcooliques et de leur traitement” (1872), posteriormente publicado como livro: V. Magnan (1874) De l’alcoolisme: des diverses formes du délire alcoolique et de leur traitement. Paris: Delahaye. (N. do T.)

[8] Quadro patológico caracterizado por tremores, suores, agitação e alucinações, geralmente resultante do consumo de álcool prolongado e excessivo. (N. do T.)

[9] Médico e professor da Faculdade de Medicina de Paris, Georges Heuyer [1884-1977] foi membro da Academia Nacional de Medicina. É considerado o fundador, na França, da pedopsiquiatria — especialidade que praticou por mais de 50 anos, em diversas instituições parisienses, especialmente na Salpêtrière. Tendo iniciado seus externato e internato em 1906, defenderia sua tese de doutorado em medicina no ano de 1914, sob a orientação de Ernest Dupré [1862-1921], que havia sido aluno de Jean Martin Charcot [1825-1893]. Entrando para o exército em 1904, trabalhou como médico militar durante 15 anos. Foi nomeado chefe clínico ajunto de doenças mentais na Faculdade, em 1919, passando a titular em 1921 (cargo que abandonará no ano seguinte). Em paralelo, atua como médico da Enfermaria Especial de Alienados do Comando de Polícia e como médico-inspetor escolar. Em 1922, em colaboração com Édouard Toulouse [1865-1947], idealiza a criação de um serviço livre de higiene mental, futuro Hospital Henri Rousselle (parte do complexo hospitalar Sainte-Anne desde 1941). Em 1923, torna-se médico hospitalar e cria, dois anos depois, um ambulatório que se tornará um serviço de atendimento psiquiátrico infantojuvenil, comportando a sede da Clínica Anexa de Neuropsiquiatria Infantil, também por ele criada. Em 1937, em Paris, organizará aquele que será o 1º Congresso Internacional de Psiquiatria Infantil. (N. do T.)

[10] O Centro Hospitalar Sainte-Anne foi edificado num local com vocação assistencial desde o século XIII. Em seguida à Casa de Saúde de Margarida da Provença, esposa de Luís IX; e então, ao Sanitat Saint-Marcel, no século XV (destinado aos doentes por contágio), Ana de Áustria ordenou a construção, por volta de 1650, de um hospital que receberia o nome de Sainte-Anne [Sant’Ana]. Pouco utilizado num primeiro momento, o local foi transformado numa espécie de fazenda onde iam trabalhar os alienados do Hospital de Bicêtre, que ficava relativamente próximo. Em 1863, no entanto, Napoleão III decide criar ali um hospital psiquiátrico, designado por ele próprio como “asilo clínico”, uma vez que se destinaria a ser um local de tratamento, de pesquisa e de ensino. O manicômio  é inaugurado no primeiro dia do ano de 1867, e seu primeiro paciente dará entrada em 1º de maio. Em 1922, havia sido criado ali, por Édouard Toulouse [1865-1947], um centro de profilaxia mental: o primeiro serviço livre, isto é, no qual os doentes não ficam internados. (N. do T.)

[11] O Asilo de Alienados de Villejuif — rebatizado como Hospital Psiquiátrico de Villejuif, em 1937, e atualmente conhecido como Grupo Hospitalar Paul Guiraud — começou a receber seus primeiros pacientes em abril de 1884. (N. do T.)

[12] Théodore Simon [1873-1961] foi um psiquiatra francês que fez carreira como médico de instituições manicomiais, trabalhando no Serviço de Entrada de Sainte-Anne. Entre 1936 e 1937, atuou como diretor do hospital Henri Rousselle, em Paris. É conhecido sobretudo por sua contribuição para a criação, com Alfred Binet [1857-1911], de uma escala métrica que leva o nome de ambos: a Escala de Inteligência Binet-Simon, publicada pela primeira vez em 1905. Foi presidente da Sociedade Médico-Psicológica, em 1935, e criador da Revista Laboratoire et psychiatrie, em 1937.  (N. do T.)

[13] Maurice Ducosté [1785-1956], psiquiatra francês, foi aluno de Emmanuel Régis [1855-1918], em Bordeaux; de Édouard Toulouse [1865-1947] e Auguste Marie [1865-1934], em Villejuif; de Marandon de Montyel [1816-1893] e Paul Sérieux [1864-1947] em Ville-Évrard. Inicia sua carreira profissional no manicômio público de Bassens (Savoie), passando por outro lugares até substituir Joseph Capgras [1873-1950] na Casa de Saúde de Ville-Évrard, instituição que chefiará em 1920. Encerra sua carreira em Villejuif no ano de 1937. (N. do T.)

[14] Hospital parisiense cuja construção começa em 1870, a instituição abre suas portas no ano de 1878, com o nome de Hospital de Ménilmontant. É no ano seguinte que recebe o nome do cirurgião Jacques Tenon [1724-1816], que possui até os dias de hoje. (N. do T.)

[15] Diminuição, mais ou menos acentuada, da permeabilidade mental e da consciência. (N. do T.)

[16] Ville-Évrard é um hospital especializado em saúde mental. Em 1868, o governo inaugurou na região de mesmo nome, em Neuilly-sur-Marne (antigamente, Seine-et-Oise), um primeiro manicômio destinado aos alienados indigentes do Leste de Paris; depois, em 1875, uma casa de saúde para pacientes mais abastados. O manicômio, a casa de saúde e extensões posteriormente construídas viriam a constituir o estabelecimento público de saúde de Ville-Évrard. (N. do T.)

[17] Faces e lábios vermelhos e inchados, olhos salientes. (N. do T.)

[18] Provavelmente, “transmissão sem-fio”. (N. do T.)

[19] Subintrantes são sintomas ou acessos que se iniciam antes de os anteriores terminarem. (N. do T.)

[20] Gaëtan Gatian de Clérambault [1872-1934] é considerado, por muitos, o último e mais brilhante dos clássicos. Obteve, em 1905, o cargo de médico adjunto da Enfermaria Especial do Comando de Polícia, onde já era interno de Paul-Émile Garnier [1848-1905]. Com a morte de Ernest Dupré [1862-1921], que havia sido seu professor, torna-se médico-chefe da instituição. Lacan o considerava seu “único mestre em psiquiatria” (cf. C. M. Ramos Ferreira; J. Santiago [2014] Apresentação de pacientes: Clérambault, mestre de Lacan. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, vol. 17, n. 2. São Paulo, junho de 2014. Disponível em: <dx.doi.org/10.1590/1984-0381v17n2a05>). Ademais, cumpre notar que Clérambault entendeu o presente artigo como sendo uma divulgação não autorizada das suas próprias ideias a respeito da paranoia, de modo que Lacan suprimirá o texto quando da reedição de sua tese de doutorado, onde figurarão outros de seus “Primeiros escritos sobre a paranoia”. (N. do T.)

[21] O manicômio de Perray-Vaucluse, situado no atual distrito francês de Essonne, é o terceiro manicômio do antigo distrito do Sena. Foi inaugurado no ano de 1869, depois de Sainte-Anne (1867) e de Ville-Évrard (1868). Desde 2019, Sainte-Anne, Maison Blanche e Perray-Vaucluse encontram-se unificados sob a rubrica GHU Paris (Groupe Hospitalier Universitaire de psychiatrie & neurosciences). Cf. <www.ghu-paris.fr/fr/le-ghu-paris-fruit-dune-histoire-commune>. (N. do T.)

[22] Disendocrinia é a perturbação no funcionamento das glândulas endócrinas. (N. do T.)

[23] Joseph Rogues de Fursac [1872-1941], psiquiatra francês, defendeu em 1899 uma tese sobre paralisia geral intitulada Des stigmates physiques de dégénérescence chez les paralytiques généraux, depois de realizar estudos no laboratório de Charles Richet [1850-1935]. Volta-se para a psiquiatria, assumindo um posto de médico-adjunto em Clermont de l’Oise, depois em Ville-Évrard, e atuando como chefe nas alas femininas do manicômio de Villejuif. (N. do T.)

[24] Charles Trocmé [?-?] . (N. do T.)

[25] Um primeiro hospital, na qualidade de estabelecimento temporário, foi implantado em 1884 numa antiga caserna que data de 1860, situada no Muro de Thiers, em Paris. Ele recebe o nome de Hospital Bichat, em memória do médico e fisiologista Xavier Bichat [1771-1802]. Em 1928, o hospital é inteiramente reconstruído. (N. do T.)

[26] O Hospital Henri-Rousselle — nascido do Centro de Psiquiatria e Profilaxia Mental, idealizado por Édouard Toulouse [1865-1947] e Georges Heuyer [1884-1977] — faz parte, hoje, do complexo hospitalar Sainte-Anne, após ter perdido sua autonomia em 1941. (N. do T.)

[27] Levando os nomes de Jules Bordet [1870-1961] — Nobel de fisiologia e medicina em 1919, por sua descoberta do bacilo da coqueluche — e August Paul von Wassermann [1866-1925] — um bacteriologista alemão —, a reação Bordet-Wasserman trata-se de uma reação de hemólise (dissolução dos glóbulos vermelhos) que foi desenvolvida por Wassermann em 1906, não sem reconhecer a importância de achados anteriores realizados por outros cientistas, dentre eles Jules Bordet. Consistia essencialmente em pôr frente a frente o antígeno, um complemento e o soro suspeito de conter o anticorpo sifilítico, permitindo detectar precocemente um anticorpo não específico contra a sífilis (a anticardiolipina), garantindo a intervenção medicamentosa precoce. Cf. E. Gonçalvez (1926) Sobre a sero-reacção de Bordet-Wasserman. Porto: Enciclopédia portuguesa. Disponível em:  <repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/17673/2/221_2_FMP_TD_I_01_C.pdf>. (N. do T.)

[28] Distúrbio da memória que se manifesta pela dificuldade de evocar lembranças. (N. do T.)

[29] Jean Delmas [?-?], que atuou como médico-chefe de clínica das doenças mentais, foi diretor da casa de saúde de Ivry-sur-Seine. É autor de Les psychoses post-oniriques (Paris: Masson, 1914). (N. do T.)

[30] Marcel Briand [1853-1927] foi o primeiro médico à frente da divisão das mulheres do manicômio de Villejuif, antes de suceder em 1912 o seu mestre Valentin Magnan [1835-1916] como médico-chefe do Serviço de Entrada de Sainte-Anne — posto que ocupará até aposentar-se, em 1922. (N. do T.)

[31] Movimento dos lábios com emissão de sons não articulados. (N. do T.)

[32] Impulso incontrolável e mórbido de perambular. (N. do T.)

[33] Do latim, morbus comitialis — designação dada pelos romanos à epilepsia. (N. do T.)

[34] Jacques Roubinovitch [1862-1950]. (N. do T.)

[35] Claude Vurpas [1875-1951] fez sua residência médica em Villejuif. Colaborando diversas vezes com o psicólogo romeno Nicolae Vaschide [1874-1907], é responsável por uma série de publicações em coautoria com o colega; dentre elas, Psychologie du délire dans les troubles psychopathiques (Paris: Masson, 1902), em que se concebe o delírio não como uma síndrome especial, mas apenas “a eflorescência de uma atividade psicológica subconsciente que existe, no mesmo grau, em seus elementos fundamentais, no estado normal e no estado mórbido” (p. 171). Foi presidente da Sociedade Francesa de Psicologia em 1937. (N. do T.)

[36] Auguste Marie [1865-1934], psiquiatra, higienista e filantropo francês, defendeu sua tese de doutorado sobre o tema dos delírios sistematizados, em 1892. Naquele mesmo ano, iniciaria sua carreira como médico-adjunto em instituições de saúde mental. Clinicou no manicômio de  Villejuif até ser designado para atuar em Sainte-Anne como médico-chefe de consultas externas em 1920 e, no ano seguinte, como chefe da divisão masculina. (N. do T.)

[37] Referente a “dipsomania”, a necessidade incontrolável de ingerir bebiba alcoólica. (N. do T.)

[38] Colônia marítima para menores infratores criada em 1880, na ilha de Belle-Île-en-Mer, situada na Bretanha. (N. do T.)

[39] Situado na Normandia, o asilo de alienados de Évreux havia sido inaugurado em 1866. (N. do T.)

[40] Relativo a pantofobia, temor mórbido de um mal desconhecido. (N. do T.)

[40] Termo introduzido em 1886 por Paul Maurice Legrain [1860-1939] e promovido por Valentin Magnan [1835-1916], a “baforada”, “lufada” ou “rajada delirante” [bouffée delirante] consiste numa condição psicótica aguda e transitória associada com turvação da consciência, excitação psicomotora e comportamento agitado, seguida de amnésia anterógrada. (N. do T.)

13.07.1933 | Um caso de perversão infantil por encefalite epidêmica precoce diagnosticada por uma síndrome motora leve

[ Un cas de perversion infantile par encéphalite épidémique précoce diagnostiquée par un syndrome moteur fruste ] 

Comunicação realizada por Georges Heuyer [1884-1977] e Jacques Lacan [1901-1981], junto à Sociedade Médico-Psicológica de Paris, em 13 de julho de 1933. Nela apresenta-se o caso clínico de uma criança de 14 anos que apresenta distúrbios do caráter e leves sintomas motores, que são respectivamente vinculados pelos autores à encefalite epidêmica e às perversões instintivas essenciais da criança. 

 

Annales Médico-Psychologiques, 1933, vol. 14, n. 2, pp. 221-223

 

L., 14 anos. – Sexo masculino. Nenhuma anomalia nos estágios do desenvolvimento somático e mental. Nos antecedentes familiares, nada além de um aborto espontâneo da mãe.

Atualmente, nível mental nitidamente superior nos testes de Terman.[1] QI = I. A criança, entretanto, não conseguiu concluir o primário por conta de um atraso escolar causado pelas sucessivas expulsões que puseram fim, com prazos sempre bastante curtos, a cada uma de suas várias experiências escolares. Após diversas tentativas infrutíferas em várias escolas municipais, tampouco conseguiu ser mantida em estabelecimentos de reeducação especializados. Uma tentativa recente de alocação como jovem aprendiz num ateliê de ourivesaria foi igualmente um fracasso.

As manifestações que impossibilitam sua adaptação surgiram entre os seis e sete anos de idade. Desde então não mudaram essencialmente de frequência nem de caráter.

Trata-se de impulsos perversos — malignos, no mais das vezes — frequentemente agressivos e perigosos. Eles ocorrem de forma muito brusca, na maioria das vezes de forma muito inesperada. Não há amnésia; a criança não manifesta nenhum remorso a seu respeito. É difícil atualmente, após diversos exames médicos, apreciar no interrogatório o grau de seu caráter coercitivo na consciência da criança.

Uma das mais chocantes dentre as primeiras manifestações foi que a criança se exibiu despida em plena sala de aula, aos sete anos de idade. Levaram-na então para se consultar na Clínica Psiquiátrica de Ste-Anne,[2] onde o exame neurológico e humoral (punção lombar praticada) foi declarado negativo.

Desde então pode-se notar uma série ininterrupta de iniciativas malignas, das quais as mais graves e as mais brutais são também as mais impulsivas e as menos complexas. Essas brutalidades exercem-se, no mais das vezes, com colegas de escola: pancadas, crueldades, travessuras perversas. Muito recentemente teve de deixar um internato profissional para crianças difíceis por ter ferido gravemente, com uma garfada, a mão de um dos seus vizinhos de refeitório. Voltando à casa dos pais, neles causa os maiores receios por conta das duas irmãs — uma mais velha, outra mais nova ­—, nas quais ele pratica as mesmas sevícias.

Cumpre notar igualmente um roubo impulsivo que pôs fim à recente tentativa de aprendizado — para a qual a criança se mostrou, aliás, pouco apta manualmente.

Tirante uma ligeira lentidão psíquica, o contato com a criança (222) mostra-se, no interrogatório, normal. Não se tem a impressão de tratar-se de um esquizoide, mas sim de um epileptoide. Apenas a sua reação, quando se evocam os seus malfeitos, permanece enigmática por sua atonia.

Os pais e os educadores, tendo esgotado todos os recursos, enviam a criança para se consultar conosco há três meses.

Constatamos uma fácies um pouco paralisada, um balanço normal dos membros superiores durante a marcha, sem sinal de hipertonia manifesta, sem o dito sinal da roda dentada,[3] sem distúrbios da refletividade tendinosa.

Mas, em contrapartida, uma síndrome motora, certamente leve, mas para cuja nitidez desejamos chamar a atenção: um tremor palpebral marcado no movimento sustentado do fechamento das pálpebras, um tremor fibrilar da língua, fibrilações concomitantes do orbicular[4] dos lábios. A escrita, por outro lado, mostra um tremor muito brando; certamente de uma grande tenuidade, mas que é o suficiente, à primeira vista, para classificá-la nas escritas ditas “neurológicas”.

Deve-se observar, ademais, que os testes de destreza manual cotejados, dos quais nos servimos em nosso serviço para a orientação profissional das crianças, deram, aplicados ao nosso sujeito, resultados de uma anomalia absolutamente ímpar. Esses testes consistem em rosquear porcas; colocar linhas em agulhas, em miçangas; ajustar cavilhas e compreende um trabalho de triagem e manipulação de objetos que permite julgar a motricidade da criança, e dela dissociar os fatores primários dos diversos níveis de organização a que está suscetível (atenção, ritmo, educabilidade, discernimento, organização). O trabalho é observado, cronometrado e classificado em quatro quartis escalonados pelo experimento. Em nossa criança, que não apresenta nenhum sinal de debilidade motora, todos os resultados, sem exceção, situam-se no limite inferior do último quartil. Esses resultados revelam-se à observação como sendo devidos, antes de mais nada, à extrema lentidão dos movimentos. Em seguida vêm erros frequentes de atenção; quedas frequentes de objetos; certa puerilidade do comportamento, que se marca numa má observação do trabalho a fazer. O núcleo propulsor dessa reação é, portanto, uma bradicinesia[5] que vem se somar aos sinais já notados.

Uma paresia da convergência ocular vem assinalar o alcance de toda essa síndrome e nos permite dar o verdadeiro valor a um antecedente infeccioso precoce, ocorrido aos dois anos de idade, e que se manifestou durante sete ou oito meses através de uma sonolência permanente da qual as solicitações externas tiravam o jovem sujeito apenas de uma forma totalmente momentânea. Períodos de sonolência foram notados diversas vezes desde então. Recentemente, também, a criança vinha dormindo no trabalho de aprendiz de ourives.

Na ausência de todo e qualquer sinal neurológico ou humoral mais preciso (B.-W.,[6] no sangue, negativo; P.-L., B.-W. negativo.[7] Alb.:[8] 0,20. (223) Açúcar: 0,70. Um elemento por mm3), essa síndrome motora leve e esses antecedentes nos permitem, conforme acreditamos, afirmar a patogenia de distúrbios do caráter, e ligá-los aos que se descrevem classicamente na neuraxite[9] epidêmica.

Esse caso nos pareceu interessante de comunicar por incitar a pesquisa dos sintomas mais leves da organicidade, cada vez que nos encontramos na presença dessa classe de distúrbios, definida de forma puramente residual e certamente heterogênea, chamados de perversões instintivas essenciais da criança.


[1] Lewis Madison Terman [1877- 1956], psicólogo norte-americano, desenvolveu sua atividade profissional na Faculdade de Educação da Universidade de Stanford, onde começou a se interessar pelo estudo de crianças consideradas superdotadas. Lá realizou diversos trabalhos sobre testes e escalas de inteligência, até que em 1916 publicou uma versão revista do teste Binet-Simon — que então passou a se chamar “Escala Stanford-Binet”. (N. do T.)
[2] O Centro Hospitalar Sainte-Anne foi edificado num local com vocação assistencial desde o século XIII. Em seguida à Casa de Saúde de Margarida da Provença, esposa de Luís IX; e então, ao Sanitat Saint-Marcel, no século XV (destinado aos doentes por contágio), Ana de Áustria ordenou a construção, por volta de 1650, de um hospital que receberia o nome de Sainte-Anne [Sant’Ana]. Pouco utilizado num primeiro momento, o local foi transformado numa espécie de fazenda onde iam trabalhar os alienados do Hospital de Bicêtre, que ficava relativamente próximo. Em 1863, no entanto, Napoleão III decide criar ali um hospital psiquiátrico, designado por ele próprio como “asilo clínico”, uma vez que se destinaria a ser um local de tratamento, de pesquisa e de ensino. O manicômio  é inaugurado no primeiro dia do ano de 1867, e seu primeiro paciente dará entrada em 1º de maio. Em 1922, havia sido criado ali, por Édouard Toulouse [1865-1947], um centro de profilaxia mental: o primeiro serviço livre, isto é, no qual os doentes não ficam internados. (N. do T.)
[3] Sintoma neurológico extrapiramidal devido à hipertonia muscular e a consequente limitação dos movimentos passivos dos segmentos dos membros. Ocorre uma resistência que cede aos poucos, como que em pequenos trancos, o que remete aos movimentos de uma roda dentada. (N. do T.)
[4] Músculo da boca composto por fibras que circundam o orifício bucal. É responsável pelo fechamento dos lábios e pela protrusão que possibilita o assovio. (N. do T.)
[5] Lentificação dos movimentos voluntários presente em várias condições médicas que afetam o sistema nervoso central. (N. do T.)
[6] Levando os nomes de Jules Bordet [1870-1961] — Nobel de fisiologia e medicina em 1919, por sua descoberta do bacilo da coqueluche — e August Paul von Wassermann [1866-1925] — um bacteriologista alemão —, a reação Bordet-Wasserman trata-se de uma reação de hemólise (dissolução dos glóbulos vermelhos) que foi desenvolvida por Wassermann em 1906, não sem reconhecer a importância de achados anteriores realizados por outros cientistas, dentre eles Jules Bordet. Consistia essencialmente em pôr frente a frente o antígeno, um complemento e o soro suspeito de conter o anticorpo sifilítico, permitindo detectar precocemente um anticorpo não específico contra a sífilis (a anticardiolipina), garantindo a intervenção medicamentosa precoce. Cf. E. Gonçalvez (1926) Sobre a sero-reacção de Bordet-Wasserman. Porto: Enciclopédia portuguesa. Disponível em:  <repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/17673/2/221_2_FMP_TD_I_01_C.pdf>. (N. do T.)
[7] A reação de Bordet-Wassermann pode ser realizada tanto no sangue quanto no líquido cefalorraquidiano. Assim, P.-L., embora tenha sido grafado como abreviatura de nome próprio, possivelmente indique ponction lombaire [punção lombar]. (N. do T.)
[8] Albumina. (N. do T.)
[9] A neuraxite (ou encefalite) consiste na inflamação da neuraxe, o eixo cerebrospinal do sistema nervoso central.  (N. do T.)

01.06.1933 | O problema do estilo e a concepção psiquiátrica das formas paranoicas da experiência

[ Le problème du style et la conception psychiatrique des formes paranoïaques de l’expérience ] 

Publicado no número inaugural da Revue Minotaure (Paris: Éditions Albert Skira) — que veio a público simultaneamente ao segundo volume, no dia 1º de junho de 1933 —, este artigo, escrito por Jacques Lacan [1901-1981], estava acompanhado, em sua edição, por trabalhos de Pierre Reverdy [1889-1960], Maurice Raynal [1884-1954], André Breton [1896-1966], Émile Tériade [1897-1983], René Crevel [1900-1935], Marcel Jean [1900-1993], André Masson [1896-1987], Max Raphaël [1889-1952], Pablo Picasso [1881-1973], Maurice Heine [1884-1940], Marquês de Sade [1740-1814], Paul Éluard [1895-1952], Salvador Dalí [1904-1989], Kurt Weill [1900-1950] e Michel Leiris [1901-1990]. Foi posteriormente reimpresso entre os “Premiers écrits sur la paranoïa” [Primeiros escritos sobre a paranoia]: compilado de textos que constará ao final da edição impressa da tese de doutorado em psiquiatria, concluída em 1932 por Lacan, sob a orientação de Gaëtan Gatian de Clérambault [1872-1934]: De la psychose paranoïaque dans ses rapports avec la personnalité [Da psicose paranoica em suas relações com a personalidade].

 

Revue Minotaure, 1933, vol. 1, pp. 68-69.

De la psychose paranoïaque dans ses rapports avec la personnalité. Paris: Seuil, 1975, pp. 383-388.

D

entre todos os problemas da criação artística, o do estilo requer o mais imperiosamente, também para o próprio artista, acreditamos nós, uma solução teórica. Efetivamente, não deixa de ter importância a ideia de que se constitui conflito, revelado por conta do estilo, entre a criação realista fundamentada no conhecimento objetivo, de um lado; e, de outro, a potência superior de significação, a alta comunicabilidade emocional da criação dita “estilizada”. Segundo a natureza dessa ideia, efetivamente, o artista conceberá o estilo como fruto de uma escolha racional, de uma escolha ética, de uma escolha arbitrária; ou então, ainda, de uma necessidade enfrentada cuja espontaneidade se impõe contra todo e qualquer controle, ou mesmo que dela convém se libertar por uma ascese negativa. É escusado insistir na importância dessas concepções para o teórico.

Porém, parece-nos que o sentido que a pesquisa psiquiátrica tomou nos dias de hoje oferece dados novos para esses problemas. Mostramos o caráter bastante concreto desses dados em detalhadas análises realizadas com escritos de loucos. Gostaríamos aqui de indicar, em termos forçosamente mais abstratos, qual revolução teórica elas trazem para a antropologia.

A psicologia escolar, por ser a derradeira investida das ciências positivas — e, assim, ter surgido no apogeu da civilização burguesa que sustenta o corpo dessas ciências —, só podia ter uma confiança ingênua no pensamento mecanicista que havia provado o seu valor nas ciências físicas. Isso ao menos enquanto a ilusão de uma infalível investigação da natureza continua a recobrir a realidade da fabricação de uma segunda natureza, mais conforme às leis de equivalência fundamentais do espírito, a saber: a da máquina. De igual maneira, o progresso histórico dessa psicologia, se ele parte da crítica experimental das hipóstases do racionalismo religioso, desemboca nas mais recentes psicofísicas com abstrações funcionais, cuja realidade reduz-se cada vez mais rigorosamente à única medida do rendimento físico do trabalho humano. Efetivamente, nada nas condições artificiais do laboratório podia contradizer um desconhecimento tão sistemático da realidade do homem.

Devia ser papel dos psiquiatras, que essa realidade solicita de forma especialmente imperiosa, encontrar tanto os efeitos da ordem ética nas transferências criadoras do desejo ou da libido quanto as determinações estruturais da ordem numenal[1] nas formas primárias da experiência vivida: isto é, reconhecer a primordialidade dinâmica e a originalidade dessa experiência (Erlebnis) em relação a toda e qualquer objetivação do acontecimento (Geschehnis).

Estaríamos, no entanto, na presença da mais surpreendente exceção às leis próprias ao desenvolvimento de toda superestrutura ideológica caso esses fatos tivessem sido reconhecidos tão logo encontrados, afirmados tão logo reconhecidos. A antropologia que eles implicam torna demasiado relativos os postulados da física e da moral racionalizantes. Porém, esses postulados estão suficientemente integrados à linguagem corrente para que o médico — que, dentre todos os tipos de intelectuais, é o mais constantemente marcado por um ligeiro atraso dialético — não tenha acreditado ingenuamente encontrá-los nos próprios fatos. Ademais, cumpre não ignorar que o interesse pelos doentes mentais nasceu historicamente de necessidades de origem jurídica. Essas necessidades surgiram quando da instauração formulada, na base do Direito, da concepção filosófica burguesa do homem como dotado de uma liberdade moral absoluta e da responsabilidade como própria ao indivíduo (vínculo dos Direitos Humanos[2] com as pesquisas inaugurais de Pinel[3] e Esquirol[4]). Com isso, a questão capital que se colocou praticamente à ciência dos psiquiatras foi aquela, artificial, de um tudo-ou-nada da decadência mental (Art. 64 do Código Penal).[5]

Era natural, portanto, que os psiquiatras tomassem emprestado a explicação dos distúrbios mentais primeiro das análises da escola e do cômodo esquema de um déficit quantitativo (insuficiência ou desequilíbrio) de uma função de relação com o mundo — função e mundo procedendo de uma mesma abstração e racionalização. Nisso toda uma ordem de fatos, que corresponde ao quadro clínico das demências, deixava-se resolver bastante bem, aliás.

É o triunfo do gênio intuitivo próprio à observação que um Kraepelin,[6] ainda que todo engajado nesses precedentes teóricos, tenha podido classificar, com um rigor ao qual pouco se acrescentou, as espécies clínicas cujo enigma devia, através de aproximações frequentemente ilegítimas (das quais o público retém apenas palavras em torno das quais se pode congregar: esquizofrenia etc.), engendrar o relativismo numenal sem paralelos — pontos de vista ditos “fenomenológicos” da psiquiatria contemporânea.

Essas espécies clínicas não são outras que não as psicoses propriamente ditas (as verdadeiras “loucuras”, no vulgo). Porém, os trabalhos de inspiração fenomenológica sobre esses estados mentais (por exemplo, o bastante recente de Ludwig Binswanger[7] sobre o estado chamado de (69) “fuga de ideias”,[8] que se observa na psicose maníaco-depressiva; ou o meu próprio trabalho sobre “a psicose paranoica em suas relações com a personalidade”[9]) não destacam a reação local — e, no mais das vezes, notável somente por alguma discordância pragmática —, que se pode individualizar aí como distúrbio mental, da totalidade da experiência vivida do doente que eles tentam definir em sua originalidade. Essa experiência só pode ser compreendida no limite de um esforço de consentimento; ela pode ser validamente descrita como uma estrutura coerente de uma apreensão numenal imediata de si mesmo e do mundo. Apenas um método analítico, com um rigor muito grande, pode permitir uma descrição como essa; toda objetivação é, com efeito, eminentemente precária numa ordem fenomenal que se manifeste como anterior à objetivação racionalizante. As formas exploradas dessas estruturas permitem concebê-las como diferenciadas entre si por certos hiatos[10] que permitem tipificá-las.

Ora, algumas dessas formas da experiência vivida, dita “mórbida”, apresentam-se como particularmente fecundas em modos de expressão simbólicos, que, por serem irracionais em seus fundamentos, nem por isso são menos providos de uma significação intencional eminente e de uma comunicabilidade tensional muito elevada. Elas se encontram em psicoses que nós estudamos particularmente, conservando-lhes o rótulo antigo e etimologicamente satisfatório de “paranoia”.[11]

Essas psicoses manifestam-se clinicamente por um delírio de perseguição, uma evolução crônica específica e reações criminosas particulares. Na falta de poder detectar qualquer distúrbio no manejo do aparelho lógico e dos símbolos espaço-temporo-causais, os autores da linhagem clássica não temem relacionar paradoxalmente todos esses distúrbios a uma hipertrofia da função raciocinante.

Para nós, pudemos mostrar não somente que o mundo próprio a esses sujeitos é transformado muito mais em sua percepção do que em sua interpretação, mas que essa percepção mesma não é comparável com a intuição dos objetos, própria ao civilizado da média normal. Por um lado, efetivamente, o campo da percepção é marcado nesses sujeitos por um caráter imanente e iminente de “significação pessoal” (sintoma quer dizer interpretação), e esse caráter é exclusivo dessa neutralidade afetiva do objeto que, ao menos virtualmente, o conhecimento racional exige. Por outro, a alteração, neles notável, das intuições espaçotemporais modifica o alcance da convicção de realidade (ilusões da lembrança, crenças delirantes).

Esses traços fundamentais da experiência vivida paranoica excluem-na da deliberação ético-racional e de toda e qualquer liberdade fenomenologicamente definível na criação imaginativa.

Ora, estudamos metodicamente as expressões simbólicas que esses sujeitos dão de suas experiências: por um lado, os temas ideicos e os atos significativos dos seus delírios; por outro, as produções plásticas e poéticas, em que são muito fecundos.

Pudemos mostrar:

1.– A significação eminentemente humana desses símbolos, que só tem análogo, quanto aos temas delirantes, nas criações míticas do folclore; e, quanto aos sentimentos animadores das fantasias, frequentemente não é sem paralelo com a inspiração dos mais grandiosos artistas (sentimentos da natureza, sentimento idílico e utópico da humanidade, sentimento de reivindicação antissocial).

2.– Caracterizamos nos símbolos uma tendência fundamental que designamos com o termo “identificação iterativa do objeto”: o delírio revela-se, com efeito, muito fecundo em fantasias de repetição cíclica, de multiplicação ubiquista, de infindáveis retornos periódicos dos mesmos acontecimentos; em duplicatas e triplicatas dos mesmos personagens; às vezes em alucinações de duplicação da pessoa do sujeito. Essas intuições são manifestamente parentes de processos muito constantes da criação poética e parecem uma das condições da tipificação, criadora do estilo.

3.– Mas o ponto mais notável que isolamos dos símbolos engendrados pela psicose é que os seus valores de realidade não são em nada diminuídos pela gênese que os exclui da comunidade mental da razão. Os delírios, com efeito, não necessitam de nenhuma interpretação para exprimir — só pelos seus temas, e de modo admirável — esses complexos instintivos e sociais que a psicanálise se dá tanto o trabalho de revelar nos neuróticos. Não é menos notável que as reações mortíferas desses doentes produzam-se muito frequentemente num ponto nevrálgico das tensões sociais da atualidade histórica.

Todos esses traços próprios à experiência vivida paranoica deixa-lhe uma margem de comunicabilidade humana, onde ela mostrou, em outras civilizações, toda a sua potência. E isso ela ainda não perdeu em nossa própria civilização racionalizante: pode-se afirmar que Rousseau, a quem o diagnóstico de paranoia típica pode ser dado com a maior certeza, deve à sua experiência propriamente mórbida a fascinação que ele exerceu no seu século pela sua pessoa e pelo seu estilo.[12] Saibamos também ver que o gesto criminoso dos paranoicos às vezes tumultua tão profundamente a simpatia trágica que o século, para se defender, já não sabe se deve despojá-lo de seu valor humano ou então acachapar o culpado sob a sua responsabilidade.

Pode-se conceber a experiência vivida paranoica, e a concepção do mundo que ela engendra, como uma sintaxe original, que contribui para afirmar, pelos laços de compreensão que lhe são próprios, a comunidade humana. O conhecimento dessa sintaxe parece-nos uma introdução indispensável à compreensão dos valores simbólicos da arte, e muito especialmente aos problemas do estilo — a saber, das virtudes de convicção e de comunhão humana que lhe são próprias, não menos que aos paradoxos de sua gênese —, problemas sempre insolúveis a toda e qualquer antropologia que não estiver liberta do realismo ingênuo do objeto.


INFORMAÇÕES ADICIONAIS | A revista Minotaure [Minotauro], publicada em Paris entre os anos de 1933 e 1939, foi um periódico de orientação surrealista fundado por Albert Skira [1904-1973], André Breton [1896-1966] e Pierre Mabille [1904-1952]. Tinha como objetivo apresentar o surrealismo à nova geração de teóricos e artistas; porém, com a deflagração da II Guerra Mundial, Skira se viu diante da necessidade de interromper a publicação no ano de 1939. Quanto ao volume contendo a tese de Lacan, acompanhada do compilado do qual faz parte este artigo que o autor havia publicado em 1933 na Minotaure, ele se encontra traduzido em português brasileiro: Da psicose paranoiaca em suas relações com a personalidade. Trad. A. Menezes; M. A. C. Jorge; P. M. Silveira Jr. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1987, pp. 375-380.



[1] Relativo a “númeno” (a coisa em si; a realidade tal como existe em si mesma, de forma independente da perspectiva), termo cunhado por Immanuel Kant [1724-1804] a partir do grego νοούμενoν — que em Platão era utilizado para falar da ideia, “aquilo que é pensado”. (N. do T.)
[2] Data de 1789 a “Déclaration des Droits de l’Homme et du Citoyen” [Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão]. (N. do T.)
[3] Philippe Pinel [1745-1826] estou em Montpellier, uma das primeiras universidades de medicina da Europa, fundada em 1220. Formou-se em 1773 e logo depois tornou-se doutor pela Escola de Medicina de Toulouse. Em Paris, frequentava os círculos de escritores, literatos e cientistas imbuídos pela filosofia iluminista. Em 1793, nomeado pelo Governo Revolucionário como médico-chefe do Hospital de Bicêtre e diante das precárias condições em que os alienados se encontravam, solicitou autorização à Assembléia Nacional para retirar as correntes dos pacientes, à época um tratamento usual para os doentes mentais. É considerado o principal percussor do processo de mudança que possibilitou o surgimento do alienismo na sociedade moderna, integrando a corrente que constituiu o saber psiquiátrico por meio da observação e da análise sistemática dos fenômenos perceptíveis da doença. Ao longo de todo o século XIX outros alienistas deram continuidade a tais conceitos a partir das observações por ele feitas. Em 1795, foi para o hospital de Salpêtrière, onde atuou por 31 anos. (N. do T.)
[4] Discípulo de Philippe Pinel [1745-1826] e continuador de sua obra, Jean-Étienne Dominique Esquirol [1772-1840] foi nomeado médico da Salpêtrière em 1811. Sua vida profissional destacou-se pelo empenho em construir e organizar diversos manicômios. Para ele, a loucura era definida pelo delírio e acometia a vontade; percepção que foi considerada, à época, um grande avanço em relação ao trabalho de Pinel, embora utilizasse elementos do tratamento moral. Via na questão do isolamento uma grande importância para o tratamento eficaz do paciente, e o justificava atribuindo à presença de parentes e amigos uma das causas da loucura. Ele e seus alunos tiveram um papel fundamental no estabelecimento do sistema institucional e da legislação do campo psiquiátrico francês, sobretudo com a aprovação de uma lei, que data de 1838, regulando a assistência aos doentes mentais e prevendo dois tipos de internação (a voluntária e a compulsória) — lei que seria copiada por diversos outros países. (N. do T.)
[5] O Artigo 64 do Código Penal francês havia sido criado pela Lei 1810-02-13, promulgada em 23 de fevereiro de 1810. Revogado posteriormente pela Lei 92-1336 de 16 de dezembro de 1992, com a entrada do novo Código Penal, ele previa que “não há nem crime nem delito se o acusado estava em estado de demência no momento da ação, ou se foi constrangido por uma força à qual não pôde resistir [força maior]”. (N. do T.)
[6] Psiquiatra alemão, Emil Kraepelin [1856-1926] foi discípulo de Wilhelm Wundt [1832-1920]. Em 1878, concluiu seu curso de medicina com uma tese sobre o lugar da psicologia na psiquiatria. Empregou as técnicas experimentais de Wundt para estudar os efeitos da droga, do álcool e da fadiga nas funções psicológicas e, em 1881, publicou um estudo sobre a influência das doenças infeciosas no surgimento de doenças mentais. Em seu Compendium der Psychiatrie (1883), apresentou sua classificação nosológica das perturbações mentais. Fez uma divisão entre doenças exógenas (causadas por condições externas e consideradas curáveis) e endógenas (que tinham causas biológicas, tais como danos cerebrais, disfunções metabólicas ou fatores hereditários, vistas como incuráveis). Para ele, a psicose maníaco-depressiva e a melancolia eram consideradas doenças exógenas — e, portanto, tratáveis — enquanto a esquizofrenia seria endógena — logo, intratável. Distinguiu pelo menos três variedades clínicas da esquizofrenia: catatonia (perturbação das atividades motoras), hebefrenia (reações/comportamentos emocionais inapropriados) e paranoia (alucinações e ilusões de grandeza e perseguição). (N. do T.)
[7] Ludwig Binswanger [1881-1966], psiquiatra e escritor suíço, iniciou seus estudos em medicina na cidade de Lauzanne, os quais foram continuados em Heidelberg e Zurique. Começando sua atuação profissional como assistente voluntário na Clínica Universitária de Burghölzli, ali trabalhou com Eugen Bleuler [1857-1939]. Orientado por Carl Gustav Jung [1875-1961], conclui sua tese de doutorado tendo como tema o reflexo psicogalvânico. Em seguida, estudou na Clínica Psiquiátrica Universitária de Jena (onde lecionava seu tio, Otto Binswanger [1852-1929]) e no Sanatório de Kreuzlingen, que havia sido fundada pelo seu avô. Em 1911 assume a direção do Sanatório, cargo que ocupará até 1956. Na Suíça, foi o primeiro a introduzir a psicanálise na clínica psiquiátrica — até o fim da vida, aliás, conservará firme sua amizade e sua abundante correspondência com Sigmund Freud [1856-1939]. Aplicando os princípios da fenomenologia existencial à psiquiatria, no entanto, ficará conhecido como precursor da daseinsanálise. Em 1956, receberia — juntamente com Ernst Kretschmer [1888-1964] — a Medalha Kraepelin pelos feitos no campo da psiquiatria. (N. do T.)
[8] No ano anterior, Binswanger havia publicado o artigo intitulado “Über Ideenflucht” [Sobre a fuga de ideais]. Ademais, em 1933, publica por uma editora suíça um livro homônimo. Cf. L. Binswanger (1932) “Über Ideenflucht”. Schweizer Archiv für Neurologie und Psychiatrie, vol. 27, n. 2, pp. 203-17. Cf. também: L. Binswanger (1933) Über Ideenflucht. Zürich: Art. Institut Orell Füssli. (N. do T.)
[9] J. Lacan (1932) De la psychose paranoïaque dans ses rapports avec la personnalité. Paris: Seuil, 1975. (N. do T.)
[10] Cf. a carta de Jacques Lacan [1901-1981] ao escritor surrealista Ferdinand Alquié [1906-1985], datada de 6 de agosto de 1929: “Πάντα ῥεῖ – Hiatus Irrationalis”. Disponível em: <escritosavulsos.com/1929/08/06/carta-alquie-3/> (N. do T.)
[11] Termo composto do grego antigo, παράνοια [para + noia] significa de-mência, des-razão, estar fora/além de si. (N. do T.)
[12] Cf. A. Lilti (2008) “The writing of paranoia: Jean-Jacques Rousseau and the paradoxes of celebrity”. Representations, vol. 103, n. 1, pp. 53-83. Disponível em: <histoire.ens.fr/IMG/file/Lilti/Lilti-Representations.pdf>. Cf. também: A. Lilti (2010) “Reconhecimento e celebridade: Jean-Jacques Rousseau e a política do nome próprio” [Trad. R. Campos]. Topoi, 2014, vol. 15, n. 29, pp. 635-649. Disponível em: <doi.org/10.1590/2237-101X015029010>. (N. do T.)

11.05.1933 | Um caso de demência precocíssima

[ Un cas de démence précocissime ]

Comunicação realizada por Henri Claude [1869-1945], Georges Heuyer [1884-1977] e Jacques Lacan [1901-1981], junto à Sociedade Médico-Psicológica de Paris, em 11 de maio de 1933. Nela é apresentado o caso, acompanhado no serviço coordenado por Claude, de um doente com 10 anos e meio de idade; segundo os autores, a criança é acometida pelo que, no começo do século, Sante de Sactis [1862-1935] havia chamado de “demência precocíssima”.

 

Annales Médico-psychologiques, 1933, vol. 1, n. 1, pp. 620-624.

 

O

ferecemos à controversa questão da demência precocíssima[1] a contribuição de um caso cujas evolução e apresentação atuais são absolutamente típicas da demência precoce, que se iniciou oito anos e meio atrás e vem evoluindo há dois.

Apresentação atual – G. Jacques, 10 anos e 1/2, apresenta-se num estado demencial cujas particularidades são características.

Entra, indiferente ao entorno. Senta-se quando lhe dão ordem e aos poucos adquire uma postura plicaturada — cabeça próxima dos joelhos, cotovelos colados no corpo —, que ele irá manter durante toda a apresentação, até o momento que, solicitado, deixará essa postura e irá embora com a mesma indiferença.

Mutismo completo. Sorriso estranho, inexpressivo, estático, alternando com uma mímica[2] ansiosa discordante, sobre um rosto com grande boniteza nos traços.

Os movimentos espontâneos são hesitantes, receosos, inibidos tão logo esboçados. Tateia os objetos como que ao acaso, cheirando-os às vezes; ao retornar a eles, não parece reconhecê-los. Na marcha, interrompe-se; dá meia-volta. Constatável balanço dos membros superiores.

Movimentos solicitados: obedece algumas pessoas por ordens simples; mas, frequentemente inibido, apresenta tipicamente o sinal da mão de Kraepelin.[3]

Os movimentos forçados encontram oposição. Por vezes cede e é possível constatar a ausência do sinal da roda dentada,[4] mas também certa hipertonia com um ligeiro ricochete ao final do movimento de extensão do antebraço sobre o braço.

Há um mês, surgimento de alguns sinais catatônicos, e particularmente de uma nítida conservação das posturas.

A ecomímia[5] existe há pelo menos seis meses. Agora muito fácil de obter, ela permite constatar a ausência de dismetria,[6] de adiadococinesia,[7] e até mesmo de distúrbios do equilíbrio estático (fica num só pé).

Leve hiperrefletividade tendinosa. Sem sinal de Babinski.[8]

Sem distúrbio da convergência ocular, nem da motilidade, a não ser um leve estrabismo externo que se marca por intermitência e que se pode nos afirmar congênito.

Incontinência permanente, urinária e fecal.

Sem estado saburral da língua. Sem sialorreia.[9]

No sangue, Bordet-Wassermann,[10] Meinicke[11] e Kahn[12] negativos.

Líquido cefalorraquidiano: hipertensão: 48-27 (sentado).[13] Albumina: 0,12. Açúcar: 0,65. Leucócitos: 2. Reação do benjoin:[14] 00000.02200.00000. Bordet-Wassermann negativo.

(621) Bom estado físico. Desenvolvimento corporal mediano, delgado, astênico.

Implantação baixa dos cabelos.

Orelha irregular, assimétrica, descolada à esquerda, com tubérculo de Darwin[15] bilateral e lóbulos anexados.

Axifoide.[16] Desenvolvimento genital normal.

Esvaziamento petromastoideu[17] à direita. Do mesmo lado, cicatriz operatória pré-esternocleidomastoidea de cerca de 10 cm.

Histórico da doença – Anamnese pela mãe.

Nascido a termo, 4 kg. 500, parto normal. Primeiro dente: seis meses. Marcha: 17 meses. Primeiras palavras por volta dos 18 meses. Frase pequena por volta dos dois anos e 1/2, três anos. Desfralde aos dois anos. Um irmão, bem de saúde, com 6 anos. Sem abortos. Mãe bizarra.

Broncopneumonia aos três anos. Sarampo seguido de mastoidite[18] aos seis anos. Em seguida, período de febre alta, a princípio sem explicação (pensa-se numa apendicite), que se resolve, diz a mãe, com a “operação da jugular”.

Parece, quando se a interroga de perto, que a criança nunca havia sido muito adiantada na escola. Mas, durante os meses que antecederam a doença, “ela deu uma boa recuperada” — sucesso efêmero no qual a mãe insiste para marcar o contraste com o declínio mental que veio em seguida.

A invasão catastrófica dos distúrbios é situada por ela em fevereiro de 1932, e antecedida por um episódio infeccioso muito limitado, qualificado como gripe.

Na realidade, reações estranhas haviam surgido uns seis meses antes. A bem da verdade, a situação familiar estava sendo perturbada pela presença de um terceiro que ocasionava violentas cenas de ciúme por parte do pai. A criança, então com oito anos e 1/2 de idade, é por isso afetada com uma intensidade que parece acima de sua idade. Ao mesmo tempo, dá a ver ímpetos violentos de uma evidente absurdidade (sem ser provocado, joga para longe diversos objetos que pertenciam à mãe). Marca em seus dizeres uma desafeição totalmente discordante em relação aos avós maternos, que até então amava muito. Mas mostra-se brilhante na escola. É só em fevereiro de 1932 que ele tem de deixá-la, quando surge o renque de distúrbios mentais em que seu círculo próximo reconhece a doença.

Ponto digno de nota, esse início clínico é de natureza delirante. Ansiedade extrema.

Insônia. Estados oníricos: vê um olho por trás das cortinas, visões atrozes perto de si; ouve coisas, que lhe dão medo, sobre o bicho-papão: “Não era a mãe que falava disso para ele, mas ele próprio”.

Mas, sobretudo, ideias hipocondríacas, ciente de estar gravemente acometido: olha-se no espelho, acha-se amarelo; diz que sofre do mesmo mal que um primo seu, pós-encefalítico comprovado, que apresenta um espasmo de torção. Por outro lado, temas de interpretação (622) típica: o estão seguindo, fazem reflexões a seu respeito na rua, o merceeiro lhe quer mal. A criança tem medo de ficar sozinha no cômodo.

Crises de violência, murros na mãe e na irmã; ataques de choro em que repete que não quer morrer. Ao mesmo tempo, imitação histeriforme da contratura do primo.

Este apresenta distúrbios motores pós-encefalíticos há dois anos, com integridade intelectual: está em contato frequente com a criança, que ele ajuda nas tarefas e a quem ensina violino.

Nota-se então em nosso doente um emagrecimento, que é logo seguido de um ganho de peso; algumas cefaleias; nem vômito, nem diplopia, nem sonolência, nem crises convulsivas, nem febre, nem outro fenômeno meníngeo. A criança dizia que tinha “areia nos olhos”, e isso é tudo o que se encontra como distúrbio da visão.

Aplicaram-na então uma série de sulfarsenol,[19] a qual desencadeia uma agitação extrema e é interrompida.

Em maio de 1932 um de nós é consultado a respeito de seu caso, e é de se compreender que então só se tenha falado em episódio confusional, em acidentes histeriformes. Nota-se uma agitação ansiosa, queixas, lamentações; a criança agarra-se à mãe, resiste, faz cara feia, fica imóvel e de cabeça baixa, apresenta movimentos frequentes de sucção. Seu estado mental, no entanto, é tal que permite o exame com os testes de Binet e Simon,[20] revelando um retardo mental de dois anos.

Nenhum sinal neurológico, taquicardia. Admitido quinze dias depois no anexo de neuropsiquiatria infantil  e  colocado em isolamento, apresenta então tiques  incessantes, particularmente movimentos de focinho — um estado hipomaníaco que determinou a sua admissão. Realizou várias tentativas de fuga e foi encontrado, certa vez, na plataforma de uma estação.

No serviço apresentará alternâncias entre excitação, com ansiedade extrema e gritos, e estupor indiferente. Com Gardenal,[21] dorme bem. Tem ataques de gulodice. Ímpetos de fuga extremamente bruscos (pula por uma janela do térreo); deteriora e quebra objetos.

Obedece ordens simples; apresenta um mutismo psicogênico que cede quando se o contraria; responde, no mais das vezes, através de grunhidos ou tiques executados à guisa de resposta, e olhando para o observador. Colocado na presença da mãe, ele diz: “É uma senhora”; no entanto, a reconhece, apesar da ausência aparente de toda e qualquer emoção. Na sala de exames, inspeciona irrequieto todo os cantos e armários.

Desmazelado com a higiene, incontinente. O monitor aponta: “momentos de alegria e de vivacidade extraordinária” e “atitudes de pavor e de sofrimento”.

Uma melhora sensível permite deixá-lo por dois meses, durante as férias, com a família. Mostra-se calmo, mas inafetivo, desconexo, parcialmente desorientado, semimudo. Vagas ocupações; (623) no entanto, brinca corretamente com o seu trilho de brinquedo, interessando-se, ademais, apenas pelas formações de trens na via próxima —  formações que ele vai espreitar de uma ponte que a atravessa, sem realizar, aliás, nenhuma tentativa inquietante.

Em novembro trazem-no de volta até um de nós, que, diante de seu estado nitidamente agravado, dá o diagnóstico de demência precocíssima. Determinadas modificações episódicas aparecerão em seu estado; os tiques desaparecerão, mas a criança irá mergulhar numa postura cada vez mais monótona de demência hebefrênica.[22] Após um curto período de emagrecimento, irá se estabilizar numa relativa engorda. Os tratamentos serão ineficazes. Certa vez, será constatado um tremor especial dos dedos, “enrolando pílulas”.[23] Auscultação e radiografia do tórax negativas. Com pouca diferença, fixou-se há seis meses em seu estado atual.

Diante desse estado e dessa evolução, pensamos poder concluir:

1°) pelo diagnóstico de demência precocíssima, com o péssimo prognóstico que a estabilização psíquica e somática da doença comporta;

2°) quanto à etiologia, não podemos determinar o eventual papel de uma encefalite epidêmica, para a qual as presunções que a observação nos fornece são insuficientes: contato inegável com um encefalítico, episódio infeccioso no início, mas caráter muito reduzido e muito fugaz dos raros sinais clínicos que teriam um valor de probabilidade.

Na ausência de informações mais precisas, não podemos nos pronunciar sobre a possível existência de uma reação meníngea, no momento que a criança teve muito provavelmente uma tromboflebite[24] do golfo de sua jugular.[25]

3°) Notemos, por fim, a existência prévia de certo estado de debilidade mental e a significação, muito provavelmente já patológica, das brilhantes faculdades reconhecidas na criança — evolução já notada em observações de demência precocíssima, e particularmente numa do Dr. Jost,[26] de Estrasburgo.[27]

Sr. COURTOIS[28] – Creio que a mastoidite supurada, por sua reação nas meninges, pode ter tido um papel mais provável que o hipotético contágio da encefalite do primo.

Sr. XAVIER ABÉLY[29] – A tuberculose pode ter tido um papel.

(624) Sr. LACAN – Não me parece ter havido aí nenhuma inegável manifestação tuberculosa no passado do sujeito. O nosso inquérito não nos permite determinar se houve uma reação meníngea no decorrer das complicações da mastoidite.


INFORMAÇÕES ADICIONAIS | Sobre as relações entre a demência precocíssima e a esquizofrenia infantil, cf. A. Homburger (1926) Vorlesungen über Psychopathologie des Kindesalters. Berlin: Springer; A. A. Brill (1926) “Psychotic children: treatment and prophylaxis”, American Journal of Psychiatry, vol. 82, n. 3, pp. 357-64; H. W. Potter (1933) Schizophrenia in children, American Journal of Psychiatry, vol. 89, n. 6, pp. 1253-1270. Sobre a demência precoce, tal como descrita por Emil Kraepelin, cf. M. de Campos (1929) “O grupo das esquizofrenias ou demência precoce. Relatório apresentado ao III Congresso Brasileiro de Neurologia, Psiquiátrica e Medicina Legal. Rio de Janeiro. Julho de 1929”, História, Ciências, Saúde-Manguinhos, Rio de Janeiro, vol. 17, supl. 2, pp. 709-732. Disponível em: <dx.doi.org/10.1590/S0104-59702010000600030>. (N. do T.)



[1] Sante de Sactis [1862-1935], médico pioneiro do campo da psicologia na Itália, fala pela primeira vez daquilo que denomina “demência precocíssima” no ano de 1905, em Roma, quando do 5º Congresso Internacional de Psicologia. Nesse momento, ele a considera como sendo uma psicose que apresenta analogias com a demência precoce, descrita pelo psiquiatra alemão Emil Kraepelin [1856-1926]. E apesar de, em 1924, chamá-la de “esquizofrenia pré-púbere”, serão os trabalhos de A. Homburguer (1926), A. A. Brill (1926) e H. W. Potter (1933) que irão estabelecer a pertinência do conceito de Eugen Bleuler [1857-1939] para a compreensão de patologias infantis. Cf. G. Morgese; G. P. Lombardo (2017) Sante De Sanctis. Le origini della neuropsichiatria infantile nell’Università di Roma: la dementia praecocissima. Roma: Università La Sapienza. (N. do T.)
[2] Trata-se da mímica facial. Os músculos delgados responsáveis pelas expressões faciais são chamados, justamente, de músculos da mímica facial. (N. do T.)
[3] Possivelmente se trate daquilo que, em seu Psychiatrie, ein Lehrbuch für Studierende und Ärzte [Psiquiatria, um manual para estudantes e médicos], Emil Kraepelin [1856-1926] descreve como um aperto de mãos característico entre os maneirismos apresentados pelos pacientes acometidos por demência precoce: estender ao outro apenas a borda da mão ou a ponta dos dedos. Em inglês: E. Kraepelin (1889) Dementia praecox and paraphrenia. Trad. R. M. Barclay. Chicago: Chicago Medical Book Co., 1919, pp. 107, 127. (N. do T.)
[4] Sintoma neurológico extrapiramidal devido à hipertonia muscular e a consequente limitação dos movimentos passivos dos segmentos dos membros. Ocorre uma resistência que cede aos poucos, como que em pequenos trancos, o que remete aos movimentos de uma roda dentada. Trata-se de um sinal semiológico observado na doença de Parkinson. (N. do T.)
[5] Repetição automática da mímica do observador. (N. do T.)
[6] Incapacidade de direcionar ou limitar adequadamente os movimentos. (N. do T.)
[7] Incapacidade de executar movimentos alternados rápidos. (N. do T. )
[8] Também chamado de “reflexo plantar”, o sinal de Babinski — que recebe o nome do neurologista francês que o descobriu, Joseph Babinski [1857-1932] — consiste na extensão do hálux e na abertura em leque dos dedos em decorrência de um estímulo na planta do pé. (N. do T.)
[9] Escoamento de saliva para fora da boca. (N. do T. )
[10] Levando os nomes de Jules Bordet [1870-1961] — Nobel de fisiologia e medicina em 1919, por sua descoberta do bacilo da coqueluche — e August Paul von Wassermann [1866-1925] — um bacteriologista alemão —, a reação Bordet-Wasserman trata-se de uma reação de hemólise (dissolução dos glóbulos vermelhos) que foi desenvolvida por Wassermann em 1906, não sem reconhecer a importância de achados anteriores realizados por outros cientistas, dentre eles Jules Bordet. Consistia essencialmente em pôr frente a frente o antígeno, um complemento e o soro suspeito de conter o anticorpo sifilítico, permitindo detectar precocemente um anticorpo não específico contra a sífilis (a anticardiolipina), garantindo a intervenção medicamentosa precoce. Cf. E. Gonçalvez (1926) Sobre a sero-reacção de Bordet-Wasserman. Porto: Enciclopédia portuguesa. Disponível em:  <repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/17673/2/221_2_FMP_TD_I_01_C.pdf>. (N. do T.)
[11] Desenvolvida pelo serologista alemão Ernst Meinicke [1878-1945], trata-se de uma reação para diagnóstico da sífilis, consistindo na floculação do soro com um extrato de miocárdio bovino. (N. do T.)
[12] Semelhante à Bordet-Wasserman, trata-se de uma reação de floculação do líquido cefalorraquidiano para diagnóstico da sífilis desenvolvida pelo imunologista lituano Reuben Leon Kahn [1887-1979]. (N. do T.)
[13] A pressão considerada normal, para o paciente sentado, é de 30-20 cmH2O (ou 24-16 mmHg). (N. do T.)
[14] A Reação do Benjoim Coloidal é uma reação de floculação de uma suspensão coloidal de benjoim pelo líquido cefalorraquidiano (L.C.R.) utilizada como meio de diagnóstico tanto da sífilis quanto das meningites. Ela é realizada em 15 (ou 16) tubos nos quais se faz a diluição sucessiva do L.C.R., e a cada tubo adiciona-se a mesma quantidade de coloide de benjoim, observando-se, depois, a ocorrência ou não de floculação nos tubos. O tubo que não apresentar floculação receberá o valor 0; o tubo com floculação total, o valor 2;  o que for parcial, o valor 1. Dito isso, o resultado será dado por uma sequência de 15 algarismos (ou uma vírgula e mais um), contados da direita para a esquerda. (N. do T.)
[15] Saliência cartilaginosa na borda da orelha. (N. do T.)
[16] Não apresenta apêndice xifoide, localizado na extremidade inferior do esterno. (N. do T.)
[17] Esvaziamento da porção do osso temporal conhecida como porção petrosa (ou ainda piâmide ou parte petrosa), que abriga os órgãos da audição e do equilíbrio. (N. do T.)
[18] Infecção bacteriana da apófise mastoide: o osso proeminente situado atrás do ouvido. (N. do T.)
[19] Sulfarsenol (ou sulfarsfenamina) trata-se de um antibiótico, de aplicação geralmente intramuscular, utilizado no tratamento da sífilis congênita infantil. Foi desenvolvido por volta de 1915 na cidade de Paris, no laboratório do médico germano-guatemalteco Friedrich Lehnhoff [1871-1932] (N. do T.)
[20] Com sua primeira versão datando de 1905 (e a segunda e a terceira, respectivamente, de 1908 e 1911), a bateria de teste Binet-Simon leva o nome de seus dois criadores: Alfred Binet [1857-1911] —que havia sido pupilo de Jean Martin Charcot [1825-1893] — e Théodore Simon [1872-1961]. (N. do T.)
[21] Introduzido em 1912, o famigerado nome comercial se refere a um medicamento cujo princípio ativo, o fenobarbital, é um barbitúrico com propriedades anticonvulsivantes e sedativas. (N. do T.)
[22] Forma de esquizofrenia que se entende manifestar na adolescência, caracterizando-se por depressão, imaginação absurda e ilusória com deterioração gradual e progressiva das faculdades mentais. (N. do T.)
[23] Tremor rítmico típico da doença de Parkinson, envolve o polegar e o indicador. Assemelha-se ao ato de contar moedas (ou enrolar pílulas). (N. do T.)
[24] Inflamação de uma ou mais veias causada por um coágulo sanguíneo. (N. do T.)
[25] O seio sigmoide (um dos seios venosos da dura-máter, a mais externa das meninges) faz um trajeto curvo em direção anterior e inferior. Na sua extremidade anteroinferior, ele muda de direção, para cima, e então mergulha em direção ao pescoço. A saliência originada por isso recebe o nome de “bulbo da veia jugular”; e, por sua vez, a cavidade do osso temporal que a abriga é denominada “golfo da jugular”. (N. do T.)
[26] Waldemar Jost [?-?] havia sido assistente da Clínica Psiquiátrica da Faculdade de Medicina de Estrasburgo, na França, na qual viria a ser chefe de laboratório. (N. do T.)
[27] W. Jost (1927) “Dementia praecocissima”, Travaux de la clinique Psychiatrique de la Faculté de Médecine de Strasbourg. Strasbourg: Les Editions Universitaires de Strasbourg, p. 191. [Disponível em: <gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k9646473h/f203> (N. do T.)].
[28] Aluno de Ludovic Marchand [1873-1976], Adolphe Courtois era cunhado de Édouard Toulouse [1865-1947], com quem colaborou no Hospital Henri-Rousselle, no complexo hospitalar Sainte-Anne. Fez seu externato em 1923 e seu internato manicomial em 1927; foi médico-assistente e, a partir de 1931, titular manicomial. Em sua curta carreira, empreendeu diversas investigações biológicas e anatomopatológicas, abordando temas nos quais neurologia e psiquiatria encontravam-se intimamente relacionadas. Defendeu seu doutorado na Faculdade de Medicina de Paris, com uma tese intitulada Sur un syndrome comitio-parkinsonien: étude anatomo-clinique [Sobre uma síndrome epileptoparkinsoniana: estudo anatomoclínico] (Paris: Libr. Le François, 1928), diante de uma banca presidida pelo emérito Georges Guillain [1876-1961], o qual — na companhia de dois outros colegas — havia descrito a doença que também levaria seu nome: a Síndrome de Guillain-Barré (em que o sistema imunológico ataca os nervos do enfermo). Em 1925, havia sido um dos fundadores da revista L’Évolution psychiatrique, tendo como intuito conjugar psiquiatria e psicanálise. Seus caminhos e os de Jacques Lacan [1901-1981] cruzaram-se em diversas ocasiões. (N. do T.)
[29] Xavier Abély [1890-1965] obteve o título de doutor em medicina na cidade de Toulouse, no ano de 1916. Viria a ser médico-chefe tanto do hospital psiquiátrico Villejuif quanto de Sainte-Anne, em Paris. (N. do T.)